quarta-feira, 9 de maio de 2012

O adversário de Obama: Mitt Romney entre o Tea Party e os democratas

Por Maurício Santoro (Todos os Fogos o Fogo, 25/04/2012)

As primárias do Partido Republicano para escolher seu candidato à Presidência dos Estados Unidos arrastaram-se por cerca de um ano e foram lideradas por 11 pessoas diferentes. Com a desistência do ex-senador Rick Santorum no dia 10 de abril, a vitória sofrida e tardia deverá ser do empresário e ex-governador de Massachussets, Mitt Romney, cujas posições políticas moderadas foram ridicularizadas pelas alas conservadoras do partido, ouriçadas pelo fenômeno do Tea Party. À frente de um partido fragmentado, Romney tem a difícil tarefa de vencer Barack Obama na disputa pela Casa Branca. As pesquisas dão de 7 a 10 pontos percentuais de vantagem para o presidente, apesar da persistência da crise econômica.

Romney representa a corrente centrista dos republicanos, tradicional na Costa Leste dos Estados Unidos. Seu pai seguia a mesma linha política e governou o estado do Michigan, nos Grandes Lagos. A família pertence há várias gerações à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, uma denominação protestante que surgiu na década de 1820. Conhecidos como mormóns, os fiéis seguem os ensinamentos de seu profeta Joseph Smith Jr, abstêm-se do álcool e realizam intenso trabalho missionário – o próprio Romney exerceu essa função na França.

Há cerca de 6 milhões de mórmons nos Estados Unidos, mas a igreja é vista com desconfiança por muitos americanos – um terço da população sequer sabe que os mórmons são cristãos! A maioria de seus rituais são fechados a forasteiros, seus adeptos praticaram a poligamia até 1890 e envolveram-se em conflitos armados com as autoridades no século XIX.

Além de precisar superar os preconceitos provocados por sua fé religiosa, Romney enfrenta a rejeição de seu próprio partido. A eleição de Obama provocou uma forte reação das bases sociais republicanas, o chamado movimento “Tea Party” – o nome é uma referência à “festa do chá de Boston”, uma rebelião anti-impostos e controle governamental nos anos finais da colonização britânica. Por tabela, um símbolo da liberdade econômica frente ao autoritarismo do Estado.

A principal bandeira do movimento do chá é o repúdio ao aumento da ação governamental, como os pacotes de ajuda ao setor financeiro e à indústria automobilística e há muitas referências à importância dos valores religiosos, e na oposição ao direitor ao aborto ou ao casamento de homosseuxais. As características demográficas do grupo são claras: o membro típico é um homem branco de meia idade e situado na alta classe média.

Contudo, a rejeição a Obama passa também pelo desencanto com os republicanos, em especial pelo governo George W. Bush, encarado com desgosto pelo mau desempenho e pela disparada na dívida pública. Os integrantes do Tea Party querem se livrar dos democratas, mas antes buscam o controle do partido republicano, que esperam reanimar com sua agenda ideológica.

Suas simpatias estão com políticos como a ex-governadora do Alasca, Sarah Palin, a deputada Michelle Bachman, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Newt Gingrich e o ex-senador Santorum. Romney é considerado um adversário do movimento porque quando era governador implementou um programa de saúde pública bastante parecido ao que foi implementado por Obama no nível nacional.

O Tea Party saiu-se bem nas eleições legislativas de 2010, com muitas declarações de apoio de deputados e senadores republicanos. Porém, o movimento sofreu sério desgaste nos conflitos envolvendo a elevação do teto da dívida pública dos Estados Unidos. Sua intransigência em aceitar acordos foi reprovada pela maioria dos eleitores, acostumados a compromissos com relação a esse tema.

Além disso, os pré-candidatos presidenciais simpáticos ao Tea Party saíram-se mal nas primárias presidenciais, demonstrando dificuldade de converter os slogans radicais do grupo em propostas de políticas públicas atraentes para os eleitores moderados que são fundamentais na conquista da Casa Branca. O dilema republicano é difícil: conciliar o fervor ideológico das bases com o centrismo necessário para ganhar uma eleição majoritária.

As primárias foram marcadas por uma campanha agressiva, repleta de ataques pessoais e com poucos debates significativos sobre propostas políticas. Romney se beneficiou das divisões ideológicas e regionais entre os conservadores. Aqueles que favorecem valores religiosos na política não gostam do libertário Ron Paul, apóstolo da liberdade máxima do indíviduo. Os que preferem abordagens mais tradicionais fragmentaram seu apoio no Sul a Gingrich (natural do estado da Geórgia) enquanto Santorum saiu-se melhor no Meio Oeste.

Gingrich foi muito enfraquecido por escândalos sexuais envolvendo adultérios e divórcios tumultuados e Santorum cometeu gafes célebres, como afirmar que havia demasiados americanos estudando em universidades. Ele desistiu da disputa quando ficou claro que perderia as primárias na Pensilvânia, estado que representou no Senado.

Com a renúncia de Santorum, o espaço está aberto para Romney vencer a indicação do partido para concorrer à presidência. Ele precisará de um candidato a vice que satisfaça ou menos aplaque os conservadores, mas tem que tomar cuidado para que não repita o desempenho catastrófico de Sarah Palin ou outros extremistas.

Para enfrentar Obama, a estratégia de Romney será focar seu discurso na crise econômica e se apresentar como um empresário e empreendedor dinâmico, que entende na prática como funciona a geração de empregos. Mas como um milionário do setor financeiro, acusado de sonagar impostos, o candidato republicano terá um caminho espinhoso pela frente, pois os movimentos de ocupação de praças e outros espaços urbanos conseguiram colocar com força na agenda de discussões os temas da desigualdade e da responsabilidade fiscal dos mais ricos.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Marine Le Pen: preocupante mas não tão surpreendente

Por Murillo Victorazzo

Os principais jornais brasileiros destacaram a expressiva votação de Marine Le Pen, a candidata xenófoba e nacionalista da extrema-direitista Força Nacional (FN), no primeiro turno das eleições presidenciais francesas, no último dia 22.  Consideraram os seus 18% de votos a grande surpresa do pleito e a última esperança de Nicolas Sarkozy (UMP) conseguir virar o quadro desfavorável e obter a reeleição. Ao ficar quase dois pontos percentuais atrás do socialista François Hollande, Sarkosy tornou-se o primeiro presidente da V República a não vencer o primeiro turno na busca por um segundo mandato.

Contudo, embora histórica,  a votação de Le Pen não deve ser vista como um fenômeno tão inesperado. Durante toda a campanha, as pesquisas sempre evidenciaram uma faixa entre 15% e 18% do eleitorado simpática a sua candidatura. Os dois pontos percentuais a mais podem ser depositados na conta dos indecisos e de uma abstenção menor do que a esperada. Temia-se que cerca de 30% dos franceses não fossem às urnas, mas a taxa foi de perto de 20%, número muito proximo do colhido cinco anos atrás.

O terceiro lugar para a FN era a tendência natural, ainda que Jean-Luc Mélenchon, da Frente de Esquerda, tenha, em certos momentos, aproximado-se dela. Inesperada teria sido a ultrapassagem na reta final de um candidato que até o ínicio da campanha longe estava da casa dos dois dígitos de intenções de votos. Mélenchon decepcionou no final ao conquistar apenas 11% do eleitorado, quatro pontos menos do que a média das sondagens indicavam nas últimas semanas. Mesmo assim, saiu maior do que entrou. E, embora menos crucial para a definição do segundo turno do que Le Pen, tornou-se, de certa forma, a grande novidade maior das eleições francesas.

Não se trata de minimizar o feito de Le Pen. Ela conseguiu solidificar a extrema-direita no jogo político e  colocou definitivamente a imigração no centro do debate político francês. É, de fato, agora, um nome pelo qual passará todos os debates sobre o futuro do país. Quem quer que seja o próximo presidente, terá que lidar com ela, seja cedendo a suas reivindicações ou a enfrentando. Porém, embora com mais suavidade e classe, Le Pen apenas deu prosseguimento ao trabalho iniciado por seu pai, Jean-Marie .

Em 2002, mesmo com votação menor do que a da filha (cerca de 16%), Jean Marie assustara os europeus ao ultrapassar os socialistas e disputar o segundo turno com o então presidente Jacques Chirac. Sua performance mostrava, portanto, que o nacionalismo-populista de direita, eurocético e xenófobo, já circundava a nação-mãe do Iluminismo, dos direitos humanos e (ao lado da Alemanha) da União Europeia. Era de se esperar que, diante da gigantesca crise econômica por que passa a região, o discurso dos Le Pen ecoasse em número ainda maior de ouvidos.

Não é de hoje que a primeira vítima da recessão é o cosmopolitismo e o liberalismo. A História nos mostra que dinheiro e trabalho escassos são combustíveis para o extremismo e o protecionismo. Com suas teorias simplórias e populistas, o radicalismo fala justamente o que os desiludidos e desempregados querem ouvir.  No desespero, apontar um culpado faz bem, e, quando este é um diferente - ou um "intruso" -, a catarse é ainda maior.  A tudo isso se soma o clima de insegurança, que, catalisado a partir dos atentados em Montpellier mês passado, se reflete na crescente islamofobia.

Outro bom sinal da radicalização do eleitorado francês é a trajetória inversa do candidato centrista François Bayrou (MoDem) perante os radicais Le Pen e Mélenchon. Enquanto os dois somaram cerca de 30% de votos, Bayrou, após atingir quase 20% nas eleições de 2007, obteve apenas 9%. Os dois extremos do espectro político têm em comum o discurso fortemente crítico sobre a União Europeia. Não poderia haver sinal mais claro do que quase um terço do eleitorado francês pensa sobre o bloco regional.

Diante deste cenário, Sarkozy, que já há algum tempo flerta com teses anti-imigratórias, caminhará ainda mais para direita. Seus primeiros discursos após o primeiro turno já indicam esta inflexão, aparentemente sua única opção para impedir que os socialistas voltem ao Palácio do Eliseu 17 anos depois. A estratégia, porém, além de lamentável ideologicamente, é arriscada.

Para virar o jogo, Sarkozy, segundo especialistas franceses, terá que avançar simultanemante sobre dois campos: ter no mínimo cerca  de 80% dos eleitores de Le Pen, e ao menos 60% dos votos que recebeu Bayrou. É uma situação paradoxal, pois, se para seduzir os lepenistas, ele tem que manter a guinada à direita, esta movimentação provavelmente o fará perder eleitores centristas. Além disso, necessitará que uma pequena parcela dos eleitores de Mélenchon não vote em Hollande, hipótese ainda menos provável diante de tal guinada. Sua campanha permanecerá no fio da navalha até o último voto depositado.

Faltam menos de uma semana para o turno decisivo. Hollande é o favorito, segundo as pesquisas, que lhe dão entre seis e oito pontos de vantagem. Mas eleição só se ganha após a apuração. Por hora, a única certeza é que, embora tenha se tornado crucial para o resultado final, o fortalecimento de Le Pen não tem nada de inimaginável.




segunda-feira, 5 de março de 2012

Bom tucano balança mas não cai do galho

Por Murillo Victorazzo

José Serra se decidiu. Pressionado pela cúpula tucana, o ex-governador paulista voltou atrás e anunciou que tentará voltar à Prefeitura paulistana este ano. Figura de peso da política nacional, era natural que as eleições em São Paulo ganhassem novos contornos com seu nome na disputa. Março começou, por isto, com Serra no centro das atenções. E os meios de comunicações, para aproveitar o gancho ou por interesses nada jornalísticos, logo lhe abriram farto espaço. Na última quinta-feira, tal exposição parecia ter sido um tiro saído pela culatra. No sábado, porém, com a divulgação da mais recente pesquisa de intenção de voto, o diagnóstico era o oposto.

Em entrevista concedida a um amistoso Boris Casoy, no Jornal da Noite, da TV Band, Serra, quinta-feira, usou o figurino de que mais gosta, o de forte crítico do governo Dilma Roussef. Entre críticas ao  "aparelhamento do Estado" e à "desindustrialização" do país, chamou Casoy para visitar com ele projetos seus desenvolvidos quando governador e prefeito. Em um dado momento, após convidar o apresentador para conhecer um museu a céu aberto criado em sua gestão, ouviu a bem humorada negativa: "Não vou a museus mais, governador. Tenho medo que não me deixem sair de lá". A recusa, ainda que sutil, viria a mostrar-se como o prenúncio de um entrevista infeliz para o candidato.

Ao ser perguntado sobre a crise europeia, Casoy -e provavelmente quase todos espectadores- imaginava ter  entrado no terreno ideal para o famoso economista desfiar seus conhecimentos acadêmicos. Mas, por essas ironias que a entrevista jornalística permite, o veterano político acabou por tropeçar feio nas próprias palavras, cometendo uma gafe que, se cometida pelo ex-presidente Lula, redundaria em manchetes jocosas nos principais jornais do país.

Com seu conhecido tom professoral, Serra pretendia iniciar sua resposta ressaltando as dificuldades inerentes a uma federação. Para tanto, se dispôs a fazer uma analogia da com o Brasil e os Estados Unidos. E logo de cara, convicto, afirmou: "O Brasil se chama Estados Unidos do Brasil. Os Estados Unidos se chamam Estados Unidos da América..." Foram longos três segundos nos quais a sensação de vergonha alheia ficou no ar no estúdio e em muitas residências, até que Casoy delicadamente interrompeu para corrigi-lo: "Não, o Brasil não se chama Estados Unidos do Brasil, governador".

Incrédulo, olhando com feições de abobado para o jornalista, o plumado político conseguiu piorar sua situação ao retomar a palavra com uma simples mas sintomática pergunta: "Mudou?" A Casoy, só restou esclarecer: "Sim. Chama-se República Federativa do Brasil". O diálogo deixava claro que Serra não havia cometido um simples lapso de memória, uma mera confusão comum a quem está externando ideias rapidamente. O engano era real. "Então. É federação, é parecido", logo retrucou, tentando mitigar seu erro e dando sequência a sua argumentação.

Gafes fazem parte do noticiário político. Mas, vindo de um político exaltado por aliados, eleitores e grande parte da mídia como culto e preparado para qualquer cargo público, a confissão de desconhecimento, por menor que seja o fato em si, surpreendeu. Especialmente por se tratar de alguém que foi duas vezes candidato à Presidência da república em questão. Dá para imaginar um homem pedindo a mão de uma mulher cujo nome pouco sabe? Não sabia o ex-deputado, ex-senador,  ex-ministro, ex-prefeito e ex-governador que, há 45 anos, o nome oficial de seu sonho de consumo mudara.

Tivesse saído da boca do operário ex-presidente, a frase seria considerada mais uma prova de ignorância e falta de estatura de quem ousa pretender ser um estadista. Burro seria o mínimo disparado raivosamente pela parcela da opinião pública que, donas de visões equivocadas de mundo ou de preconceitos sociais e ideológicos, pensam ainda que chefia de Estado é vestibular. "Um presidente não pode falar isto", diriam. E um candidato reincidente ao mesmo cargo pode?

Do outro lado da trincheira, a gafe serrista fez a alegria dos militantes da candidatura do ex-ministro Fernando Haddad. Nas redes sociais, eles não economizaram ironias e provocações. Uma celebração ao que pensavam ser o infeliz pontapé inicial de campanha de seu principal adversário. Uma espécie de catarse petista, em muito fundamentada nas razões mencionadas no parágrafo acima.

No entanto, a pesquisa DataFolha divulgada no sábado logo arrefeceu os ânimos estrelados. Os nove pontos percentuais conquistados por Serra e sua consequente liderança em todos os cenários pesquisados demonstraram que a exposição na mídia teve o resultado desejado. Na balança, pesou mais do que a lamentável gafe. Por sinal, certamente muitos petistas devem estar se indagando se o erro foi repercutido pela imprensa do mesmo modo que seria se o político em questão fosse outro.

É claro que os 30% de intenções de voto de Serra se deve muito ao recall de eleições anteriores. Em outras palavras, à memória que o eleitor tem das participações do candidato em outros pleitos. Mas é inegável também que o tucano saiu do governo e da prefeitura com altos índices de aprovação. Por outro lado, desta vez, como candidato  do prefeito Gilberto Kassab, ele terá que se desvencilhar das críticas à  mal avaliada administração municipal. Além  de driblar as desconfianças sobre se irá completar o mandato, ou renunciar novamente para tentar voos maiores.

Estes prós e contras explicam por que Serra é um nome fortíssimo, ainda que com alta taxa de rejeição. Para quem parte de 3%, como Haddad, a semana evidenciou como será difícil derrotar o PSDB. E sinalizou que, apesar de bom de bico, tucano também tropeça nas próprias patas, mesmo que, por enquanto, tenha balançado mas não despencado do galho.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Sem Conselho

Por Matias Spektor (UOL, 30/01/2012)

O Brasil acaba de encerrar seu último mandato de dois anos como membro rotativo do Conselho de Segurança das Nações Unidas, foro onde se decidem e legitimam as regras do jogo global. Apesar de ter sentado nessa cadeira dez vezes em setenta anos, foi em 2010/11 que o mundo inteiro percebeu.

Durante sua passagem pelo Conselho, o Brasil meteu o pé no acelerador: fez uma proposta para resolver o impasse nuclear do Irã, tentou liderar uma saída para a crise humanitária no Haiti, denunciou a mudança forçada de regime na Líbia e buscou ter opinião na partilha do Sudão. Também tomou a dianteira num país em frangalhos que fala português e precisa de uma missão de paz pela qual ninguém quer pagar, a Guiné-Bissau.

Nunca antes a diplomacia brasileira nas Nações Unidas teve tanto em jogo ao mesmo tempo. Nesses dois anos houve momentos de enorme pressão: Obama pedindo a Lula para mudar seu voto, Hillary Clinton indo a Brasília para convencer Celso Amorim, Rússia e China em incontáveis horas de discussão com o governo Dilma, o "Washington Post" e a "Foreign Affairs" criticando o Brasil em artigos e editoriais. Em pouco tempo, o Brasil deixou muita gente de sobrancelha arqueada e cabelo em pé.

Você pode aplaudir ou criticar a performance brasileira, mas esse tipo de turbulência é o ambiente inescapável de um país em ascensão. É bom se acostumar. Sem estar no Conselho, o Brasil de 2012 ficará menos exposto aos holofotes. Em contrapartida, sua voz será menos ouvida. Longe do centro das decisões mundiais, sua influência poderá declinar. O que fazer para evitar esse cenário?

Primeiro, marcar presença nos influentes grupos informais que trabalham à sombra do Conselho. Lá será possível insistir nas teses da "responsabilidade ao proteger", proposta brasileira para regrar as intervenções humanitárias do futuro. O Brasil ainda não sabe tirar proveito desse espaço, mas pode aprender com o Canadá, que fez disso uma arte.

Segundo, restaurar a imagem do país junto aos povos da Primavera Árabe, maculada na esteira de nossa lentidão e timidez ao condenar os regimes de Gaddafi na Líbia e Assad na Síria. A maneira de fazê-lo é criando um amplo Grupo de Apoio ao processo de paz entre Israel e Palestina --demanda generalizada sobre a qual as grandes potências têm feito pouco e nada, apesar de ser essencial para a estabilidade daquela região.

Terceiro, e mais importante, tirar lições dos sucessos e fracassos desses dois anos de vida no Conselho de Segurança. Sem essa reflexão, perderemos a oportunidade de traduzir a rica experiência acumulada em instrumentos de política externa para amanhã. Esta é uma operação fácil porque envolve apenas os 20 diplomatas brasileiros que trabalharam no Conselho. É simples juntá-los numa praia deserta do Nordeste para conversa a porta fechadas e sem jornalistas durante três dias. É barato trazer especialistas internacionais capazes de oferecer a perspectiva de quem assistiu a tudo de fora. Nenhum governo é bom de introspecção e autocrítica, mas as circunstâncias são excepcionais.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Julgamento do Carnaval

Por Pedro Migão (http://sambadeterca.galeriadosamba.com.br/, 02/01/2012)

Antes de qualquer coisa, o julgamento possui um problema básico: quem coordena o júri, define os critérios e escolhe os nomes é a própria Liesa, Liga Independente das Escolas de Samba. Ou seja: julga quem faz. Isso é básico em auditoria, por exemplo: quem faz não audita. O mesmo raciocínio pode ser adotado por analogia para o julgamento do carnaval: as escolas não podem estar responsáveis pela sua avaliação no desfile. No mínimo, para diminuir a influência dos mandatários da entidade sobre o júri, porque sempre há o receio de que uma nota baixa para as escolas dos mandatários da vez da instituição signifique estar fora no ano seguinte. Que fique claro que não estou afirmando que ocorre o que disse acima. Estou falando em hipótese.

Além desta questão, os próprios critérios de julgamento, a meu ver, precisam não somente ser revistos como terem sua aplicação feita de forma correta. Vamos por partes. Hoje os jurados são muito mais "fiscais de erros" que propriamente julgadores: pontos são descontados pela ausência de elementos ou erros ocorridos no desfile, não se premiando a criatividade ou a excelência. Além disso, mesmo dentro destes parâmetros há quesitos nos quais há problemas de julgamento.

Há outra questão: os quesitos de ordem "plástica" - Alegorias, Fantasias, Conjunto - acabam sendo mais decisivos que os quesitos "de pista" (bateria, samba enredo, evolução, harmonia). Uma penalização nestes últimos é bem menor que nos primeiros. O leitor quer um exemplo? O Salgueiro foi justamente campeão em 2009. Mas seu samba jamais, repito, jamais poderia ter tido todas as notas máximas como teve. Outro exemplo foram as notas de Harmonia da Beija Flor este ano de 2011: eu estava ao lado do último módulo de julgamento, alas e alas passaram sem cantar o samba, e qual foi a nota? Dez.

Para 2012 há duas inovações que particularmente me preocupam muito: a adoção da nota mínima 9,0 e o "décimo extra". Com esta nota mínima e o uso dos décimos, as diferenças entre as escolas ficam mais difíceis de serem analisadas. Grandes e pequenos erros não terão muita diferenciação, o que nivela por baixo. Por exemplo, o sensacional samba da Portela não terá notas muito diferentes que o sofrível "auto ajuda" da Acadêmicos do Grande Rio. Outra "inovação" é o décimo extra, o "10,1". Este já foi testado em anos anteriores e voltará este ano, sem contar no julgamento oficial. A idéia é "premiar" as melhores escolas, já que o julgamento, na prática, não é comparativo. Sinceramente, acho inócuo.

Mais uma mudança é que, a partir de agora, serão apenas quatro módulos de julgamento, não cinco. Isso irá melhorar a fluidez das escolas, pois as longas paradas para apresentação dos casais de mestre sala e porta bandeira e da comissão de frente acabavam "quebrando" bastante a evolução. Como reflexo desta diminuição apenas a menor nota será descartada, o que nivela ainda mais por baixo o carnaval. Aliás, nem estas paradas para apresentação destes dois quesitos seriam necessárias, se os jurados pudessem avaliar em todo o seu campo de visão. É outro problema do julgamento.

E o que pode ser feito para tornar mais acurado o julgamento? Antes de mais nada, respeitar o princípio básico de auditoria e tirar das escolas o julgamento. Contratar uma entidade independente - ou a própria Riotur - para selecionar os jurados, manter os nomes em sigilo e assim tirar o peso político das agremiações. Outro ponto é separar a nota em parte descritiva e parte comparativa. Tal e qual feito na ginástica, as escolas teriam uma "nota de partida" se cumprissem todos os requisitos determinados para aquele quesito. A partir daí, a nota seria comparativa.

Obviamente, o padrão de notas teria de ser diferente: notas de 5 a 10, sem os décimos e com os meios pontos. A nota de partida poderia ser nove, por exemplo, e o ponto restante comparativo. Os critérios de julgamento de cada quesito também devem ser modificados a fim de tirar o peso dos "fiscais de erros" e premiar a excelência. E a nota deve ser dada pelo que acontece em toda a avenida, não somente à frente do julgador. Também valeria a pena, a meu ver, dar pesos aos quesitos de acordo com sua importância: mestre sala e porta bandeira e comissão de frente não podem ter o mesmo peso de samba de enredo, por exemplo.

Claro que é uma situação hipotética e nunca vi nada que sequer indicasse que este tipo de coisa tenha acontecido, mas um eventual presidente desonesto pode definir o carnaval apenas subornando o casal de uma outra agremiação com R$ 400 ou 500 mil, por exemplo. Basta este "cair" em frente a todos os jurados e pronto. Privilegiar os quesitos de "pista" também poderia ser uma forma de diminuir a influência do poder financeiro sobre a festa, com pesos maiores para estes.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A conexão iraniana

Por Martin Indyk ( Foreign Policy, 12/10/2011)*

Qual a ligação entre as denúncias de atentado contra o embaixador da Arábia Saudita e a libertação de Gilad Shalit? O Irã parece fraco - e isto é assustador.

Embora possa não ser imediatamente óbvia, existe uma ligação importante entre as duas grandes histórias que romperam no Oriente Médio Médio terça-feira, 11 de outubro - o acordo de transferência de prisioneiro negociada entre o Hamas e Israel para a libertação de Gilad Shalit e a detenção de Manssor Arbabsiar, agente da força iraniana Quds. Uma conexão que demonstra o esvaecimento da influência do Irã desde o surgimento da Primavera árabe.

Raramente a mão iraniana no terrorismo é revelada de forma tão clara como foi terça-feira, com os detalhes cuidadosamente fornecidos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. O regime iraniano, operando através de Guarda Revolucionária Isâmica (IRGC), faz o melhor para operar sem impressões digitais, na implantação do terrorismo como ferramenta de sua própria marca política. Mas aqui as transcrições de telefone e de correspondências são provas de que "elementos do governo iraniano" — especificamente oficiais superiores da Quds do IRGC - foram responsáveis por encomendar e orquestrar um descarado atentado terrorista contra o embaixador saudita nos Estados Unidos, Adel al-Jubeir, no centro de um restaurante, em Washington.

A mão iraniana em atividades terroristas do Hamas também foi revelada no passado, especialmente durante a interceptação de armas para Gaza interceptadas pela Marinha israelense. Mas o papel do Irã nas negociações do caso Shalit  foi menos óbvia e pouco observada. As negociações para a sua libertação foi tortuosa e prolixa, mediada por oficiais da inteligência alemã e egípcia. Em momentos críticos no passado, o Irã interveio através de Khaled Meshaal, líder externo do Hamas, para facilitar o acordo. Os motivos de Teerã eram bastante óbvios: a melhor maneira para espalhar sua influência sobre os corações árabes é manter acesas as chamas do conflito com Israel. Qualquer acordo de troca de prisioneiros entre Hamas e Israel diminuiria o combustível para o fogo.

Mas a influência do Irã sobre liderança externa do Hamas tem sido enfraquecida ultimamente. Com base em Damasco, na Síria, Meshaal e seus colegas encontraram-se em uma posição estranha como o despertar sírio que se desencadeou em torno deles. Como parentes da Irmandade muçulmana sunita, cujo ramo sírio tornou-se alvo dos bandidos alauitas do presidente Bashar al-Assad, eles não poderiam apoiar o regime, mesmo que seus mestres iranianos exigissem. Em vez disso, Meshaal iniciou conversações com o governo militar provisório egípcio sobre a transferência de Damasco para Cairo (onde, como resultado da revolução, a Irmandade Muçulmana egípcio ganhou nova influência). O preço: a reconciliação com Abu Mazen (primeiro-ministro palestino) e a aquiescência ao acordo de troca de prisioneiros com Israel.
O acordo de reconciliação do Fatah com o Hamas foi anunciado no Cairo em maio. Em meados de julho, mediadores egípcios transmitiram uma nova e mais razoável oferta do Hamas a Israel. Proposta que disparou as negociações que culminaram no anúncio da troca de prisioneiros. Em suma, o acordo do Hamas-Israel pode ser uma vitória para o Hamas, para as relações do Egito-Israel - e para a família de Shalit, naturalmente - mas é também um golpe para o Irã. Ele indica que os iranianos perderam o controle de uma de suas principais arterias terroristas árabes para o Egito, seu arqui-rival de influência no mundo árabe.

Outro arqui-rival árabe do Irã é a Arábia Saudita. Os americanos tendem a conspiração terrorista iraniana através do prisma de uma tentativa descarada de promover um ataque em solo americano. Mas o IRGC claramente projetou-o de forma matar dois coelhos de uma cajadada só: assassinaria um símbolo do regime Saudita ao mesmo tempo em que comensais americanos morreriam no centro de Washington. Já vimos isso antes: o bombardeio das Torres Khobar, em 1996, pelo Hezbollah Saudita matou 19 soldados norte-americanos em território saudita.

O que podemos concluir de conexões bizantinas entre dois eventos de terça-feira? Contrariamente às previsões confiantes de que o Irã seria o beneficiário da Primavera árabes, seus esforços para espalhar sua influência para o coração de árabes estão agora em apuros. Ele está perdendo sua artéria Hamas para o Egito. Seu aliado sírio está cambaleando. A Turquia virou-se contra ele. Quando o regime iraniano encontra-se emparedado, ele normalmente ataca. Talvez isto que explique por que os mandantes iraniano de Arbabsiar disseram-lhe para "apenas fazê-lo rapidamente. Já é tarde....

Martin Indyk is vice-presidente e diretor do Foreign Policy Program no Brookings Institution.

*Tradução livre do blog

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Influência crescente do Brasil preocupa países vizinhos

Do The New York Times (reproduzida na Veja, 11/11/2011)

Manifestantes indígenas da Bolívia escolheram um novo apelido para o presidente Evo Morales: "lacaio do Brasil". Em frente à embaixada brasileira em La Paz, eles denunciam as tendências "imperialistas" do vizinho gigante. Intelectuais bolivianos recriminam a 'burguesia paulista' comparando-a aos bandeirantes caçadores de escravos do período colonial.

Há menos de uma década, esse discurso exaltado era dirigido exclusivamente aos Estados Unidos. Com seu emergente avanço econômico e político na região, o Brasil começa a conhecer as armadilhas que acompanham um papel de liderança. "O poder simplesmente atravessou a Avenida Arce", diz Fernando Molina, um colunista local, se referindo à rua de La Paz onde a residência do embaixador do Brasil se encontra do outro lado da rua da gigantesca Embaixada dos Estados Unidos.

Projetos brasileiros têm sido recebidos com desconfiança em vários países da América Latina. A proposta de construção de uma estrada que atravessaria as florestas da Guiana até o Amapá foi paralisada por causa da preocupação de que o Brasil pudesse sobrepujar seu pequeno vizinho com a imigração e o comércio. Na Argentina, as autoridades suspenderam um enorme projeto de uma mineradora brasileira, acusando-a de não contratar trabalhadores locais. A tensão com o Equador em relação a uma usina hidroelétrica levou a uma batalha jurídica. Protestos dos índios Ashaninka na Amazônia peruana ameaçam a concretização da construção de uma barragem hidrelétrica.

Empresas de outros países, especialmente da China, também expandem rapidamente seus negócios no continete - e tamém são hostilizadas. Porém, as companhias brasileiras, e o próprio governo do Brasil, são os principais alvos de protestos.

Centenas de milhares de imigrantes brasileiros, chamados de brasiguaios, estabeleceram-se no Paraguai, muitas vezes comprando terras para agricultura em larga escala. Eles foram reconhecidos por ajudar no crescimento econômico do país, mas também demonizados por controlar grandes lotes. O cenário levou ativistas paraguaios a queimar bandeiras brasileiras.

"Quando Kissinger veio ao Brasil, há mais de três décadas, alertou seus anfitriões de que eles poderiam acabar temidos por seus vizinhos, e não amados", diz Matias Spektor, professor da Fundação Getúlio Vargas, referindo-se ao antigo secretário de estado dos Estados Unidos, Henry A. Kissinger. "Hoje, o Brasil está mais presente na América Latina, mas não possui uma política clara a respeito de como lidar com a ansiedade que acompanha este processo", diz Spektor. "Há um perigo real de nos tornarmos alvo de ódio em determinados lugares."

Talvez nenhum outro projeto tenha causado tanta revolta quanto o da construção de uma estrada na Bolívia. Financiando pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o plano previa fazer uma rodovia que atravessasse um território indígena boliviano. A proposta causou descontentamento. Centenas de indígenas marcharam até La Paz por dois meses, por meio dos Andes, para reclamar do projeto.

"Llunk'u do Brasil", dizia um dos cartazes, chamando Evo Morales de subordinado do Brasil em quíchua, um idioma indígena. Morales, o primeiro presidente indígena da Bolívia e um ambientalista declarado, de repente se encontrou em desacordo com uma importante parcela de seu eleitorado, Depois de um desgastante processo, por fim, Morales cedeu às exigências dos manifestantes e cancelou o projeto da estrada.

Ao mesmo tempo em que marcha contra a estrada avançava, em agosto, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva viajou até a Bolívia para discursar a empresários e encontrar-se com Morales. A viagem, patrocinada pelas empreiteiras OAS e Queiroz Galvão, incluía no roteiro ainda Costa Rica e El Salvador - e nada foi feito para diminuir a tensão provocada pelo protesto de construção da estrada.

"Está claro que o Brasil só está interessado em nossos recursos", diz Marco Herminio Fabricano, artesão de 47 anos do grupo indígena Mojeno que participou da marcha para La Paz. "Evo acredita que pode nos trair para ajudar seus aliados brasileiros". As autoridades brasileiras insistem em afirmar que a estrada não tem nada a ver com traição ou apropriação de recursos. "Queremos que o Brasil esteja cercado por países prósperos e estáveis", disse Marcel Biato, embaixador do Brasil na Bolívia, a respeito do financiamento brasileiro de infraestrutura na Bolívia e em outros países da América do Sul.

Antes da eleição de Morales, em 2005, os Estados Unidos exerciam uma influência muito maior que qualquer outro país sobre a Bolívia. Desde então, Morales confrontou Washington diversas vezes, e se aproximou de outros países, especialmente Brasil, Venezuela, Cuba e Irã. Desde 2008, quando Morales expulsou o emissário dos Estados Unidos, Philip S. Goldberg, o país não tem sequer um embaixador na Bolívia.

O Brasil tem elaborado planos em conjunto com a Bolívia, incluindo projetos hidrelétricos e uma ambiciosa política antidrogas, que envolve o envio de veículos não tripulados através da fronteira e o treinamento e armamento das forças de segurança bolivianas. Os conflitos gerados pelo debate a respeito da estrada geraram desconfianças da população boliviana em relação ao Brasil. "Assim como a China está consolidando seu poder hegemônico na Ásia, o Brasil está tentando fazer o mesmo na América Latina", disse Raul Prada Alcoreza, que trabalhou como alto funcionário do governo boliviano e é hoje um forte crítico de Morales.

"Os movimentos sociais que tornaram este governo possível", disse Prada, "acabam sendo atropelados pelos interesses brasileiros".