Por Murillo Victorazzo
Em sua edição especial sobre a eleição de Dilma Rousseff, a revista Carta Capital traz uma entrevista com o governador reeleito de Pernambuco, Eduardo Campos, que nos indica um cenário para 2014 com boas chances de se realizar. Campos deixa clara suas boas relações com o ex-governador mineiro Aécio Neves e não se furtar de criticar a ala paulista do PSDB. Presidente do PSB, parece sugerir que passa por Aécio a estratégia do partido para 2014.
"Muitas vezes, São Paulo exporta diferenças que não são a realidade política nacional", afirma o governador ao ser perguntado sobre se haveria afinidades com os tucanos não paulistas. Mais do que uma constatação que nos remete às afirmações de políticos e cientistas políticos de que a luta PT x PSDB seria menos por grandes diferenças ideológicas do que por uma rivalidade paulista vendida para o país, a frase é uma sutil defesa da liderança de Aécio dentro no PSDB.
Quanto mais Aécio se cacifar no PSDB, mais poder de barganha o PSB terá no governo Dilma. Afinal, com seis governadores, a sigla continuará a ser, agora ainda mais, um aliado necessário e desejado pelo PT. Caso Aécio venha a ser indicado como candidato a presidente pelo PSDB nas próximas eleições, não será surpresa se os socialistas romperem com Dilma ao final do governo para se coligarem com os tucanos.
A vice-presidência em uma chapa com o PSDB cairia bem para Campos ou Ciro Gomes - outro político do partido que não nega a afinidade com Aécio. Ainda mais se levarmos em conta que os dois socialistas são do Nordeste, uma região problemática para os tucanos. Governando Perambuco, Ceará, Paraíba e Piauí, o PSB seria a noiva perfeita para eles.
Ao dizer que "o PSB tem as portas abertas para pessoas como Aécio", Campos levanta outra hipótese, essa menos provável: o ex-governador de Minas deixaria o ninho tucano para se juntar- por mais ideologicamente estranho que possa parecer - às hostes socialistas. A saída do mineiro do PSDB foi bancada pela Carta Capital em matéria de capa refutada veementemente por ele. A revista, porém, dizia que Aécio pretendia formar um novo partido.
A tese da candidatura própria já foi levantada no PSB este ano por Ciro e causou desgaste entre integrantes da legenda e o PT. Com o reforço muscular ganho em votos pelo partido nestas eleições e com tal carta na manga, seria inevitável o fim do casamento entre petistas e socialistas. Uma união que percorreu todas as eleições presidenciais de 1989 para cá, exceto o primeiro turno de 2002. Naquele ano, os socialistas lançaram Anthony Garotinho e apoiaram Lula apenas no segundo turno.
É um tanto precipitado prever cenários para daqui a quatro anos. De todo modo, nesses próximos quatro anos, casamentos políticos estarão à prova. E parecem claros quais serão alguns dos noivos e noivas protagonistas. Neste triângulo "amoroso", é certo que um deles vem de Minas, e uma delas tem grinalda vermelha e amarela.
Não, não é um protesto contra o fim da obrigatoriedade de diploma para exercer o jornalismo. Vejo, aliás, prós e contras na resolução do STF. A qualificação profissional se torna ainda mais necessária. Ser jornalista diplomado é orgulhosamente um diferencial. E o blog serve para exteriorizar algumas ideias, destacar notícias que me chamem a atenção e recordar matérias por mim assinadas (publicadas ou não).
sábado, 13 de novembro de 2010
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Dois pesos e duas medidas?
Por Murillo Victorazzo
Chama a atenção como a edição impressa de O Globo desta quarta-feira, 10/11, ignorou completamente o discurso do chanceler britânico, Wlliam Hague, na Canning House, em Londres. Segundo informou o site da BBC Brasil na véspera, Hague afirmou que "continuará a pedir por uma reforma na ONU, incluindo a expansão do Conselho de Segurança com o Brasil como membro permanente".
A notícia foi reproduzida no Globo Online, mas, pela lógica jornalística, deveria ganhar espaço na versão impressa do jornal, principalmente por ter sido um dia após o presidente norte-americano, Barack Obama, em discurso na Índia, defender a inclusão daquele país no Conselho. A nova postura dos Estados Unidos, essa sim, mereceu amplo destaque, até com chamada de capa.
Ainda que conheçamos a diferença de peso político-econômico entre os dois países anglo-saxões e os interesses comerciais em jogo, os britânicos também têm poder de veto. E parecem, agora, dispostos a se juntar à França na defesa da candidatura brasileira. Expõr a visão do novo governo do Reino Unido seria uma ótima oportunidade para ressaltar contrapontos em uma questão tão complexa e importante para as relações internacionais atuais.
A fala de Obama foi logo interpretada pelo Globo, em editorial e na coluna de Merval Pereira, como grande revés para o Brasil, sinal do "fracasso" da "diplomacia companheira". Seria justo e esclarecedor, para o bem de suas qualidade, credibilidade e isenção, que o Globo também informasse e comentasse o discurso do chanceler britânico. Segundo Hague, a presença do Brasil como membro permanente do Conselho seria uma questão de "legitimidade e equilíbrio" mundial de poder.
Se a posição de Obama foi rotulada como sinal de fracasso da política externa do governo Lula, a afirmação de Hague, por este raciocínio prosaico, não deveria ser interpretada como o outro lado da moeda: o de uma "vitória" do Itamaraty? Ou o jornal estaria usando dois pesos e duas medidas? É uma pena que as análises internacionais de boa parte dos jornais brasileiros estejam impregnadas pelas disputas políticas internas...
ATUALIZAÇÃO: O jornal, enfim, em sua edição impressa de quinta-feira, 11/11, publicou uma matéria de pé de página sobre o discurso do chanceler britânico. Tomara que o atraso de 48 horas tenha sido por problemas técnicos...Aguarda-se os comentários...
Chama a atenção como a edição impressa de O Globo desta quarta-feira, 10/11, ignorou completamente o discurso do chanceler britânico, Wlliam Hague, na Canning House, em Londres. Segundo informou o site da BBC Brasil na véspera, Hague afirmou que "continuará a pedir por uma reforma na ONU, incluindo a expansão do Conselho de Segurança com o Brasil como membro permanente".
A notícia foi reproduzida no Globo Online, mas, pela lógica jornalística, deveria ganhar espaço na versão impressa do jornal, principalmente por ter sido um dia após o presidente norte-americano, Barack Obama, em discurso na Índia, defender a inclusão daquele país no Conselho. A nova postura dos Estados Unidos, essa sim, mereceu amplo destaque, até com chamada de capa.
Ainda que conheçamos a diferença de peso político-econômico entre os dois países anglo-saxões e os interesses comerciais em jogo, os britânicos também têm poder de veto. E parecem, agora, dispostos a se juntar à França na defesa da candidatura brasileira. Expõr a visão do novo governo do Reino Unido seria uma ótima oportunidade para ressaltar contrapontos em uma questão tão complexa e importante para as relações internacionais atuais.
A fala de Obama foi logo interpretada pelo Globo, em editorial e na coluna de Merval Pereira, como grande revés para o Brasil, sinal do "fracasso" da "diplomacia companheira". Seria justo e esclarecedor, para o bem de suas qualidade, credibilidade e isenção, que o Globo também informasse e comentasse o discurso do chanceler britânico. Segundo Hague, a presença do Brasil como membro permanente do Conselho seria uma questão de "legitimidade e equilíbrio" mundial de poder.
Se a posição de Obama foi rotulada como sinal de fracasso da política externa do governo Lula, a afirmação de Hague, por este raciocínio prosaico, não deveria ser interpretada como o outro lado da moeda: o de uma "vitória" do Itamaraty? Ou o jornal estaria usando dois pesos e duas medidas? É uma pena que as análises internacionais de boa parte dos jornais brasileiros estejam impregnadas pelas disputas políticas internas...
ATUALIZAÇÃO: O jornal, enfim, em sua edição impressa de quinta-feira, 11/11, publicou uma matéria de pé de página sobre o discurso do chanceler britânico. Tomara que o atraso de 48 horas tenha sido por problemas técnicos...Aguarda-se os comentários...
sábado, 6 de novembro de 2010
O Mundo Segundo Dilma
Por Maurício Santoro (http://todososfogos.blogspot.com/2010/11/o-mundo-segundo-dilma.html )
A política externa não foi um tema de discussão relevante na eleição presidencial brasileira, mas será importante para o governo Dilma. A economia internacional é cada vez mais relevante para o Brasil, pelo peso crescente do comércio exterior no PIB, pelas discussões sobre a guerra cambial e a reorganização do sistema financeiro internacional (G-20, Basiléia 3 etc). Além disso, o país articula iniciativas com as outras potências emergentes e precisa permanecer atento para as crises e conflitos na América do Sul, algumas das quais envolvem nações das quais depende sua segurança energética (Bolívia e Paraguai). O que se pode esperar da diplomacia brasileira sob Dilma?
Durante a campanha, a revista “Política Externa” enviou aos principais candidatos perguntas sobre sua plataforma diplomática. José Serra não respondeu – omissão curiosa, pois é uma publicação com muitos intelectuais do PSDB entre seus principais colaboradores. Marina Silva destacou pontos ligados a Meio Ambiente e Direitos Humanos. E Dilma apresentou opiniões que basicamente mantêm as diretrizes atuais. Perfis da presidente eleita com freqüência destacam sua pouca experiência internacional e concluem que dará menos ênfase à diplomacia presidencial e se afastará de negociações controversas, como os esforços de mediação da crise iraniana.
Contudo, as próprias transformações do Brasil apontam para mudanças. As indicações são de uma política externa mais complexa, menos centrada na Presidência e no Itamaraty e mais ramificada por outros órgãos do governo: ministérios econômicos, Defesa, área social, BNDES, empresas controladas pelo Estado, como a Petrobras, ou aquelas nas quais ele possui golden share, como Vale e Embraer. É a conseqüência inevitável da combinação de crescimento econômico, estabilidade política e maior engajamento nas redes globais de comércio e investimento.
Quem melhor capturou este novo quadro foi o jornalista David Rothkopft, da revista Foreign Policy. Em ótimo texto, ele chama a atenção para a necessidade dos Estados Unidos pararem de tratar o Brasil dentro do contexto de uma política geral para a América Latina, e abordarem o país numa esfera mais ampla, como um interlocutor para os principais temas internacionais, sobretudo em assuntos ligados à economia. Dito de outro modo: política externa é cada vez mais relevante para o Brasil, independentemente do interesse pessoal mais ou menos intenso do chefe de Estado.
Além disso, há outro ponto que tem sido deixado de lado pela maioria das análises: o modo como a diplomacia de perfil globalista de Lula reforçou a identidade de esquerda do governo, por sua ênfase em cooperação sul-sul e parcerias com potências emergentes. Haverá expectativas e cobranças do PT e de outros partidos progressistas da coligação para que essa linha diplomática continue ou se aprofunde, sobretudo diante dos impasses da liderança dos EUA e da União Européia, devido às suas crises atuais.
Também estou curioso para ver como duas mulheres e presidentes latino-americanas enfrentarão um desafio parecido: provar que têm capacidade de liderança própria. A relação Argentina-Brasil sob Cristina-Dilma promete, inclusive pela força da história de vida da mandatária brasileira para o vizinho que tanto sofreu com ditaduras militares.
A política externa não foi um tema de discussão relevante na eleição presidencial brasileira, mas será importante para o governo Dilma. A economia internacional é cada vez mais relevante para o Brasil, pelo peso crescente do comércio exterior no PIB, pelas discussões sobre a guerra cambial e a reorganização do sistema financeiro internacional (G-20, Basiléia 3 etc). Além disso, o país articula iniciativas com as outras potências emergentes e precisa permanecer atento para as crises e conflitos na América do Sul, algumas das quais envolvem nações das quais depende sua segurança energética (Bolívia e Paraguai). O que se pode esperar da diplomacia brasileira sob Dilma?
Durante a campanha, a revista “Política Externa” enviou aos principais candidatos perguntas sobre sua plataforma diplomática. José Serra não respondeu – omissão curiosa, pois é uma publicação com muitos intelectuais do PSDB entre seus principais colaboradores. Marina Silva destacou pontos ligados a Meio Ambiente e Direitos Humanos. E Dilma apresentou opiniões que basicamente mantêm as diretrizes atuais. Perfis da presidente eleita com freqüência destacam sua pouca experiência internacional e concluem que dará menos ênfase à diplomacia presidencial e se afastará de negociações controversas, como os esforços de mediação da crise iraniana.
Contudo, as próprias transformações do Brasil apontam para mudanças. As indicações são de uma política externa mais complexa, menos centrada na Presidência e no Itamaraty e mais ramificada por outros órgãos do governo: ministérios econômicos, Defesa, área social, BNDES, empresas controladas pelo Estado, como a Petrobras, ou aquelas nas quais ele possui golden share, como Vale e Embraer. É a conseqüência inevitável da combinação de crescimento econômico, estabilidade política e maior engajamento nas redes globais de comércio e investimento.
Quem melhor capturou este novo quadro foi o jornalista David Rothkopft, da revista Foreign Policy. Em ótimo texto, ele chama a atenção para a necessidade dos Estados Unidos pararem de tratar o Brasil dentro do contexto de uma política geral para a América Latina, e abordarem o país numa esfera mais ampla, como um interlocutor para os principais temas internacionais, sobretudo em assuntos ligados à economia. Dito de outro modo: política externa é cada vez mais relevante para o Brasil, independentemente do interesse pessoal mais ou menos intenso do chefe de Estado.
Além disso, há outro ponto que tem sido deixado de lado pela maioria das análises: o modo como a diplomacia de perfil globalista de Lula reforçou a identidade de esquerda do governo, por sua ênfase em cooperação sul-sul e parcerias com potências emergentes. Haverá expectativas e cobranças do PT e de outros partidos progressistas da coligação para que essa linha diplomática continue ou se aprofunde, sobretudo diante dos impasses da liderança dos EUA e da União Européia, devido às suas crises atuais.
Também estou curioso para ver como duas mulheres e presidentes latino-americanas enfrentarão um desafio parecido: provar que têm capacidade de liderança própria. A relação Argentina-Brasil sob Cristina-Dilma promete, inclusive pela força da história de vida da mandatária brasileira para o vizinho que tanto sofreu com ditaduras militares.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
2014 é logo ali
Por Murillo Victorazzo Há uma máxima entre políticos e especialistas da área de que uma eleição começa quando a anterior termina. Descontados os exageros, a frase guarda uma boa dose de verdade. A presidente eleita Dilma Roussef nem diplomada pelo TSE foi e os partidos da base iniciaram as cotoveladas para definirem seus espaços no novo ministério. Do mesmo modo, na oposição, 48 horas depois da derrota, foi dada a largada para a lavagem de roupa suja em público. O motivo é um só: o realinhamento do mapa político-eleitoral do país visando 2014. Quatro anos é, em tese, muito tempo. E a história mostra como o quadro imaginado não se confirma. Mas a próxima eleição presidencial, ao contrário das anteriores, quando havia antecipadamente um candidato natural (o presidente em busca de reeleição, no mínimo), é uma incógnita ainda maior. A falta de estatura política da presidente eleita Dilma Roussef e a sombra do presidente Lula potencializam as dúvidas não só sobre o novo governo como se ela disputará mais um mandato. Além do imponderável que, às vezes, transforma o processo eleitoral insperadamente, várias incertezas explicam o mistério. Lula, de fato, desejará voltar ao governo daqui a quatro anos? Caso Dilma tenha se saído bem avaliada, poderá ela, dona da caneta, bater de frente com ele para ser a candidata do PT? Ou, o contrário: será que ele não irá preferir manter a imagem de quase um mito, deixando como sua marca na história estes oito anos dos quais saiu com 80% de aprovação? Para que, afinal, correr o risco de ver esse capital político gigantesco se diluir em um outro mandato? Por outro lado, na hipótese de o governo Dilma fracassar retumbantemente, terá Lula disposição para passar toda a campanha eleitoral com o ônus de ter que assumir a responsabilidade da escolha feita em 2010? Sem dúvida, neste cenário, a possibilidade de derrota aumentaria muito, já que os eleitores poderiam culpá-lo pelo eventual desastre. O discurso da volta para consertar um erro não é de fácil assimilação. Além destas incertezas, há outras dentro da própria base governista. Pela primeira vez como sócio e não apenas como aliado, o PMDB do vice-presidente eleito, Michel Temer, fincará o pé em busca de mais espaço no próximo governo. A ciumeira já começou. O partido fez questão de deixar claro o incômodo por não ter visto um nome seu na equipe de transição, o que levou a presidente eleita emitir nota incluindo Michel Temer no grupo que já contava com os petistas Antonio Palocci, José Eduardo Dutra e José Eduardo Cardoso. O casamento PT x PMDB será, durante o novo mandato, uma constante relação de amor e ódio. Será que a animosidade não prevalecerá e, com mais poder acumulado, os peemedebistas, enfim, tomarão coragem de lançar candidato próprio? Alguns nomes do partido saíram especialmente mais fortes destas eleições. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, é um deles. Além de reeleito no primeiro turno com 66% dos votos, Cabral se jogou de cabeça na campanha da petista. O discurso de parceria foi fundamental para a ampla vitória dos dois no estado. Tem agora cacife para exigir mais recursos e espaço. Além disso, não nos esqueçamos que a capital fluminense terá que ganhar atenção especial por ser palco das Olimpíadas de 2016 e da abertura da Copa de 2014. Outro partido aliado que saiu mais forte foi o PSB. Com seis governadores eleitos, os socialistas deverão também lutar por mais espaço. Se, este ano, já houve alas da sigla que tentaram lançar Ciro Gomes candidato a presidente, pode-se imaginar que a ideia da candidatura própria ganhará mais força a partir de agora. No mínimo, para barganhar a vice-presidência em 2014. O governador reeleito de Pernambuco, Eduardo Campos, campeão de voto no país (obteve 82% dos votos), surge como a principal carta do partido para as negociações que virão. Seu nome tem simbolicamente o peso de ser do Nordeste, região que se tornou uma fortaleza para o lulismo, embora, pardoxalmente, isto possa lhe enfraquecer. O costume é compor chapa com políticos de regiões onde são mais fracos eleitoralmente. Do outro lado do tabuleiro, mal as urnas foram fechadas, o PSDB externou seus dilemas existenciais e suas divisões internas que perduram há anos. Aquele partido fundado há 22 anos como a esquerda do PMDB, uma sigla social democrata, com valores liberais - no sentido moral da palavra e não econômico - não existe mais. Se há uma certeza que surge deste pleito é a de que os tucanos ganharam uma feição mais forte de partido conservador. Discursos e temas levantados pelo candidato José Serra e seu círculo embasam a afirmação. Se, por um lado, não se pode dizer que tenham se tornado uma sigla essencialmente de direita, por outro, é fato que se tornou o preferido deste espectro da sociedade. Ocupou o espaço deixado pela falta de um partido forte confessamente de direita. O DEM, que seria o representante natural e legítimo destes setores, por sua debilidade eleitoral, preferiu manter-se como satélite tucano. Alguns líderes do partido ameaçam partir para voo solo, mas a falta de nome é mais um empecilho para concretizar a separação. Mesmo em relação aos feitos quando governo, o PSDB parece ter dificuldade em superar a sua esquizofrenia. Não por acaso o ex-presidente Fernando Henrique já veio a público dizer que não irá mais endossar "um PSDB que não defende sua história". Também lá de São Paulo, outro disparo foi feito, desta vez acirrando as divergências internas. O coordenador do programa de governo de Serra, Francisco Graziano, em seu twitter, ironizou a derrota de seu candidato em Minas Gerais, responsabilizando, indiretamente, seu colega de partido Aécio Neves. Muitos garantiam que esta seria a última tentativa de Serra para chegar ao Planalto. O político que garante ter se preparado a vida inteira para se tornar presidente, porém, ao reconhecer a sua segunda derrota em nível nacional, não pareceu ter jogado a toalha. E mais: acenou para uma oposição mais belicosa da que fez até então. Ainda que tenha anunciado não pretender a presidência do PSDB, Serra, a priori, não pode ser uma página virada, embora a tendência seja que Aécio torne-se o líder da oposição. O ex-governador mineiro terá a visibilidade que um mandato de senador - e não um senador qualquer - lhe garante e pode ser o sangue novo necessário para despertar novas ideias e paixões. O terreno, de todo modo, é fértil para a colheita de fortes embates neste ninho, especialmente se indagarmos o que o paulista Geraldo Alckimim, como governador do estado mais rico e populoso da federação, pensa a respeito de seu futuro político. No entanto, mais do que nomes, o PSDB precisa urgentemente criar novas bandeiras e decidir o que quer ser: uma UDN com modelito século XXI ou um partido realmente social democrata. Não é uma escolha fácil. Ao caminhar para a centro-esquerda, abandonando a esquerda socialista, o PT, com Lula e agora Dilma, parece ter se legitimado como o representante da social democracia. E com uma vantagem que os tucanos não tem: bases sociais mobilizadas. As posturas erráticas dos tucanos facilitaram este processo. Ao contrário do som, o poder se propaga no vácuo - deixado pelo adversário. Há tempos muitos dizem que tucanos e petista estariam fadados a serem aliados. O realinhamento petista poderia ter facilitado esse movimento esperado, se os dois partidos não tivessem se tornado os dois únicos pólos de poder no país, com o PSDB dando um passo para a centro-direita. Hoje, nem os mais otimistas acreditam na aproximação. Até por questão de sobrevivência, na expectativa de voltar ao poder central, os tucanos terão que fazer uma oposição mais intensa para se diferenciarem. Como os pilares das política econômica são consenso entre os dois lados, o mais provável é que eles acabem cada vez mais parecidos com o DEM, incorporando os setores (e valores) mais conservadores. Aprovar ou não esta contínua guinada é decisão do eleitor. Mas é impositivo que, para dar certo, ela seja nítida, programática e sem idas e vindas. Como se vê, este balaio de variáveis, seja nos governistas como na oposição, explica por que apenas 48 horas separaram a eleição de Dilma do pleito de 2014...
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
A morte de Kirchner: mais um tango para história política argentina
Por Murillo Victorazzo
Aos 60 anos, morreu, vítima de infarto, o principal líder político de nossos vizinhos na última década. Se Néstor Kirchner fosse meramente um ex-presidente que, nos bastidores, ainda desse as cartas nas hostes peronistas, seu falecimento já seria motivo de impactar um país que, assim como o Brasil, tem um histórico de mortes e outras tragédias assombrando seu palácio presidencial. Ele, porém, era mais do que isso. Era, aliás, mais do que o marido da atual presidente, Cristina Kirchner.
Presidente do PJ (Partido Justicialista, o nome oficial do aglomerado de grupos heterogêneos que se intitulam peronistas), Néstor era o braço direito, esquerdo e o cérebro do governo de sua esposa. É quase unanimidade na Argentina que a chefia de Estado e de governo era um corpo com duas cabeças. Também é consenso que ele era o mentor de sua companheira. Ela, por sinal, nunca fizera questão de rebater o contrário.
Muitos dizem que o samba e o tango refletem bem como brasileiros e argentinos lidam com as dificuldades. Se nós, com a nossa ginga, levantamos e sacudimos a poeira, sem nunca perder o sorriso, nossos "hermanos" responderiam de forma mais intensa e depressiva às adversidades. Não seria outro o motivo das belas melodias do ritmo-símbolo argentino quase sempre exalarem melancolia. Se verdade isso for, desde ontem, a Argentina vivência mais um cenário digno de letra de tango.
Aos 60 anos, morreu, vítima de infarto, o principal líder político de nossos vizinhos na última década. Se Néstor Kirchner fosse meramente um ex-presidente que, nos bastidores, ainda desse as cartas nas hostes peronistas, seu falecimento já seria motivo de impactar um país que, assim como o Brasil, tem um histórico de mortes e outras tragédias assombrando seu palácio presidencial. Ele, porém, era mais do que isso. Era, aliás, mais do que o marido da atual presidente, Cristina Kirchner.
Presidente do PJ (Partido Justicialista, o nome oficial do aglomerado de grupos heterogêneos que se intitulam peronistas), Néstor era o braço direito, esquerdo e o cérebro do governo de sua esposa. É quase unanimidade na Argentina que a chefia de Estado e de governo era um corpo com duas cabeças. Também é consenso que ele era o mentor de sua companheira. Ela, por sinal, nunca fizera questão de rebater o contrário.
Mas o cenário de drama ganha intensidade ao levarmos em conta o momento pelo qual passava o casal K. Após ter sido, de certa forma, bem sucedido em tirar a Argentina da profunda crise econômica ao assumir, em 2003, a Casa Rosada, Néstor, quatro anos depois, entregou à esposa, além da faixa presidencial, embriões de crises que vieram a explodir no colo dela.
Denúncias de corrupção, maquiagens de índices oficiais, fortes conflitos com o setor agropecuário e com a mídia fizeram despencar a popularidade de Cristina e, em certas situações, paralizar o país. O próprio Néstor, que pavimentava sua volta (oficial) à Presidência, havia sido eleito deputado pela província de Buenos Aires, ano passado, apenas como segundo colocado. Não era raro ouvir quem colocasse em dúvida até a força da presidente para terminar seu mandato. Paradoxalmente, contudo, seu marido ainda era apontado como o favorito para sucedê-la em 2011 - em boa parte também pela pouca clareza de ideias e estratégias da oposição.
Com o falecimento de Néstor, o quadro político argentino torna-se ainda mais incerto. Além de o ex-presidente ser o parâmetro a partir do qual governistas e oposição delimitavam suas ações, uma incógnita ocupa a cabeça dos argentinos: como reagirá Cristina? De que maneira ela absorverá a perda do companheiro de 36 anos que tornou-se também seu cúmplice (no bom e, para boa parcela do eleitorado do país, e no mal sentido) político?
Certo é que tais tragédias humanizam os políticos, fazendo com que a população e até a oposição se solidarizem com os atingidos. Os defeitos dos falecidos se diluem e seu feitos são maximizados. A comoção vista no velório de Néstor, com uma multidão se aglomerando em frente a Plaza de Mayo, parece confirmar essa tendência, embora não se saiba até quando.
Por isto, se Cristina tiver força - física, espiritual e política - para se reerguer e agir com habilidade e velocidade, poderá usar esta pausa piedosa para reorganizar seu governo. Por essas ironias do destino, um mandato fadado a terminar por baixo, poderá, assim, recuperar o fôlego e ela, alcançar a reeleição. Caso contrário, a perda inesperada do marido/líder tem grandes servir como catalizador para que ela perca o timão de vez.
Néstor, um político que saiu da distante província de Santa Fé para chegar à Casa Rosada em um momento em que o país estava a beira do colapso institucional, agregou tanto poder - e dinheiro - que parecia estar construindo uma espécie de dinastia quem nos remetia a Perón e suas esposas Evita e Isabelita. Outras semelhanças, ainda que a dimensão de Néstor não alcance a de "el general", já os unia: se deixaram suas marcas na vida sócio-econômica argentina, caracterizaram-se por ter o populismo e o autoritarismo (ainda que em nuances diferentes) como modus operandi.
No entanto, a partir de agora, Néstor se junta a Perón em outra (triste) coincidência. Os dois viram suas próprias mortes, esposas e a Casa Rosada se cruzarem de forma não planejada. Perón foi golpeado com a morte de sua Evita, que logo se tornaria mito. Conduziu, depois, com seu falecimento, Isabelita, que era sua vice-presidente, à Presidência. Néstor, por outro lado, conseguiu levar sua Cristina ao poder ainda vivo. Mas seu infarto fatal pode tê-la golpeado inesperada e involuntariamente. O drama dos Peróns rendeu filmes e tangos. Quer melhor roteiro para outros mais do que a história do casal K?
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Recordar é viver. E "Vale Tudo", refletir
Por Murillo Victorazzo Uma das mais agradáveis novidades na televisão brasileira este ano foi o lançamento do Canal Viva, na Net. Quem aprecia a televisão brasileira e tem TV paga, certamente, já parou seu controle remoto por lá, nem que tenha sido apenas por alguns minutos. Seja drama, humor, culinária, aventura entre outros, o canal nos faz recordar por que nossa TV, em especial as organizações Globo, marcou seu nome entre as melhores no mundo. Não precisa ser saudosista para se deliciar com programas que marcaram nossas infâncias, adolescências ou algum outro momento de nossas vidas. E é até natural do ser humano deixar o coração falar mais alto e ser condescendente com eventuais defeitos e defasagens vistos pelo olhar do século XXI. No entanto, não é dominado por estes sentimentos que o canal Viva nos deixa à mostra algo muito claro: se, por um lado, a evolução das tecnologias de imagens, luz, áudio foi tão grande que, algumas vezes, parece que a distância entre as produções das décadas de 80 e 90 e o presente é maior do que a real, os seus conteúdos, vistos com distanciamento histórico, eram quase sempre melhores. Fênomeno de audiência na época em que foi exibida, a novela "Vale Tudo" é a melhor prova do ocorrido. Voltou no Viva há duas semanas, 22 anos depois, com força total, a ponto de se tornar um dos assuntos mais comentados no twitter e alçar a emissora à liderança no Ibope entre as TVs fechadas. O sucesso merecido tem razão de ser. A obra de Gilberto Braga, ainda que o Brasil tenha evoluído sócio-economicamente a largos passos, continua atual. Com personagens brilhantemente construídos e interpretados por grandes nomes da dramaturgia nacional, a novela incomoda - no bom sentido - por nos mostrar de forma direta, sem eufemismos, os velho dilemas da humanidade. Conflitos que parecem estar mais nítidos em nosso país: vale a pena ser honesto? O fim justifica os meios quando o objetivo é ganhar dinheiro? Corrupção, caixa dois, traições, homicídios, preconceitos, alpinismo social, luta pelo poder...Tudo é visto, sem sutilezas, na obra. Quer algo mais condizente com nosso cotidiano - principalmente em época de campanha eleitoral - do que a trilha de abertura, de Cazuza, cantada por Gal Costa: "Brasil, mostra sua cara, quero ver quem paga pra a gente ficar assim"? O despudor maquiavélico de Maria de Fátima, a crueldade e a prepotência de Odete Roitman - personagem que nos remete àquela parcela da elite brasileira que, por incrível que parece, ainda considera seu próprio país uma república de bananas habitada por aborígenes - e o mau caratismo presunçoso de Marco Aurélio resultam em um corolário de maldades, que, descontados os necessários excessos de uma ficção, mostram-se verossímeis em um país em que uma "ética flexível"- para usar um eufemismo - ainda ocupa grande espaço. Por outro lado, o casal Raquel e Ivan sintetiza a grande maioria da população brasileira: os que, honestamente, dão duro, aqueles para os quais os valores e o trabalho estão acima da riqueza a qualquer custo. Quase todas novelas têm como pano de fundo essa dualidade. Muitas conseguem retratar com certo grau de realismo, outras tantas fracassam ao tranformar as vilãs em bruxas de histórias em quadrinhos e as protagonistas em Cinderelas. "Vale Tudo", não! Graças ao ferino texto de Braga e às atuações de Glória Pires, Beatriz Segall, Reginaldo Farias, Regina Duarte, Antonio Fagundes, entre outros, a novela tornou-se única na arte de exprimir as canalhices e as perseveranças nacionais. Enredo tão atual e factível que deixam as imagens mais escuras e menos nítidas que as das produções atuais relegadas a segundo plano. A novela fustiga ainda mais quando lembramos que, no final, alguns destes vilões não terminam tão mal assim...A reprise de "Vale Tudo" serve para nos lembrar como somos (ou éramos?) bons em fazer novelas, discutir por que a qualidade de nossa dramaturgia caiu e, principalmente, pensar as razões de a nossa sociedade persistir em certos vícios.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Para analista, acordo nuclear com Irã não prejudica imagem do Brasil
Por Maria Carolina Abe (Folha de S.Paulo, 24/05/2010)
O Irã concordou em enviar parte de seu urânio enriquecido para a Turquia, em um acordo de troca de combustível nuclear alcançado com mediação de Brasil e Turquia, divulgado na segunda-feira (17). O Ocidente acusa o Irã de desenvolver um programa nuclear com fins militares, mas Teerã alega que a finalidade é pacífica. Para Matias Spektor, coordenador do Centro de Estudos sobre Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), o acordo firmado entre os três países teve uma reação negativa imediata em Washington, porque foi visto como algo que não resolve o problema principal, e ainda atrasa a votação de novas sanções da ONU.
O efeito colateral "não esperado e não intencionado" do acordo foi uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU na terça-feira (18) e uma nova proposta de sanções ao Irã, alcançada após meses de negociação entre os cinco membros permanentes do CS --Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido-- mais a Alemanha. No entanto, Spektor diz não acreditar que o imbróglio diplomático piore a imagem do Brasil, que já é visto pelos EUA como "um negociador duro" que não se alinha facilmente, como foi visto nas negociações da Alca [Área de Livre Comércio das Américas, defendida pelos EUA] e da Rodada Doha da OMC (Organização Mundial do Comércio).
Folha de S.Paulo - Qual sua percepção sobre a reação que o acordo Brasil-Turquia-Irã causou nos EUA?
Matias Spektor - A reação imediata em Washington foi negativa, porque interpretou-se como um acordo que não conseguiu resolver o problema principal em questão - a insistência iraniana em enriquecer urânio a 20% - e por contribuir para atrasar e protelar a votação de uma nova rodada de sanções contra o Irã. Agora, a aceleração dos tempos em direção a um texto [de sanções] consensuado foi um resultado inesperado tanto no Brasil como aqui nos EUA, foi um efeito colateral não esperado e não intencionado.
Matias Spektor - A reação imediata em Washington foi negativa, porque interpretou-se como um acordo que não conseguiu resolver o problema principal em questão - a insistência iraniana em enriquecer urânio a 20% - e por contribuir para atrasar e protelar a votação de uma nova rodada de sanções contra o Irã. Agora, a aceleração dos tempos em direção a um texto [de sanções] consensuado foi um resultado inesperado tanto no Brasil como aqui nos EUA, foi um efeito colateral não esperado e não intencionado.
Folha - Isso pode comprometer a imagem do Brasil no exterior?
Spektor - Eu não acredito que comprometa a imagem do Brasil mais seriamente. O Brasil tem uma imagem de um negociador duro, como a gente pôde acompanhar na negociação da Alca ou da rodade de Doha. Sabe-se e espera-se que o Brasil não diga sim facilmente aos EUA, e aceita-se como legítima a discordância com o Brasil. Ninguém nos EUA espera que o Brasil faça alinhamento automático com os EUA.
Spektor - Eu não acredito que comprometa a imagem do Brasil mais seriamente. O Brasil tem uma imagem de um negociador duro, como a gente pôde acompanhar na negociação da Alca ou da rodade de Doha. Sabe-se e espera-se que o Brasil não diga sim facilmente aos EUA, e aceita-se como legítima a discordância com o Brasil. Ninguém nos EUA espera que o Brasil faça alinhamento automático com os EUA.
Folha- Mas a insistência em negociar com o Irã pode prejudicar a imagem brasileira?
Spektor - Como eu falei, a reação aqui nos EUA foi negativa. Agora, a expectativa geral dos EUA em relação ao Brasil é de que as negociações com o Brasil sempre precisam de muito engajamento para se chegar a algum acordo, porque o Brasil é um negociador duro. A reação foi negativa, mas isso não quer dizer que a imagem tenha piorado muito para o Brasil, porque o Brasil já tem uma imagem de duro negociador.
Spektor - Como eu falei, a reação aqui nos EUA foi negativa. Agora, a expectativa geral dos EUA em relação ao Brasil é de que as negociações com o Brasil sempre precisam de muito engajamento para se chegar a algum acordo, porque o Brasil é um negociador duro. A reação foi negativa, mas isso não quer dizer que a imagem tenha piorado muito para o Brasil, porque o Brasil já tem uma imagem de duro negociador.
Folha - O fato de o Conselho de Segurança da ONU continuar com a votação de sanções contra o Irã, apesar do acordo, pode ser visto como uma derrota?
Spektor - Alguns países do mundo em desenvolvimento acreditam que o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) tornou-se uma ferramenta para os fortes imporem as regras do jogo para os mais fracos de acordo com seus próprios interesses. Israel e a Índia nucleares não serão punidos por sentarem de fora do regime, e podem até ser recompensados, dizem esses países, mas o Irã terá seu direito negado. Acho que o que veremos nos próximos dias é o recrudescimento das divisões em volta do regime de não proliferação nuclear, que está sendo revisado em Nova York ao mesmo tempo em que as sanções estão sendo postas na mesa. Ou seja, esses eventos revelam que há um poço muito profundo no mundo hoje a respeito de como avançar com o regime de não proliferação nuclear, que já tem 40 anos e precisa ser readaptado ao mundo atual. Não há consenso nas relações internacionais hoje sobre como proceder, e isso é o que ajuda a explicar os problemas que estamos vivendo nestas semanas.
Spektor - Alguns países do mundo em desenvolvimento acreditam que o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) tornou-se uma ferramenta para os fortes imporem as regras do jogo para os mais fracos de acordo com seus próprios interesses. Israel e a Índia nucleares não serão punidos por sentarem de fora do regime, e podem até ser recompensados, dizem esses países, mas o Irã terá seu direito negado. Acho que o que veremos nos próximos dias é o recrudescimento das divisões em volta do regime de não proliferação nuclear, que está sendo revisado em Nova York ao mesmo tempo em que as sanções estão sendo postas na mesa. Ou seja, esses eventos revelam que há um poço muito profundo no mundo hoje a respeito de como avançar com o regime de não proliferação nuclear, que já tem 40 anos e precisa ser readaptado ao mundo atual. Não há consenso nas relações internacionais hoje sobre como proceder, e isso é o que ajuda a explicar os problemas que estamos vivendo nestas semanas.
Folha - O sr. acha que a maior inserção do Brasil no cenário internacional nos últimos anos está, de certa forma, ligada à figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou tem mais a ver com o panorama global atual?
Spektor - A questão do Irã, especificamente, está diretamente ligada a duas figuras: o presidente Lula e o ministro Celso Amorim. Amorim foi embaixador do Brasil nas Nações Unidas durante oito anos --seja em Nova York ou em Genebra--, foi presidente dos paineis responsáveis pelas sanções e foi presidente dos paineis sobre Iraque do Conselho de Segurança das Nações Unidas no final da década de 1990. Essas duas figuras fazem toda a diferença para explicar o que o Brasil está fazendo no caso do Irã. Nas outras inserções, não tem tanto a ver com a personalidade do presidente e do ministro, mas sim com o fato de que o sistema internacional está sofrendo transformações hoje em dia, cuja natureza dá destaque a países como o Brasil. Nos temas centrais da agenda internacional - energia, não proliferação, comércio internacional, reforma do sistema financeiro internacional -, o Brasil é definitivamente um jogador cada vez mais importante. Em alguns desses quesitos, é impensável hoje qualquer acordo ser fechado sem o Brasil. Então, independentemente de quem governe, a inserção internacional do Brasil hoje é muito maior do que era há apenas dez anos, porque mudanças da estrutura do sistema produziram isso. Independentemente de quem vá ganhar a corrida eleitoral este ano, a gente provavelmente vai ver um Brasil crescentemente exposto e desafiado a lidar com temas difíceis da gerência internacional, e a crises internacionais [diplomáticas] que o Brasil antes podia ignorar e agora não pode mais.
Folha - É possível fazer alguma comparação entre a negociação nuclear com o Irã mediada pelo Brasil e a Turquia, e a visita do presidente Lula a Israel e aos territórios palestinos poucas semanas antes, quando houve críticas de que Lula estava "se metendo onde não foi chamado"?
Spektor - O governo atual tem a interpretação de que o Brasil precisa desenvolver uma política para o Oriente Médio. Essa percepção tem a ver com dois fatores. O primeiro é que não há uma saída óbvia para a crise no Oriente Médio, as grandes potências não têm conseguido encontrar um encaminhamento, e o governo atual acredita que trazer mais vozes para o debate possa trazer novas aberturas e desenvolvimentos. O outro fator é a crença do governo brasileiro atual de que ter opinião sobre o que acontece no Oriente Médio é legítimo, já que o Brasil alberga uma enorme comunidade de ascendência daquela região, seja judaica ou seja árabe. Tem a ver também com crescentes interesses econômicos e políticos do Brasil na região. À medida que o Brasil começa a jogar em ligas das quais não participava antes, precisa ter apoio em lugares que antes podia se dar ao luxo de ignorar. Na leitura do atual governo, o Oriente Médio é um caso, assim como a África.
Folha - É possível fazer alguma comparação entre a negociação nuclear com o Irã mediada pelo Brasil e a Turquia, e a visita do presidente Lula a Israel e aos territórios palestinos poucas semanas antes, quando houve críticas de que Lula estava "se metendo onde não foi chamado"?
Spektor - O governo atual tem a interpretação de que o Brasil precisa desenvolver uma política para o Oriente Médio. Essa percepção tem a ver com dois fatores. O primeiro é que não há uma saída óbvia para a crise no Oriente Médio, as grandes potências não têm conseguido encontrar um encaminhamento, e o governo atual acredita que trazer mais vozes para o debate possa trazer novas aberturas e desenvolvimentos. O outro fator é a crença do governo brasileiro atual de que ter opinião sobre o que acontece no Oriente Médio é legítimo, já que o Brasil alberga uma enorme comunidade de ascendência daquela região, seja judaica ou seja árabe. Tem a ver também com crescentes interesses econômicos e políticos do Brasil na região. À medida que o Brasil começa a jogar em ligas das quais não participava antes, precisa ter apoio em lugares que antes podia se dar ao luxo de ignorar. Na leitura do atual governo, o Oriente Médio é um caso, assim como a África.
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