Murillo Victorazzo*
Pelas telas de cinema, o mundo viu recentemente o drama de uma família de desaparecido político durante a ditadura militar brasileira. Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, “Ainda estou aqui” reconstitui apenas um episódio de uma longa e sinistra temporada que durou 25 anos e na qual inúmeros outros personagens se destacaram como vítimas e algozes. Nas cenas que sucedem à prisão de Rubens Paiva, uma passagem retrata a cumplicidade de jornais com o regime: “Terror liberta ex-deputado de um carro dos federais” é a manchete que Eunice, a esposa e protagonista da trama, lê enquanto o ex-deputado, após dois dias sob tortura, já se encontrava morto nos porões do DOI-CODI. “É notícia plantada, mas pelo menos agora todos sabem que ele foi preso”, comenta um dos amigos ao seu lado.
É notório o apoio dos principais jornais brasileiros ao golpe de 1964 e à ditadura que o seguiu, mesmo que possa não ter sido por todo o período ou de forma reativa à pressão do militares, empoderados pela censura institucionalizada e seu violento aparato coercitivo. Casos como o mencionado no filme eram consequências inevitáveis. No entanto, o Grupo Folha se distinguiu por alçar a outro patamar sua relação com a regime, indo muito além da mera autocensura, posição não rara de jornais diante de contextos ditatoriais, uma espécie de “acordo foçado” que os fazem publicar somente notícias convenientes à continuidade da empresa.
Mais do que apoio editorial, a empresa teve participação ativa na sustentação do regime, inclusive com fundamental apoio material a órgãos de repressão. São esses vínculos, caso único no Brasil, que são expostos em “A serviço da repressão – Grupo Folha e violações de direitos na ditadura”, um minuciosa pesquisa historiográfica desenvolvida durante dois anos por seis profissionais da área do Jornalismo e da História, vencedora de edital público do Centro de Antropologia de Arqueologia Forense (CAAF/Unifesp), com apoio do Ministério Público Federa (MPF).
Lançado em março, o livro é dividido em quatro capítulos, a partir dos quais são revisitados o desenvolvimento do Grupo Folha, desde sua criação até a redemocratização, e analisados os diversos tipos de vínculo com a ditadura, além de violações de direitos de seus próprios funcionários. Em 218 páginas, Ana Paula Goulart Ribeiro, Amanda Romanelli, André Bonsanto, Flora Daemon, Joëlle Rouchou e Lucas Pedretti esmiúçam, baseados em documentos, muitos deles inéditos, de inúmeros órgãos estatais, sindicatos, além de arquivos de jornais e 44 entrevistas, somando 100 horas de gravação, tanto de vítimas como de agentes da repressão, a estarrecedora simbiose que houve entre a ditadura e os jornais da empresa: Folha de São Paulo, Notícias Populares, Última Hora - e especialmente a Folha da Tarde. Um entusiasmado apoio dado não como autoproteção passiva diante das dificuldades econômicas pelo qual ela passava, como propagado por seus donos, mas um tanto por afinidade ideológica e principalmente por interesses econômicos.
“A preocupação com as dívidas não afastou a empresa da política, pelo contrário. Fez com que se engajasse fortemente no movimento golpista, que abriria o caminho para a expansão de seus empreendimentos. E, uma vez iniciado o regime autoritário, a Folha aprofundou seu apoio, tornando-se cúmplice em violações de direitos humanos perpetradas pelos militares”, constata a pesquisa, Os jornais da Folha “eram veículos de legitimação do regime e da violência por ele perpetrada”. Embora sem formação jurídica, os autores, orientados pelo Informe de la Comisíon Internacional de Juristas, publicado em 2008, levantam pontos que os permitem defender a responsabilização legal da empresa por cumplicidade em tais violações. Baseado na pesquisa, o MPF já abriu inquérito contra o grupo. A investigação encontra-se, segundo os procuradores, em segredo de justiça.
Dentre tantos elos entre a repressão e o Grupo Folha, o mais impressionante - e principal prova do apoio material - é a cessão de automóveis da empresa para operações do aparato repressivo contra opositores do regime. O disfarce facilitava o trabalho da ditadura por chamar menos atenção dos transeuntes nas ruas. Rumores sempre existiram. Em “Notícias do Planalto” (1999), por exemplo, Mario Sergio Conti os aborda. O próprio Otavio Frias Filho, em depoimento para a biografia de seu pai, Octávio Frias de Oliveira, em 2007, admitiu o “uso de caminhões de transporte por equipes do DOI-CODI para fazer campana e até prender guerrilheiros, ou supostos guerrilheiros”. O herdeiro, porém, se disse convicto de que “isso foi feito à revelia” de Frias e Carlos Caldeira Filho, o outro proprietário do grupo à época - tese desmontada pelo livro. Com inúmeros exemplos e fontes, os autores demonstram que tratava-se não apenas de casos sistemáticos como “um entendimento prévio entre os dirigentes e os agentes”. Não foram fatos isolados as vítimas fatais daquelas emboscadas.
“Estou dizendo a você com 100 % de convicção que a Folha participava, dava colaboração às operações de rua, onde as pessoas que entravam no ponto morriam (...) houve um caso... ele conseguiu romper o cerco. Mas a maioria morreu (...) Se a Folha não tivesse proporcionado os meios, os recursos, os fins não seriam aqueles. Foram aqueles porque houve uma infraestrutura que facilitou aquele desfecho (...) Era um processo de infiltração gigantes e isso não passaria despercebido, em hipótese alguma, da direção do grupo”, admite Marival Chaves, ex-agente do DOI-CODI. em depoimento aos autores.
A cessão era de conhecimento de organizações de esquerda, motivo pelo qual, em represália, a Aliança Libertadora Nacional (ALN) incendiou alguns desses veículos: “O DOI-CODI passou a utilizar esses carros para preparar armadilhas e ações contra a esquerda em geral, e nós ficamos sabendo. Eu não sei quantos carros queimamos, mas cerca de dois ou três foram queimados pela organização para mostrar para a Folha que estávamos sabendo. Não era só Folha, era a Ultragaz, a Light...Mas a Folha fazia esse trabalho sistemático, entregas sistemáticas com as caminhonetes deles, onde ficavam escondidos os policiais que preparavam armadilha para pegar a esquerda”, lembra André Ota, a época estudante de Física na USP e integrante da ALN.
Francisco Carlos de Andrade, também ex-membro da organização, recorda-se do que viu quando esteve preso entre 1971 e 1972: “Os carros estacionados dentro do DOI-CODI não tinha sentido. Porque aquilo era carro de entrega de jornal. Eram caminhonetes com carroceria, coisa aberta e eles faziam defesas ali com saco de areia, como se fosse proteção para os policiais que estavam ali dentro”. A simbiose era de tamanho conhecimento na oposição que, segundo Adriano Diogo, outro militante da ALN, “na USP [onde estudava] ver o carro da Folha era ver o carro da repressão, era a mesma coisa (...) era o jargão da universidade: onde tem carro da Folha tem carro da repressão”.
Assim como de outras empresas jornalísticas, os jornais do Grupo Folha se caracterizaram por dar como verdade as informações provenientes dos órgãos de repressão. Nas manchetes, torturas e assassinatos nos porões do DOPS e DOI-CODI tornavam-se suicídios ou mortes decorrentes de fuga e confronto com a polícia. Membros da luta armada eram transformados em perigosos “terroristas” que ameaçavam o cotidiano de paz da família brasileira, “enquadrados por narrativas de cunho muito mais policial do que políticos”. Os veículos de Frias e Caldeira, em especial a Folha da Tarde, contudo, galgaram alguns degraus na espúria parcialidade.
O caso mais emblemático relatado no livro é o de Joaquim de Alencar Seixas, membro do Movimento Revolucionário Tiradentes. Além de sua morte sair como decorrente da troca de tiros com policiais após “reagir violentamente”, a notícia foi divulgada antes mesmo dela ocorrer nas dependências do DOI-CODI. Levado preso junto com seu pai, sua mãe e suas irmãs, todos torturados, o filho Ivan, de 16 anos, viu pelas bancas de jornais o que aconteceria somente quase 24 horas depois. O adolescente havia sido retirado do DOI-CODI para uma simulação de fuzilamento em um parque paulistano, quando, da viatura da repressão, leu, como manchete da Folha da Tarde, que seu pai havia sido morto:
“(...) Quer dizer, já estavam decididos a matar meu pai. Quando eu vejo a manchete, penso na hora: mataram o velho e eu serei o próximo (...) quando eles voltam comigo para o DOI-CODI, vejo meu pai ali, ainda vivo, sangrando muito na cabeça, amarrado na cadeira do dragão. Eu vejo que ele ainda não tinha morrido, mas ia ser assassinado”, lembra, em entrevista aos pesquisadores, Ivan.
A princípio, o “equívoco” da Folha poderia ter sido reproduzir acriticamente a única versão possível de se obter em cenário de cerceamento de informações. É mesmo difícil fazer jornalismo independente sob ditaduras. Não era, entretanto, bem assim. Todos os jornais do grupo recebiam as mesmas notícias da Agência Folha, o que os distinguiam era o enquadramento dado a elas. Enquanto a Folha de São Paulo priorizava os feitos do governo no campo econômico e social, a Folha da Tarde destacava a vitória do regime no combate à guerrilha, com manchetes sensacionalistas que sempre remetiam a ”terrorismo”. Carregava nas cores as adjetivações parciais e, muitas vezes, reproduzia integralmente as considerações da polícia. Rotulava os militantes de organizações de esquerda como “facínoras”, “loucos”, “maníacos”, ignorando o direito de defesa, a presunção de inocência e a distinção entre guerrilha e terrorismo. Alguns presos nem sequer participar de ações armadas haviam. Não hesitava em expor em suas páginas os dados pessoais desses militantes, sem se preocupar com possíveis consequências, dado o ambiente inflamado na opinião pública.
Reforçava a angulação pró-regime a proximidade pessoal do diretor de Redação, Antonio Aggio Júnior, com a cúpula dos órgãos de repressão. Desde 1962, ele ocupava um cargo administrativo na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e atuava na assessoria do delegado Sérgio Fleury, diretor Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS-SP). Condenado ainda na década de 70 por sua atuação em esquadrões da morte na periferia paulistana (condenação revertida após alteração sob medida da legislação), Fleury é um dos nomes mais citados em investigações e pesquisas sobre tortura, sequestros, execuções e desaparecimentos ocorridos durante a ditadura. Aggio era ainda afilhado do primeiro comandante da Oban, tendo sido, segundo seu próprio depoimento ao projeto de História Oral da própria Folha, o responsável por convencer o aparato repressivo a permitir noticiar atos considerados “terroristas”:
“Porque, embora concordando que, realmente, o terrorista procura a repercussão dos seus atos, (...) tem o outro lado: a população fica com ódio, entendeu? Eu convenci a porra do general (....) Daí para frente, [o general Sílvio Correia de Andrade, superintendente da Policia Federal de São Paulo] virou um cara maravilhoso. Podia ligar para ele a hora que quisesse (...) O que eu queria era isso, era a manchete do terrorismo para vender jornal, daí pra frente deitamos e rolamos”, conta Aggio. Dados do IBOPE mostram que, entre 1973 e 1978, a Folha da Tarde chegou a ser o jornal do grupo mais vendido em banca, com números superiores aos da própria Folha de São Paulo. Ambos à frente dos dois jornais do grupo “O Estado de São Paulo”, maior empresa de mídia impressa no estado até o início da década de 70.
Ainda repórter, Aggio utilizou um carro da Folha de São Paulo para camuflar a entrada de conspiradores em um quartel na noite em que se deflagrou o golpe de 1964 e usou telex da sede para passar as mensagens cifradas que, de acordo com ele, à época repórter do jornal, foi a senha para levantar o II Exército. Tudo seguindo instruções de seu padrinho general. Mesmo na chefia da Folha da Tarde, não deixou de receber como agente estatal. Ao assumir o jornal em 1968, ano da instauração do Ai-5, levou consigo vários jornalistas também policiais que trabalhavam no DOI-CODI ou DEOPS, conforme confirmam ao livro outros repórteres que ali trabalhavam à época sob pressão e espionagem. Um redação repleta de “gorilas” travestidos de repórteres, um deles sentado na cadeira de chefe de reportagem. “Jornalistas” com “livre acesso nas organizações militares das três armas, na área de São Paulo, para cobertura de eventos militares”, de acordo com relatório do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa). A mistura de papéis era tão grande que a redação parecia funcionar como delegacia.
A nem tão sutil diferença da Folha da Tarde para os demais jornais é exemplificado por Ivan ao lembrar da manchete sobre a morte de seu pai: “A capa da Folha da Tarde, é muito importante que se diga isso, ela noticia, como todos os outros jornais, a nota oficial do II Exército. É a mesma nota. Só que o Estadão, a própria Folha de São Paulo, o Jornal da Tarde, o Globo, qualquer outro, publicavam a nota dura e seca: ´os órgãos de segurança informam que...`. A Folha da Tarde, por ser um órgão porta voz do DOI-CODI, por ser feito por gente do DOI-CODI que estava ali dentro, eles não dão a nota apenas, eles comemoram, incitam a classe média a comemorar a morte de mais um”, frisa ele. Não à toa, afirmam os autores do livro: “A análise de seus exemplares não deixa dúvida do porquê o periódico passou a ser conhecido como órgão oficial da Oban, ou, nas palavras de Claudio Abramo [um dos principais ícones do jornalismo brasileiro], ´o jornal mais sórdido do país´”.
No entanto, a presença de agentes da repressão no quadro de funcionários com vínculo trabalhista do Grupo Folha não se resumia à Folha da Tarde. Também no Noticias Populares e na Folha de são Paulo, estavam cotidianamente eles, com “metralhadoras em cima da mesa”, em cargos administrativos, de segurança e redação. Até mesmo a Agência Folha teve entre seus diretores um jornalista também delegado da Polícia Civil. Editores da agência mantinham relações com integrantes dos órgãos de segurança que iam além da convivência crítica com fontes: “O seu editor, da agência, sabia mais do que você que ia no local, porque ele tinha uma relação com o delegado: olha você tem que escrever isso aqui. Perguntei onde ele pegou isso. ´O delegado é meu amigo, me contou que esse grupo, esse bando, foi preso (...)´ Eles tinham uma relação muito tranquila, eram amigos, saíam juntos, bebiam juntos no bar. Os bares da Barão de Limeira [rua da sede da Folha] são a prova disso, na época que o pessoal saia com os delegados”, recorda para a pesquisa Oswaldo Luis Vitta, repórter da Folha à época.
Segundo inquérito do Superior Tribunal Militar (STM), documentos de outros acervos estatais e inúmeros depoimentos, os delegados do DEOPS-SP Roberto e Edward Quass, ligados a Fleury e “de confiança da alta cúpula do regime”, chefiavam os serviços de segurança das empresas do grupo “ao mesmo tempo que colaboravam sistematicamente com as atividades de repressão”. “Eu imaginava que seria apenas para garantir a segurança material da empresa e a segurança pessoal dos funcionários. Mais tarde, dava pra entender que era também um mecanismo da empresa com as forças de repressão. Era, digamos, a forma institucional pela qual a Folha se juntava a repressão”, explica Vitta. “Doutor [Edward] Quass era a informação, era papel; o doutor Fleury era a operação, era dar o bote”, ilustra Carlos Alberto Augusto, investigador de polícia que atuou no DEOPS-SP, de onde saíram também o motorista pessoal de Frias e os seguranças de seus filhos.
Ainda que admitam não ter sido possível comprovar “uma relação direta, de causa e feito, entre a ascensão dos militares e a expansão do Grupo Folha”, há, segundo os pesquisadores, “muitos elementos que indicam que Frias e Caldeiras aproveitaram-se da conjuntura política e souberam utilizá-la em benefício de seus negócios. O incremento de ganhos econômicos, no contexto da ditadura, pode ser evidenciado pela formas como suas empresas se consolidaram como um conglomerado de comunicação”.
Entre esses elementos, estão a rápida expansão do grupo, com a aquisição de jornais, rádio e televisão, logo nos anos iniciais da ditadura. Aquisições, muitas vezes, ocorridas em meio a denúncias e suspeitas de irregularidades - todas elas detalhadas no livro. Também estão incluídas “canetadas” da burocracia estatal em seu benefício, troca de favores com os governador e prefeito biônicos de São Paulo e financiamentos especiais de bancos e programas estatais. Bastante sintomático é o fato de algumas dessas compras terem sido viabilizadas graças às dificuldades financeiras pelos quais passavam os poucos meios de comunicação contrários ao golpe militar. Enfraquecidos pela perseguição do militares, o jornal Última Hora, de Samuel Wainer, e a TV Excelsior são exemplares nesse sentido.
Outro sinal do bem sucedido manejo do contexto político é boa relação com Washington, comprovada, por exemplo, por um telegrama localizado no acervo do projeto Opening the archives, no qual o consulado norte-americano em São Paulo cita Frias como fonte acerca das movimentações políticas do general Albuquerque de Lima, visto como “extremamente antiamericano”. Não se pode afirmar, ressalva o livro, que o empresário era um informante da Casa Branca, mas trata-se “um indicio inequívoco das excelentes relações que mantinha com altos funcionários daquele pais, bem como do alinhamento cm seus valores e objetivo”.
Outra evidência do vínculo com os norte-americanos é um documento do DEOP-SP de 1969 em que se afirmava estar “correndo muito dinheiro para a compra de empresas, prédio e terreno” pelo Grupo Folha. Nele, os agentes referem-se à compra de equipamentos gráficos financiada pela Aliança do Progresso (programa de ajuda financeira dos Estados Unidos a países latino americanos no intuito de afastá-los da órbita de Moscou e Havana) no valor de US$ 2 milhões. Em 1963, o lucro líquido do Grupo Folha era de cerca de 10 mil cruzeiros e o patrimônio líquido, pouco menos de 150 mil. Em 1977, um incrível salto para 28 milhões e 210 milhões respectivamente...
Conforme consta em arquivo da própria entidade descoberto pela pesquisa, Frias foi associado e contribuinte do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), um dos principais núcleos conspiradores contra o então presidente João Goulart, sendo responsável por constantes campanhas de desestabilização do governo trabalhista – um “sincronizado assalto à opinião pública”, nas palavras do cientista político René Dreifuss. Financiado por empresários nacionais, multinacionais norte-americanas e pela Casa Branca, o IPES, liderado pelo então coronel Golbery do Couto Silva (um dos principais ideólogos e “eminência parda” do regime que viria a ser instalado, além de chefe da Casa Civil de dois destes governos), foi alvo de uma CPI em 1963 destinada a investigar financiamentos ilegais vindos do exterior para campanhas de políticos de direita. O vice-presidente da comissão, e aqui outro ponto de contato com o filme vendedor do Oscar, era Rubens Paiva, então líder do governo Goulart na Câmara.
Antes mesmo da implantação da ditadura, portanto, o Grupo Folha já se colocara ativamente de um lado na luta político ideológica. Em resposta ao famoso comício de Jango na Central do Brasil, a Folha de São Paulo, em editorial, não hesitou em incitar a intervenção dos militares: “Resta saber se as Forças Armadas (...) preferirão ficar com o sr. João Goulart, traindo a constituição e a pátria, ou permanecer fiel àquilo que devem defender, isto é, a Constituição, a pátria, as instituições. Por sua tradição, elas não haverão de permitir essa burla”. Bem sucedida a quartelada, engajou-se na sua legitimação: “Não houve rebelião contra a lei, mas uma tomada de posição a favor da lei (...) ora, a pátria estava ameaçada pelo comunismo, que o povo brasileiro repelir”.
No mesmo dia 31 de março, o que evidencia ser algo em coordenação com a conspiração em andamento, os exemplares da Folha saíram com o suplemento “64-Brasil continua”, um “manifesto empresarial-jornalístico” de 44 páginas repleto de anúncios e textos ufanistas sobre a “revolução”. Uma “mensagem de fé” em “intimo contato com as mais ativas forças da produção nacional”, dizia o editorial que o precedia. A imagem de um bebe recém-nascido na primeira página deixava clara o otimismo com o futuro: nascia uma desejada nova era. Dentre os anunciantes, estavam muitas empresas que, poucos anos depois, colaboraram com a “caixinha da Oban [Operação Bandeirante, centro integrado de informação, prisão e tortura financiado por empresários e banqueiros]”.
Nas páginas da Folha de São Paulo, seguiram-se nos anos seguintes outras campanhas “conclamando a população a seguir com otimismo os preceitos da assim chamada ´Revolução democrática de 1964´”. “Ações psicológicas” consideradas pela Doutrina de Segurança Nacional tão importantes para a consolidação do regime quanto a repressão propriamente dita, sublinha o livro. Em editorial de 1971, ou seja mesmo após a instauração do AI-5, a Folha dizia-se “profundamente identificada” com os rumos do Brasil, vendo com otimismo os “esforços da Revolução de 1964 para a reconstrução do pais”.
Ainda mais emblemático foi o editorial de 30 de junho de 1972, em meio ao período mais obscuro da ditadura. Com o título “Presos políticos?”, tratava-se de uma resposta ao manifesto de intelectuais e artistas publicados em O Estado de São Paulo, em apoio a militantes presos que faziam greve de fome. No texto, Frias negava a existência de prisões políticas no país e criticava o jornal concorrente por defender tratamento especial a “delinquentes” que “mais não são que assaltantes de banco, sequestradores, ladroes, incendiários, assassinos”. Para a Folha, tratar aqueles “criminosos” como presos políticos seria uma “distorção da verdade”, “propagada por quem buscava destruir a imagem de um país em ascensão”.
A natureza civil da ditadura é motivo ainda de debates acadêmicos. O termo “golpe civil-militar” é alvo de disputa de interpretações. Mas foi com “1964: a conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe” (1981), de Dryfuss, que se consolidou o entendimento sobre a relação umbilical de parte do empresariado nacional com a conspiração contra Jango e sustentação dos governos de generais que a sucedeu - “a fim de garantir a existência de um regime que atuasse em benefício desses setores”. Instaurada em 2014, a Comissão Nacional da Verdade é clara quanto à gênese da ditadura: “Os trabalhadores e seu movimento sindical constituíram o alvo primordial do golpe de estado de 1964, das ações antecedentes dos golpistas e da ditadura militar”, afirma trecho de seu relatório reproduzido no livro.
Faz todo sentido, portanto, que, através de depoimento, acervo sindicais e análise das folhas funcionais do Grupo Folha, a pesquisa tenha levantado mais de 60 desligamentos de jornalistas por motivos políticos, além de violações de direitos trabalhistas de outros tantos, seja pela participação na histórica greve dos jornalistas de 1979 ou por prisões decorrentes de militância em organizações de esquerda. Casos de repórteres que, enquanto se viam encarcerados nos porões da repressão, foram demitidos por “abandono de emprego”, tendo adulterados pela empresa seus dados cadastrais a fim de dar às demissões ares de legalidade. Prisões noticiadas pelos próprios jornais do grupo, algumas das quais ocorridas em sua sede, o que evidencia o conhecimento da direção. Coerentemente ao editorial de 1972, Frias e Caldeira pareciam considerar seus funcionários não presos políticos mas sim criminosos comuns.
As violações de direitos trabalhista e a precarização do trabalho nas redações já haviam sido denunciadas pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo em 1966. Infrações como exclusão da complementação de aposentadoria que alguns tinham direito; pagamento inferior ao salário mínimo normativo, redução de férias e décimo terceiro, contribuição fraudulenta ao INPS, entre outras. Casos que não foram adiante ao chegarem na Delegacia Regional de Trabalho, mais um indício da simbiose entre regime e empresa. Ex-editor da Folha, Rubens Glasberg lembra que muitos funcionários trabalhavam sem registro de jornalista (na época exigência legal) e que havia uma vultuosa dívida com o INPS: “Isso foi judicializado, se não me engano. A Folha ganhou esse processo porque o governo deixou passar prazo de recorrer (...) Esse negócio de governo perder prazo não faz muito sentido, provavelmente era uma coisa ajeitada lá. Mas era isso, o Frias se dava muito bem com o [Paulo] Maluf [prefeito e governador de São Paulo ligado aos militares} vivia dentro da redação”.
Na década de 80, já consolidado como um dos principais conglomerados de comunicação do país e sob contexto de distensão da ditadura, o Grupo Folha iniciou a implantação do Projeto Folha que representou não apenas sua modernização gráfica e estilística como a flexibilização do alinhamento automático a um regime já em seu crepúsculo, abrindo espaço para articulistas de oposição a ele, o que culminou no reconhecido protagonismo do jornal na campanha das Diretas-Já.
A nova postura permitiu a Folha de São Paulo ser identificada “como jornal de resistência, uma espécie de porta-voz da sociedade civil no período da redemocratização”, concluem os pesquisadores, que, no entanto, não deixam de destacar a tutela da empresa pelos militares até mesmo quando, diante da lenta e oscilante abertura política pretendida pelo então presidente Geisel ao final da década anterior, ela inicia seu progressivo distanciamento da ditadura: “Golbery chamou Frias para falar da distensão política e mencionou a importância de haver outro jornal forte em São Paulo, além do Estadão (...) a direção da Folha entendeu a conversa com Golbery como um sinal verde para que o jornal adotasse mudanças editoriais no sentido de se tornar mais ousado, sobretudo como forma de conquistar uma fatia de mercado desatendida pelo Estadão, que fazia uma oposição moderada ao governo”.
Passagem simbólica em relação a essa nova fase, as primeiras edições do Manual de Redação da Folha, lançado no ano das “Diretas Já”, proibia o uso da expressão “ditadura militar” em seus textos, sendo preferível “regime militar”. Apenas na versão de 2005 autorizou-se o uso do termo. Em 2019, em editorial, a Folha de São Paulo referiu-se ao período como “ditabranda”, como se pretendesse escalonar a gravidade de ditaduras.
Foi a partir do termo de ajustamento de conduta acordado entre o MPF e a Volkswagen, após a responsabilização da empresa por vínculos semelhantes ao da Folha com a ditadura, que se tornou possível o edital vencido pelos pesquisadores. Os procuradores definiram que parte dos recursos obtidos deveriam ser direcionados para investigações de outras empresas suspeitas de agirem de forma igual. Pesquisas sobre dez empresas saíram-se vencedoras do edital. A única do setor de comunicação foi o Grupo Folha. As possíveis reparações agora estão nas mãos da Justiça, e o exemplo da Volkswagen ilustra as importantes repercussões que elas podem ter para a sociedade. Como define Marialva Barbosa na apresentação do livro, a pesquisa “mostra, desde a primeira linha, que alguns acontecimentos históricos são da ordem do incontornável, do inominável, daquilo que não se pode esquecer, sob pena de apagar nossa própria humanidade”.
Aos estudiosos e profissionais de Jornalismo e História, a obra é indispensável por trazer à tona, com forte embasamento, como a empresa de Frias e Caldeira cumpriu de maneira consciente papel central na difusão massiva de informações falsas ou distorcidas que ajudaram a depor um (vice) presidente eleito pelo povo e legitimar graves violações aos direitos humanos. Teses históricas infundadas, como a ameaça de golpe comunista pré-1964), e versões oficiais que negavam ou amenizavam o caráter da ditadura. Versões ainda hoje disseminadas para justificar ou relativizar aquele período por parte da população e grupos políticos. Grupo que inclusive chegou a governar o país recentemente, entre 2019 e 2022.
A Folha de São Paulo chegou ao fim da ditadura militar como o jornal mais vendido do país. A nova roupagem estabelecida ao final de tão obscuro período não apaga a conveniente simbiose que existiu. Uma relação de mão dupla que fortaleceu ambos os lados. “Eles [os donos da Folha] souberam utilizar a situação como um escudo: ´ah, não me encha o saco, pois tenho aqui a Folha da Tarde´”, resume no livro José Luis Proença, ex-repórter do jornal. Ainda hoje a Folha de São Paulo está no pódio das maiores tiragens do país. Ela não é apenas peça de História. Ela, ainda que em sentido oposto ao da família Paiva, também ainda está aqui.
* Murillo Victorazzo é jornalista, com Especialização em Política & Sociedade (Iesp-UERJ) e MBA em Relações Internacionais (FGV-Rio)
