Por Murillo Victorazzo
O sonho de menino de assistir a uma Copa em seu país terminou. Terminou porque se tornou realidade. Uma realidade que de tão boa e esperada parece ter durado somente um final de semana, não um mês. É sempre assim. Aquele gostinho de quero mais; a sensação de que poderia tê-la aproveitado com ainda mais intensidade permanecerá para o resto da vida, assim como as inúmeras imagens, histórias, polêmicas que a festa propiciou.
A festa começou com o receio de retumbante fracasso, para nós, anfitriões, fora dos gramados, e alta expectativa de sucesso dentro deles. Trinta dias depois, a constatação seria a oposta. Aeroportos, trânsito e estádios funcionaram normalmente. Erros pontuais aconteceram obviamente, assim como em todas as demais edições. O brasileiro deu show de alegria, receptividade e foi, em toda imprensa internacional e pelos turistas que vieram, eleito o grande vencedor.
Já a Seleção... Considerada uma das favoritas, fracassou para a História não apenas por não levar o sonhado Hexa. Felipão e seus jogadores estão para sempre marcados como protagonistas do maior vexame visto pelo mundo de uma equipe anfitriã. A maior derrota canarinho. Os humilhantes 7x1 para a Alemanha foram a intragável cereja do bolo mofado e mal preparado nos oferecido em todas as partidas anteriores.
Exceto o primeiro tempo contra a Colômbia, em momento algum se viu ali um time. Muito menos uma seleção pentacampeã mundial que jogava diante de seu povo. O gol contra de Marcelo logo no início do primeiro jogo parece ter sido o anúncio da tragédia.
Aquele que achar que pode explicar em apenas uma frase os motivos do papelão ou não sabe nada de futebol ou é um tremendo boquirroto. Ou os dois. Eles foram inúmeros, de diversos aspectos: técnico, tático e emocional. Todas entrelaçadas, causa e consequência uma das outras simultaneamente. A decisão do terceiro lugar, contra a Holanda foi emblemática. Mudaram os jogadores, continuaram os mesmo erros.
Ainda haverá quem ache que o jogo de terça foi um lapso, como Felipão e Parreira. Ou que foi "vendido", como alguns debiloides que difundem pela internet atualizações de teorias da conspiração passadas. A certeza é que, mesmo com a ressalva de que a atual safra de jogadores está inegavelmente abaixo das de outras épocas, talvez esta tenha sido a Seleção Brasileira mais mal treinada em Copa do Mundo que se tenha visto.
Em menos de um mês, Felipão e CBF conseguiram queimar 100 anos de prestígio da camisa mais vitoriosa, admirada e até então temida do futebol mundial. E pior: justamente em casa. Tão pavoroso quanto seu trabalho na competição, foi a cegueira, a incapacidade e o cinismo do treinador na tentativa de se defender e explicar o fracasso da seleção dona da casa. A coletiva após a derrota para os holandeses foi de causar náusea.
Afora nossa desgraça, a Copa foi um sucesso também dentro das quatro linhas. Alta média de gols, show de inúmeros goleiros, revelações como James Rodrigues, partidas bem jogadas, dramáticas, resultados inesperados, superações. Como não se emocionar com Argélia e Costa Rica, por exemplo?
Um jornalista estrangeiro disse que os jogadores, enfeitiçados pela alegria, gentileza e paixão pelo futebol bem jogado do brasileiro, só poderiam, em retribuição, nos proporcionar partidas assim. Se recordarmos que a Copa de 90, na Itália, país que preza a defesa em detrimento do ataque, foi a pior em qualidade e números de gol, não soa exagero a declaração. A cruel ironia é exatamente o nosso time ter destoado...
Nenhuma seleção mereceu mais este título do que a Alemanha. Por sua atitude dentro e fora de campo. Show de tática, talento e simpatia, respeitando os anfitriões, por parte do time e dos torcedores. Se pensado como marketing ou espontâneo, não importa. A vontade dos alemães de interagir com os brasileiros, conhecê-los e retribuir a afável hospedagem foi outra marca desta Copa.
O Itamaraty e a diplomacia alemã não fariam melhor trabalho de venda de imagem, de soft power, do que o feito por nós, brasileiros, nesta Copa fora de campo e o feito pela seleção campeã dentro e fora das quatro linhas. E de estreitamento na relação entre os dois. Admiração, empatia e respeito mútuos, querendo ou não, apesar de tudo, entre as duas camisas mais importantes do futebol. Não por coincidências as únicas a vencerem no continente da outra.
Outro legado intangível, provavelmente anotado pelo Itamaraty, foi a integração sul-americana. Brasileiros e vizinhos se relacionaram de modo nunca visto. Parecia que começavam a se conhecer depois de tantos anos, apesar de tão próximos. O termo "hermanos" finalmente fez sentido, exceto quando se tratava de alguns argentinos. Neste caso, quando o assunto é futebol, a tarefa de aproximação é hercúlea. Depois das músicas provocativas por parte deles e da torcida canarinho pelos alemães na final provavelmente, sem falar das brigas, é ainda mais.
Infelizmente, porém, alguns preferiram realçar a derrota no campo e esquecer o sucesso fora dele para destilar velhos estereótipos a cerca do brasileiro. Em sua coluna no Globo, Ancelmo Góis foi direto:
"Estava escrito nas estrelas que a fragorosa derrota para a Alemanha iria reacender o ânimo dos portadores do complexo de vira-latas, aqueles que acham o Brasil um país chinfrim e invejam os países dos outros, notadamente os EUA e Europa. Para eles, a vitória alemã é o triunfo da organização, da competência, da seriedade, da disciplina sobre a malandragem, preguiça e bagunça do outro. Se esse raciocínio fosse aceitável, Inglaterra e Espanha, para citar países que não passaram pela primeira fase, seriam indolentes. Ao contrário de Colômbia, Costa Rica e Argélia. A própria Alemanha contava 24 anos que não vencia uma Copa. É um jogo."
Como esses brasileiros, certos que a organização da Copa seria a concretização de seus complexos, viram-se sem discurso, apelaram para outra área cujo passado logo lhes desdiz. Cinco vezes vencemos com talento, planejamento e trabalho, em proporções diferentes, dependendo da época. Desta vez, nenhum destes fatores houve em qualidade suficiente para honrar a mais mística das seleções.
O futebol brasileiro precisa ser reformulado. O fracasso em 2006 e 2010 sinaliza para esta necessidade. Dormimos em berço esplêndido, lastreados pela supremacia de anos anteriores, reconhecida pelo mundo inteiro. Mas invocar, neste momento, estigmas preconceituosos contra o próprio país é problema de caráter. Ou profunda ignorância.
Em seu último comentário no SporTV, após a final, o ex-zagueiro da Seleção Ricardo Rocha não resistiu e chorou, orgulhoso pelo que fizemos como povo, organização, e revoltado com o papelão de nossos jogadores e comissão técnica. Aquele choro resumiu meu estado de espírito no fim da tão esperada e agora inesquecível festa.
Sempre me lembrarei do belga que, conversando comigo, na praia de Copacabana, interrompeu-me para dizer, não rindo como se fosse jogar palavras ao vento, mas sereno e em tom de reverência, com um olhar que passava sinceridade e respeito: "I love your country, my friend". Eu, com o coração explodindo de satisfação, só consegui responder: "Thank you. Me too".
Apesar do Felipão, de vários dos 23 jogadores e da CBF, tudo que vi e ouvi nestes últimos 30 dias me deixou ainda mais orgulhoso de ser brasileiro. Podem me chamar de piegas, mas eu sou assim. E isto não tem nada a ver com ufanismo. É apenas saber reconhecer nossos problemas, mas enaltecer nossas virtudes, nossos acertos. Quem procurar amar só a perfeição nunca amará, pois ela não existe...
Não, não é um protesto contra o fim da obrigatoriedade de diploma para exercer o jornalismo. Vejo, aliás, prós e contras na resolução do STF. A qualificação profissional se torna ainda mais necessária. Ser jornalista diplomado é orgulhosamente um diferencial. E o blog serve para exteriorizar algumas ideias, destacar notícias que me chamem a atenção e recordar matérias por mim assinadas (publicadas ou não).
quinta-feira, 17 de julho de 2014
terça-feira, 15 de julho de 2014
O conveniente anacronismo espanhol
Por Murillo Victorazzo
Fragilizado por problemas de diferentes ordens, o rei da Espanha, Juan Carlos de Borbón, abdicou, mês passado, em favor do filho, Felipe- ou Felipe VI, como passará a ser chamado. O novo monarca é reconhecido como preparado para suceder o pai. Mas, diante de tamanha adversidade política, econômica e social por que passa o país, muitos ressaltam que a transição pode vir a ser o vácuo desejado para os que desejam a república e os que sonham com a independência de suas regiões, como catalães e bascos. Teria sido aberta a "Caixa de Pandora" da realeza espanhola?
Ano após ano, as monarquias vêm sofrendo desgastes, com suas legitimidades colocadas em dúvida por parcelas cada vez mais significativas das sociedades em que vigoram. Um movimento mais do que compreensível, haja vista ser difícil explicar para as novas gerações as vantagens de ser súdito de alguém, e não quem delega poderes a um representante com mandatos limitados.
Não parece fácil convencer, principalmente os mais jovens, ser justo reverenciar, sem ferramentas de cobrança alguma, alguém que, além de tudo, não alcançou a chefia de Estado por seus atributos pessoais, muito menos pela vontade da maioria da população. Está lá apenas por pertencer a uma família que há séculos - quando a noção de representatividade era outra e a distinção entre Estado e governante, pouco clara - foi ungida como acima das outras.
As poucas democráticas imagem e posição ( para os padrões contemporâneos) das famílias reais são ainda resquícios do Direito Divino absolutista, pelo qual o monarca governava pela vontade de Deus. Ele era o "escolhido" e, portanto, seu descendente também o seria após sua morte. Somente a Ele o rei deveria prestar contas até o final de seus dias.
Os reis perderem poderes, as monarquias, pelo menos nas nações desenvolvidas, tornaram-se constitucional - ou seja, com Parlamentos, primeiros-ministros e freios e contrapesos entre os Poderes. Mas a noção de "excepcionalidade" que os envolve permaneceu de certa forma no senso popular e na estrutura estatal dos países em questão.
A mesma imagem, em consequência, traz consigo outra: por estar acima de todos, ser um símbolo permanente do Estado, imune e à parte de disputas partidárias, o rei tem legitimidade (e até o dever) para se portar como neutro nas mediações de crises. Pela mesma lógica, é visto também como garantia da unidade nacional.
Assim, em um país como a Espanha, de histórico imperial mas pouca coesão interna, traço expresso no separatismo latente de algumas de suas regiões, ninguém melhor do que um rei para manter o status quo do centralizador regime de Francisco Franco após sua morte. Assim pensou o próprio ditador e seus aliados na hora de, já beirando os 80 anos, ter que ser escolhido seu sucessor.
Com o falecimento do "el generalísimo", como era conhecido o líder do cruel regime que oprimiu o país por 39 anos, Juan Carlos de Borbón - neto de Afonso XIII, rei deposto com a instauração da Segunda República, em 1931 - assumia, em 1975, o trono. Estava reinstaurada a monarquia na Espanha. Era a garantia de manutenção dos pilares do ultraconservador e católico franquismo.
Mas, dono da Coroa, Juan Carlos não seguiu à risca o imaginado por Franco. Ao convocar eleições diretas para a elaboração de uma nova Constituição, renunciava através dela a muito de seus poderes. A nova Carta reservava à Coroa apenas a Chefia de Estado - seu papel seria o de representação perante o exterior, chefe supremo das Forças Armadas e, principalmente, fiador da estabilidade institucional do país.
A Espanha, a partir de então, tinha um Parlamento independente e forte e, na Chefia de Governo, um presidente de gobierno (nome lá dado para o que outros países parlamentaristas chamam de primeiro-ministro), designado pela maioria parlamentar oriunda da vontade popular.
Seu pulso na tentativa de golpe em 1981, quando militares franquistas insatisfeitos invadem armados o Parlamento, carimbou ainda mais em sua imagem o perfil de democrata e estabilizador do país. Relegava-se ao esquecimento seu apoio passado à ditadura franquista.
Embora essencialmente conservador, de modo a evitar rupturas especialmente à esquerda, o processo por ele conduzido levou a Espanha a ser uma das mais modernas, ricas e sólidas democracias do mundo. Um prestígio que foi se perdendo nos últimos anos por diversos motivos simultâneos.
Por não ser o chefe de governo, responsável pela gestão da política econômica, Juan Carlos poderia passar quase incólume pela severa crise econômica que atinge o país nos últimos anos, se não tivesse ela se tornado, mais do que tudo, o estopim para o estouro da latente insatisfação popular com todo o sistema político vigente. Incluí-se aí toda a classe política, vista como corrupta,e o arcabouço da União Europeia, do qual o rei fora um dos maiores entusiastas.
O movimento dos "Indignados", formado basicamente por jovens, e a expressiva votação de siglas eurocéticas nas eleições para o Parlamento europeu mês passado refletiram a profunda contrariedade dominante, em maior ou menor grau, em toda sociedade espanhola. As urnas debilitarem os dois principais partidos, PP e PSOE, jogando no córner o tradicional bipartidarismo do país. Um significativo "não" ao status quo tão bem moderado e defendido pelo monarca.
Neste cenário, com o país sob severo arrocho fiscal, alta taxa de desemprego e recessão, os gastos reais tornavam-se abusivos para boa parte da população. Indignação realçada com a luxuosa viagem do rei à África, em 2012, a fim de participar do supérfluo hobby de caçar elefantes.
Quase ao mesmo tempo, estourava o escândalo de corrupção envolvendo Iñakli Urdangarin, marido de sua filha, a infanta Cristina. Suspeitas de desvio de dinheiro público para a fundação presidida por Urdangarin levaram o genro real aos tribunais. Extratos bancários mostraram que parte do capital da instituição sem fins lucrativos fora utilizado para pagar as volumosas despesas pessoais do casal, como, por exemplo, sapatos de 900 euros.
Indiciada também no por fraude fiscal e lavagem de dinheiro, Cristina entrou para a História espanhola como a primeira descendente de um rei a depor na presença de um juiz. No dia de seus depoimento, centenas de manifestantes antimonarquia se puseram à frente do tribunal. Um deles dava o tom dos descontentes: “A nossa monarquia é uma instituição arcaica, medieval e está totalmente protegida por uma máfia. É a pedra angular da corrupção que há neste país”.
Não por acaso, assim que se soube da abdicação, milhares de espanhóis de diferentes cidades foram às ruas para festejar e pedir um referendo sobre o fim da monarquia. Na Cataluña, onde a crise já servira para estimular a convocação de uma consulta popular sobre independência por parte do governo regional, posteriormente barrada por Madrid, a mobilização foi ainda maior.
Pesquisa divulgada no jornal El País, de Madrid, mostrou que o referendo conta com o apoio da maioria da população, 62%. Porém, caso convocado, apenas 36% votariam pela república, contra 49% simpáticos à manutenção da atual forma de governo. Revelou ainda que a popularidade de Juan Carlos,depois de meses de queda, voltou a subir. Um certo paradoxo sintomático.
São números que, pelo menos inicialmente, sinalizam para o acerto da decisão do "rei da transição democrática". Por mais anacrônica que seja, por mais fragilizada que esteja, talvez a monarquia ainda seja a mais segura - quem sabe a única - forma de manter a estabilidade do país.
Uma republica acirraria disputas partidárias e regionais em uma nação que enfrenta tantos obstáculos políticos e socioeconômicos. O vácuo de poder sempre é perigosamente incerto. Um rei jovem oxigenaria o regime e, como no passado, seria a viga da unidade nacional. Juan Carlos pode ter acertado de novo, ao apostar no receio popular de rupturas imediatas. O tempo dirá.
Fragilizado por problemas de diferentes ordens, o rei da Espanha, Juan Carlos de Borbón, abdicou, mês passado, em favor do filho, Felipe- ou Felipe VI, como passará a ser chamado. O novo monarca é reconhecido como preparado para suceder o pai. Mas, diante de tamanha adversidade política, econômica e social por que passa o país, muitos ressaltam que a transição pode vir a ser o vácuo desejado para os que desejam a república e os que sonham com a independência de suas regiões, como catalães e bascos. Teria sido aberta a "Caixa de Pandora" da realeza espanhola?
Ano após ano, as monarquias vêm sofrendo desgastes, com suas legitimidades colocadas em dúvida por parcelas cada vez mais significativas das sociedades em que vigoram. Um movimento mais do que compreensível, haja vista ser difícil explicar para as novas gerações as vantagens de ser súdito de alguém, e não quem delega poderes a um representante com mandatos limitados.
Não parece fácil convencer, principalmente os mais jovens, ser justo reverenciar, sem ferramentas de cobrança alguma, alguém que, além de tudo, não alcançou a chefia de Estado por seus atributos pessoais, muito menos pela vontade da maioria da população. Está lá apenas por pertencer a uma família que há séculos - quando a noção de representatividade era outra e a distinção entre Estado e governante, pouco clara - foi ungida como acima das outras.
As poucas democráticas imagem e posição ( para os padrões contemporâneos) das famílias reais são ainda resquícios do Direito Divino absolutista, pelo qual o monarca governava pela vontade de Deus. Ele era o "escolhido" e, portanto, seu descendente também o seria após sua morte. Somente a Ele o rei deveria prestar contas até o final de seus dias.
Os reis perderem poderes, as monarquias, pelo menos nas nações desenvolvidas, tornaram-se constitucional - ou seja, com Parlamentos, primeiros-ministros e freios e contrapesos entre os Poderes. Mas a noção de "excepcionalidade" que os envolve permaneceu de certa forma no senso popular e na estrutura estatal dos países em questão.
A mesma imagem, em consequência, traz consigo outra: por estar acima de todos, ser um símbolo permanente do Estado, imune e à parte de disputas partidárias, o rei tem legitimidade (e até o dever) para se portar como neutro nas mediações de crises. Pela mesma lógica, é visto também como garantia da unidade nacional.
Assim, em um país como a Espanha, de histórico imperial mas pouca coesão interna, traço expresso no separatismo latente de algumas de suas regiões, ninguém melhor do que um rei para manter o status quo do centralizador regime de Francisco Franco após sua morte. Assim pensou o próprio ditador e seus aliados na hora de, já beirando os 80 anos, ter que ser escolhido seu sucessor.
Com o falecimento do "el generalísimo", como era conhecido o líder do cruel regime que oprimiu o país por 39 anos, Juan Carlos de Borbón - neto de Afonso XIII, rei deposto com a instauração da Segunda República, em 1931 - assumia, em 1975, o trono. Estava reinstaurada a monarquia na Espanha. Era a garantia de manutenção dos pilares do ultraconservador e católico franquismo.
Mas, dono da Coroa, Juan Carlos não seguiu à risca o imaginado por Franco. Ao convocar eleições diretas para a elaboração de uma nova Constituição, renunciava através dela a muito de seus poderes. A nova Carta reservava à Coroa apenas a Chefia de Estado - seu papel seria o de representação perante o exterior, chefe supremo das Forças Armadas e, principalmente, fiador da estabilidade institucional do país.
A Espanha, a partir de então, tinha um Parlamento independente e forte e, na Chefia de Governo, um presidente de gobierno (nome lá dado para o que outros países parlamentaristas chamam de primeiro-ministro), designado pela maioria parlamentar oriunda da vontade popular.
Seu pulso na tentativa de golpe em 1981, quando militares franquistas insatisfeitos invadem armados o Parlamento, carimbou ainda mais em sua imagem o perfil de democrata e estabilizador do país. Relegava-se ao esquecimento seu apoio passado à ditadura franquista.
Embora essencialmente conservador, de modo a evitar rupturas especialmente à esquerda, o processo por ele conduzido levou a Espanha a ser uma das mais modernas, ricas e sólidas democracias do mundo. Um prestígio que foi se perdendo nos últimos anos por diversos motivos simultâneos.
Por não ser o chefe de governo, responsável pela gestão da política econômica, Juan Carlos poderia passar quase incólume pela severa crise econômica que atinge o país nos últimos anos, se não tivesse ela se tornado, mais do que tudo, o estopim para o estouro da latente insatisfação popular com todo o sistema político vigente. Incluí-se aí toda a classe política, vista como corrupta,e o arcabouço da União Europeia, do qual o rei fora um dos maiores entusiastas.
O movimento dos "Indignados", formado basicamente por jovens, e a expressiva votação de siglas eurocéticas nas eleições para o Parlamento europeu mês passado refletiram a profunda contrariedade dominante, em maior ou menor grau, em toda sociedade espanhola. As urnas debilitarem os dois principais partidos, PP e PSOE, jogando no córner o tradicional bipartidarismo do país. Um significativo "não" ao status quo tão bem moderado e defendido pelo monarca.
Neste cenário, com o país sob severo arrocho fiscal, alta taxa de desemprego e recessão, os gastos reais tornavam-se abusivos para boa parte da população. Indignação realçada com a luxuosa viagem do rei à África, em 2012, a fim de participar do supérfluo hobby de caçar elefantes.
Quase ao mesmo tempo, estourava o escândalo de corrupção envolvendo Iñakli Urdangarin, marido de sua filha, a infanta Cristina. Suspeitas de desvio de dinheiro público para a fundação presidida por Urdangarin levaram o genro real aos tribunais. Extratos bancários mostraram que parte do capital da instituição sem fins lucrativos fora utilizado para pagar as volumosas despesas pessoais do casal, como, por exemplo, sapatos de 900 euros.
Indiciada também no por fraude fiscal e lavagem de dinheiro, Cristina entrou para a História espanhola como a primeira descendente de um rei a depor na presença de um juiz. No dia de seus depoimento, centenas de manifestantes antimonarquia se puseram à frente do tribunal. Um deles dava o tom dos descontentes: “A nossa monarquia é uma instituição arcaica, medieval e está totalmente protegida por uma máfia. É a pedra angular da corrupção que há neste país”.
Não por acaso, assim que se soube da abdicação, milhares de espanhóis de diferentes cidades foram às ruas para festejar e pedir um referendo sobre o fim da monarquia. Na Cataluña, onde a crise já servira para estimular a convocação de uma consulta popular sobre independência por parte do governo regional, posteriormente barrada por Madrid, a mobilização foi ainda maior.
Pesquisa divulgada no jornal El País, de Madrid, mostrou que o referendo conta com o apoio da maioria da população, 62%. Porém, caso convocado, apenas 36% votariam pela república, contra 49% simpáticos à manutenção da atual forma de governo. Revelou ainda que a popularidade de Juan Carlos,depois de meses de queda, voltou a subir. Um certo paradoxo sintomático.
São números que, pelo menos inicialmente, sinalizam para o acerto da decisão do "rei da transição democrática". Por mais anacrônica que seja, por mais fragilizada que esteja, talvez a monarquia ainda seja a mais segura - quem sabe a única - forma de manter a estabilidade do país.
Uma republica acirraria disputas partidárias e regionais em uma nação que enfrenta tantos obstáculos políticos e socioeconômicos. O vácuo de poder sempre é perigosamente incerto. Um rei jovem oxigenaria o regime e, como no passado, seria a viga da unidade nacional. Juan Carlos pode ter acertado de novo, ao apostar no receio popular de rupturas imediatas. O tempo dirá.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Rumo ao Hexa, Brasil!
Por Murillo Victorazzo
Frases assim podem soar como clichês, mas, gostem ou não os falsos intelectuais, os radicalóides, os demagogos, os mal intencionados e os que, para o azar deles, odeiam ser o que são - brasileiros -, são a pura verdade. E nelas não há lado negativo algum. O discurso preconceituoso sobre "o ópio do povo", se algum dia fez sentido, hoje passa longe da realidade.
"Nós ´vivemos` o futebol; os outros apenas o jogam". "Descobri o cretino fundamental no futebol. Ele é aquele que não tem orgulho do seu país ter ganho tantas honrarias no futebol. Tem brasileiro apenas escrito em seu passaporte. Em todo lugar tem esse tipo de pessoa". Ninguém melhor que Nélson Rodrigues soube expressar a ligação do brasileiro com nosso esporte mais popular e ridicularizar os que, remando contra a maré, achavam ser mais "antenado".
Ele sabia que se orgulhar da seleção não é achar que futebol é a coisa mais importante do mundo, muito menos ignorar as mazelas sociais e políticas do país. Pobre daqueles que veem o mundo como um jogo de soma zero: aqueles que precisam desprezar e condenar o secundário para se achar mais cidadão nas preocupações com o fundamental; que acham que festejar o banal é ignorar o essencial. Tudo tem seu tempo.
"Nós ´vivemos` o futebol; os outros apenas o jogam". "Descobri o cretino fundamental no futebol. Ele é aquele que não tem orgulho do seu país ter ganho tantas honrarias no futebol. Tem brasileiro apenas escrito em seu passaporte. Em todo lugar tem esse tipo de pessoa". Ninguém melhor que Nélson Rodrigues soube expressar a ligação do brasileiro com nosso esporte mais popular e ridicularizar os que, remando contra a maré, achavam ser mais "antenado".
Ele sabia que se orgulhar da seleção não é achar que futebol é a coisa mais importante do mundo, muito menos ignorar as mazelas sociais e políticas do país. Pobre daqueles que veem o mundo como um jogo de soma zero: aqueles que precisam desprezar e condenar o secundário para se achar mais cidadão nas preocupações com o fundamental; que acham que festejar o banal é ignorar o essencial. Tudo tem seu tempo.
Podem me chamar de tudo, menos de "alienado", e justamente por isto garanto: futebol e política - DUAS DAS MINHAS GRANDES PAIXÕES - não se misturam. Os que tentaram misturar, pelo menos nos regimes democráticos, sempre fracassaram.
Indignações quanto a promessas não cumpridas, corrupção e obras atrasadas a gente deposita na urna. Protestos, todos temos o direito de fazer; nunca os pautarei. Mas boicotar ou impedir outros de participar de uma festa, de um megaevento esportivo de tamanha repercussão internacional, é bem diferente.
Pelas ruas já cheias de turistas e bandeiras do Brasil em número cada vez maior nas janelas e nos carros, arrisco dizer: turma do "não vai ter Copa", vocês perderam. Camisa e bandeira já a postos. Ansiedade e emoção aumentando. Rumo ao Hexa, Brasil!!!! Paulistada, a abertura é com vocês. Na final, deixa conosco. O Maraca garante!
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segunda-feira, 2 de junho de 2014
"Brasil e EUA vivem hoje uma relação de paranoia mútua", afirma publisher da "Foreign Policy"
Por Raul Juste Lores (UOL, 02/06/2014)
Brasil e EUA precisam resolver suas "paranoias" recíprocas se quiserem ter uma parceria mais produtiva. "Hoje, quando os dois presidentes se encontram, só falam de ninharias", diz o publisher da revista "Foreign Policy", influente publicação americana sobre assuntos internacionais, David Rothkopf, 58.
Crítico duro do governo Barack Obama, apesar de ser democrata, Rothkopf acha que Brasil e EUA têm visões "caricaturais" um do outro e que a memória da Guerra Fria tem peso excessivo. "Se a China desacelerar, se houver uma seca de capitais rumo aos emergentes, o que [a presidente Dilma Rousseff] vai fazer?", pergunta. Seu próximo livro, a ser lançado em outubro, será sobre a política externa de Bush e Obama "na era do medo". Ele recebeu a Folha em seu escritório em Washington.
Brasil e EUA precisam resolver suas "paranoias" recíprocas se quiserem ter uma parceria mais produtiva. "Hoje, quando os dois presidentes se encontram, só falam de ninharias", diz o publisher da revista "Foreign Policy", influente publicação americana sobre assuntos internacionais, David Rothkopf, 58.
Crítico duro do governo Barack Obama, apesar de ser democrata, Rothkopf acha que Brasil e EUA têm visões "caricaturais" um do outro e que a memória da Guerra Fria tem peso excessivo. "Se a China desacelerar, se houver uma seca de capitais rumo aos emergentes, o que [a presidente Dilma Rousseff] vai fazer?", pergunta. Seu próximo livro, a ser lançado em outubro, será sobre a política externa de Bush e Obama "na era do medo". Ele recebeu a Folha em seu escritório em Washington.
Folha - O Brasil pode ficar isolado se os dois blocos comerciais estimulados pelos EUA, com a Europa e com os países do Pacífico, saírem do papel?
David Rothkopf - Não parece que ninguém do governo brasileiro esteja preocupado com isso, senão fariam algo. Dilma vai enfrentar muitos problemas domésticos em relação à economia. Se a China desacelerar, se os estímulos à economia americana forem reduzidos, se houver seca de capitais rumo aos emergentes, o que ela vai fazer? Ela não mostrou apetite pela arena global. O Brasil tem seguido a política de fazer seus próprios negócios, desde que não sejam negócios com os Estados Unidos.
Folha - Por quê?
Rothkopf - Todo país é colorido por sua história e tem suas paranoias. O Brasil é paranoico em ser dominado pelos EUA. Tem uma reação negativa anormal a qualquer projeto de cooperação com os EUA. Como meu irmão é casado com brasileira, minha mulher já trabalhou lá e tenho muitos amigos brasileiros, acho que posso ser franco. Já os EUA são paranoicos com a ascensão brasileira e regularmente suas políticas na região querem deixar o Brasil de fora.
Folha -Depois da crise causada pela espionagem da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA), o sr. vê a possibilidade de reconstruir a confiança?
Rothkopf - Se hoje os dois líderes se encontram, vão falar sobre o quê? Só de ninharia. Não conseguimos falar nem de liberar os vistos reciprocamente, nem de facilitar alfândega. O melhor momento recente foi a relação entre [George W.] Bush e Lula. Veja só. Lula fez algo admirável, construindo em cima das fundações deixadas por Fernando Henrique Cardoso, que estabilizou a economia. Transformou o Brasil em um ator global. Se eu fosse os EUA, cansado de guerras e querendo ter novos aliados no mundo, priorizaria essa gigante democracia no nosso hemisfério, com quem compartilhamos a diversidade cultural. Mas Dilma não é Lula.
Folha - É comum detectar antiamericanismo de um lado e um antiesquerdismo do outro. Vai demorar essa aproximação?
Rothkopf - A memória da Guerra Fria tem um papel grande demais nos dois lados. Temos um problema aqui nos EUA: muitos dos nossos latino-americanistas foram educados na Guerra Fria e têm uma atitude automática contra a esquerda. Tratam igual, seja Cristina [Kirchner], [Evo] Morales, [Rafael] Correa, seja quem estiver à frente da Venezuela. Onde estão hoje os líderes inovadores da América Latina? Na esquerda. Lula foi talvez o mais importante lider latino-americano dos últimos cem anos, e a reação inicial a ele foi negativa. Hoje, há um líder mais inovador do que [José] Mujica?
Folha - Do lado americano, é comum a reclamação de que o Brasil não se comporta como aliado, abstendo-se na crise da Ucrânia ou da Síria. O acordo com o Irã é lembrado até hoje.
Rothkopf - O Irã foi "nonsense" (absurdo), mas Brasil e Turquia estavam por trás do acordo, e fizemos as pazes com a Turquia rapidinho por termos interesse. E olha que [Recep Tayyip] Erdogan não era tão legal quanto pensávamos. Mas, se Dilma for reeleita, ela tem de pensar em como será a relação com Hillary Clinton ou com Jeb Bush, os favoritos para a sucessão de Obama. Há oportunidades para cooperação em ciência, energia, mudança climática.
Folha - Mas não parece que a América Latina esteja entre as prioridades do governo Obama.
Rothkopf - Há 20 crises simultâneas, então só o que é problema vira prioridade. É a política velha, por inércia.
Folha - O mundo parece dar um suspiro de alívio quando um presidente americano, como Obama, diz preferir a diplomacia ao uso da força. Por que o sr. acha que não devemos comemorar?
Rothkopf - Podemos celebrar o fim do uso exagerado da força dos anos Bush, mas Obama faz um governo minimalista. A menor ação possível, criando a ilusão de fazer muita coisa. Precisamos de uma combinação de diplomacia, pressão política e econômica, cooperação militar, ação legal, ação multilateral.
Folha - Obama não está de mãos atadas por uma opinião pública que não quer saber de guerra nem de intervenções no exterior e por um Congresso onde ele não tem maioria?
Rothkopf - Não precisava ser binário –ou usamos força ou não fazemos nada. O povo americano não quer mais guerra, mas quer que o país lidere, que o mundo não se torne mais perigoso, que não sejamos cúmplices por inação pelo massacre na Síria. Ou pelo crescimento do terrorismo, ou por encorajar [Vladimir] Putin, ou por a China invadir vizinhos ou ilhas. Falta liderança, energizar a opinião pública, identificar objetivos, convencer aliados. Obama é cauteloso demais e sem experiência de política externa. Sua equipe se tornou ainda mais fraca, com menos poder, no segundo mandato que no primeiro. Centraliza tudo na Casa Branca.
Folha - Quando os EUA falam em contenção de China ou Rússia, não acaba provocando reação de ambos, por se sentirem "cercados" pelos EUA?
Rothkopf -A "contenção" é maior que os EUA admitem, mas menor do que os chineses reclamam. Os vizinhos da China não têm uma relação tão boa e não a querem como chefe por lá. É uma questão de avançar nossos interesses, de proteger nossos aliados. A China tem uma estratégia, dá a volta ao mundo com o talão de cheques na mão, cria interdependência. Nós não temos estratégia.
Folha - Os EUA perderam a moral para denunciar a pirataria cibernética chinesa?
Rothkopf - Ambos espionam e admitem. Os EUA dizem "vocês roubam segredos industriais para dar às suas empresas, nós cuidamos da segurança nacional", mas a China retruca que os EUA querem benefícios comerciais e que espionaram a [empresa] Huawei. Na Guerra Fria, o preço do conflito ficou tão alto com a possibilidade de guerra nuclear que não lutamos porque seria a destruição. Já os ataques cibernéticos, assim como os drones, sem humanos, são baratos demais. O perigo é não pararem nunca. Em que ponto veremos que fomos longe demais?
Folha - A crise da NSA também demonstrou como os governos ainda conhecem pouco a segurança digital?
Rothkopf - Não há tanta gente no governo, especialmente em altos cargos, que entenda o mundo cyber. Sete bilhões de pessoas terão celular, e o fluxo de dados já é mais importante que o de capital. Privacidade é uma nova prioridade, e não temos uma doutrina cibernética, nem debate, nem normas globais.
David Rothkopf - Não parece que ninguém do governo brasileiro esteja preocupado com isso, senão fariam algo. Dilma vai enfrentar muitos problemas domésticos em relação à economia. Se a China desacelerar, se os estímulos à economia americana forem reduzidos, se houver seca de capitais rumo aos emergentes, o que ela vai fazer? Ela não mostrou apetite pela arena global. O Brasil tem seguido a política de fazer seus próprios negócios, desde que não sejam negócios com os Estados Unidos.
Folha - Por quê?
Rothkopf - Todo país é colorido por sua história e tem suas paranoias. O Brasil é paranoico em ser dominado pelos EUA. Tem uma reação negativa anormal a qualquer projeto de cooperação com os EUA. Como meu irmão é casado com brasileira, minha mulher já trabalhou lá e tenho muitos amigos brasileiros, acho que posso ser franco. Já os EUA são paranoicos com a ascensão brasileira e regularmente suas políticas na região querem deixar o Brasil de fora.
Folha -Depois da crise causada pela espionagem da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA), o sr. vê a possibilidade de reconstruir a confiança?
Rothkopf - Se hoje os dois líderes se encontram, vão falar sobre o quê? Só de ninharia. Não conseguimos falar nem de liberar os vistos reciprocamente, nem de facilitar alfândega. O melhor momento recente foi a relação entre [George W.] Bush e Lula. Veja só. Lula fez algo admirável, construindo em cima das fundações deixadas por Fernando Henrique Cardoso, que estabilizou a economia. Transformou o Brasil em um ator global. Se eu fosse os EUA, cansado de guerras e querendo ter novos aliados no mundo, priorizaria essa gigante democracia no nosso hemisfério, com quem compartilhamos a diversidade cultural. Mas Dilma não é Lula.
Folha - É comum detectar antiamericanismo de um lado e um antiesquerdismo do outro. Vai demorar essa aproximação?
Rothkopf - A memória da Guerra Fria tem um papel grande demais nos dois lados. Temos um problema aqui nos EUA: muitos dos nossos latino-americanistas foram educados na Guerra Fria e têm uma atitude automática contra a esquerda. Tratam igual, seja Cristina [Kirchner], [Evo] Morales, [Rafael] Correa, seja quem estiver à frente da Venezuela. Onde estão hoje os líderes inovadores da América Latina? Na esquerda. Lula foi talvez o mais importante lider latino-americano dos últimos cem anos, e a reação inicial a ele foi negativa. Hoje, há um líder mais inovador do que [José] Mujica?
Folha - Do lado americano, é comum a reclamação de que o Brasil não se comporta como aliado, abstendo-se na crise da Ucrânia ou da Síria. O acordo com o Irã é lembrado até hoje.
Rothkopf - O Irã foi "nonsense" (absurdo), mas Brasil e Turquia estavam por trás do acordo, e fizemos as pazes com a Turquia rapidinho por termos interesse. E olha que [Recep Tayyip] Erdogan não era tão legal quanto pensávamos. Mas, se Dilma for reeleita, ela tem de pensar em como será a relação com Hillary Clinton ou com Jeb Bush, os favoritos para a sucessão de Obama. Há oportunidades para cooperação em ciência, energia, mudança climática.
Folha - Mas não parece que a América Latina esteja entre as prioridades do governo Obama.
Rothkopf - Há 20 crises simultâneas, então só o que é problema vira prioridade. É a política velha, por inércia.
Folha - O mundo parece dar um suspiro de alívio quando um presidente americano, como Obama, diz preferir a diplomacia ao uso da força. Por que o sr. acha que não devemos comemorar?
Rothkopf - Podemos celebrar o fim do uso exagerado da força dos anos Bush, mas Obama faz um governo minimalista. A menor ação possível, criando a ilusão de fazer muita coisa. Precisamos de uma combinação de diplomacia, pressão política e econômica, cooperação militar, ação legal, ação multilateral.
Folha - Obama não está de mãos atadas por uma opinião pública que não quer saber de guerra nem de intervenções no exterior e por um Congresso onde ele não tem maioria?
Rothkopf - Não precisava ser binário –ou usamos força ou não fazemos nada. O povo americano não quer mais guerra, mas quer que o país lidere, que o mundo não se torne mais perigoso, que não sejamos cúmplices por inação pelo massacre na Síria. Ou pelo crescimento do terrorismo, ou por encorajar [Vladimir] Putin, ou por a China invadir vizinhos ou ilhas. Falta liderança, energizar a opinião pública, identificar objetivos, convencer aliados. Obama é cauteloso demais e sem experiência de política externa. Sua equipe se tornou ainda mais fraca, com menos poder, no segundo mandato que no primeiro. Centraliza tudo na Casa Branca.
Folha - Quando os EUA falam em contenção de China ou Rússia, não acaba provocando reação de ambos, por se sentirem "cercados" pelos EUA?
Rothkopf -A "contenção" é maior que os EUA admitem, mas menor do que os chineses reclamam. Os vizinhos da China não têm uma relação tão boa e não a querem como chefe por lá. É uma questão de avançar nossos interesses, de proteger nossos aliados. A China tem uma estratégia, dá a volta ao mundo com o talão de cheques na mão, cria interdependência. Nós não temos estratégia.
Folha - Os EUA perderam a moral para denunciar a pirataria cibernética chinesa?
Rothkopf - Ambos espionam e admitem. Os EUA dizem "vocês roubam segredos industriais para dar às suas empresas, nós cuidamos da segurança nacional", mas a China retruca que os EUA querem benefícios comerciais e que espionaram a [empresa] Huawei. Na Guerra Fria, o preço do conflito ficou tão alto com a possibilidade de guerra nuclear que não lutamos porque seria a destruição. Já os ataques cibernéticos, assim como os drones, sem humanos, são baratos demais. O perigo é não pararem nunca. Em que ponto veremos que fomos longe demais?
Folha - A crise da NSA também demonstrou como os governos ainda conhecem pouco a segurança digital?
Rothkopf - Não há tanta gente no governo, especialmente em altos cargos, que entenda o mundo cyber. Sete bilhões de pessoas terão celular, e o fluxo de dados já é mais importante que o de capital. Privacidade é uma nova prioridade, e não temos uma doutrina cibernética, nem debate, nem normas globais.
domingo, 18 de maio de 2014
A cultura estratégica russa e a anexação da Crimeia: O Império contra-ataca?
Por Marcos Degaut* (Mundorama.net, 10/05/2014)
Cultura estratégica não é, no entanto, apenas um produto da cultura militar, e esta não é a única área onde sua influência é sentida. Ela também influencia as tradições e práticas políticas e de política externa do país, razão pela qual a segunda abordagem ampliou o conceito e incluiu variáveis como as econômicas e diplomáticas nos caminhos para atingir os objetivos dos Estados.
São, portanto, fatores determinantes na formação da cultura estratégica de um país não apenas a maneira como o poder político é adquirido e utilizado mas também como ele vê e aborda o mundo exterior. Por sua vez, metas de política externa, que refletem identidades e interesses, são definidas por justamente por ela.
Nesta linha de pensamento, o Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) define cultura estratégica como "a combinação de influências internas e externas com experiências – geográficas, históricas, culturais, econômicas, políticas e militares – que molda a maneira de um país entender sua relação com o resto do mundo e como um Estado se comportará na comunidade internacional".
Deste modo, a perspectiva de um país a cerca de seu papel no sistema international e sua percepção de segurança também são parte de sua cultura estratégica. Assim, para fins operacionais, a cultura estratégica pode aqui ser compreendida como uma profunda predisposição cultural a um particular comportamento ou pensamento estratégico.
Este pressuposto implica que as elites políticas russas tendem a ver elementos da democracia como meros instrumentos políticos a serem usados para manipular e controlar pessoas e governos mais fracos, a fim de perseguir e alcançar os interesses do país e em benefício da autoridade central.
Isso ajuda a explicar a opção preferencial por acordos bilaterais no desenvolvimento de sua estratégia multipolar no nível das grandes potências. Através deles, a Rússia forma uma variedade de coligações, em detrimento do sistema de instituições internacionais.
Esta perspectiva também explica a crescente pressão sobre Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Moldávia, Geórgia, Cazaquistão, e também a Ucrânia, para juntarem-se à União da Eurásia, bloco comercial desenhado por Moscou com o intuito de vincular a Rússia aos seus vizinhos mais próximos, contrabalançando a influência econômica da União Europeia na região.
Superado o período caótico que se seguiu ao colapso da União Soviética, as lideranças russas manifestam sistematicamente o desejo de devolver à nação o status de grande potência, importante fator de condução na política externa russa.. Sob este prisma, elas têm agido. O país não só quer aumentar e projetar sua influência e poder em sua região como pretende ser um ator mais significativo na arena internacional. Um impulso improvável de ser arrefecido.
As lideranças parecem ver o mundo basicamente pela ótica realista, na qual a busca pelo equilíbrio de poder é permanente. Para eles, a missão da Rússia é promover o surgimento de um mundo multipolar, a fim de conter e contrabalançar a magnitude do poder americano.
Os principais elementos da cultura estratégica russa – combatividade, competitividade, assertividade política e uma posição firme contra o que é percebido como a maior ameaça à sua segurança e ambições, os Estados Unidos – estão presentes na renovada aspiração ao status de grande potência.
Ao mesmo tempo, devido à sua cultura estratégica, a Rússia se manterá reagindo ao que é percebido como ameaça a sua integridade territorial, influência e valores. Continuará sendo particularmente sensível às tentativas de EUA e União Europeia de não apenas incluírem em uma comunidade de segurança coletiva países que já foram parte de sua esfera de influência, mas também de promover a economia de mercado e a democracia liberal nestas áreas.
Putin deixou claro que está pronto para gastar seu capital político e significativos recursos militares e econômicos na defesa do direito de proteger o que vê como "espaço vital" e interesses da Rússia. E desde a anexação da Península da Criméia, agora um fato consumado, quando não enfrentou nenhuma oposição internacional séria, apenas leves protestos diplomáticos, uma análise da cultura estratégica do país indica que outras aventuras semelhantes podem estar por vir.
A anexação da Crimeia pela Rússia, em março de 2014, e a disposição do presidente russo, Vladimir Putin, em fazer uma incursão militar na Ucrânia, para garantir a incorporação da região ao país parecem ter pego de surpresa muitos analistas políticos e formuladores de políticas.
Mais uma vez, em meio a especulações sobre as verdadeiras intenções do país, tem crescido o medo de que posições agressivas na política externa de uma Rússia imperialista se deva à ideia de reconstrução de um império. O objetivo seria conseguir assim algum tipo de superioridade estratégica sobre o Ocidente ou adquirir maior influência política na arena internacional.
Mais uma vez, em meio a especulações sobre as verdadeiras intenções do país, tem crescido o medo de que posições agressivas na política externa de uma Rússia imperialista se deva à ideia de reconstrução de um império. O objetivo seria conseguir assim algum tipo de superioridade estratégica sobre o Ocidente ou adquirir maior influência política na arena internacional.
No entanto, pode-se argumentar que os interesses estratégicos da Rússia são mais modestos. O país não está interessado em reviver uma nova Guerra Fria. Falta-lhe não só os meios políticos, econômicos e militares para fazê-lo como também vontade, já que tem mais a perder do que a ganhar na implementação de uma política de confronto com as principais potências do mundo.
Na verdade, o que é visto como uma agressão irracional contra a Ucrânia é apenas mais um capítulo da longa história de equívocos do Ocidente no entendimento de quais forças motrizes estão por trás do comportamento da política externa russa. Este pode ser explicado pela natureza duradoura da cultura estratégica do país. Sim, as especificidades do fato foram surpreendentes, embora não imprevisíveis.
Compreender tal cultura é de extrema importância para formuladores de políticas, estudiosos e analistas, pois ajuda explicar padrões regulares de comportamento dos Estados. Ajuda-nos a entender a lógica de sua percepção sobre o cenário global e a vizinhança mais próxima, o que influencia sua política externa e por que tende a se comportar de determinada maneira.
Em artigo de 1998, Michael Desch argumenta que a cultura estratégica pode não só explicar a defasagem entre mudanças estruturais e alterações no comportamento estatal como também "por que alguns Estados comportam-se irracionalmente e sofrem as consequências de não conseguirem se adaptar às limitações do sistema internacional".
Tendo em vista que esta cultura é produto da experiência histórica, Estados diferentes têm diferentes culturas estratégicas.Todas enraizadas nas experiências de formação do Estado e influenciadas, em algum grau, pelas características filosóficas, políticas, culturais e cognitivas dele e de suas elites.
A literatura sobre o assunto, geralmente, apresenta duas abordagens distintas na análise de cultura estratégica. A mais aceita é a que a define em termos de estratégia militar e uso da força nas relações internacionais. Haveria uma predisposição cultural fortemente correlacionada a determinado comportamento ou pensamento militar, sendo este derivado da história, da geografia, dos mitos e símbolos nacionais, das tradições políticas e instituições do país, entre outras fontes.
Cultura estratégica não é, no entanto, apenas um produto da cultura militar, e esta não é a única área onde sua influência é sentida. Ela também influencia as tradições e práticas políticas e de política externa do país, razão pela qual a segunda abordagem ampliou o conceito e incluiu variáveis como as econômicas e diplomáticas nos caminhos para atingir os objetivos dos Estados.
São, portanto, fatores determinantes na formação da cultura estratégica de um país não apenas a maneira como o poder político é adquirido e utilizado mas também como ele vê e aborda o mundo exterior. Por sua vez, metas de política externa, que refletem identidades e interesses, são definidas por justamente por ela.
Nesta linha de pensamento, o Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) define cultura estratégica como "a combinação de influências internas e externas com experiências – geográficas, históricas, culturais, econômicas, políticas e militares – que molda a maneira de um país entender sua relação com o resto do mundo e como um Estado se comportará na comunidade internacional".
Deste modo, a perspectiva de um país a cerca de seu papel no sistema international e sua percepção de segurança também são parte de sua cultura estratégica. Assim, para fins operacionais, a cultura estratégica pode aqui ser compreendida como uma profunda predisposição cultural a um particular comportamento ou pensamento estratégico.
De fato, a Rússia exibe uma propensão ao uso da força na busca por seus objetivos estratégicos. No entanto, apesar da cultura estratégica poder ser considerada razoavelmente estável no que diz respeito à percepção predominante de ameaça e à busca pelo status de grande potência, algumas mudanças foram acontecendo após o colapso da União Soviética. Mais visivelmente, tem diminuído a percepção da força militar como única fonte de poder, enquanto o papel do poder econômico se tornou mais importante.
Isso certamente não significa que a Rússia desistiu da força militar como fonte de poder e influência política, uma ferramenta importante nas suas relações internacionais. Ela ainda é a base institucional do Estado. No entanto, o desenvolvimento econômico também se tornou importante força motriz por trás de sua política externa.
Não podemos esquecer, contudo, que, por sua própria natureza, a Rússia é um país de revisionista. O estado russo nasceu e expandiu-se em semipermanente estado de guerra. Ao longo da história, dos tempos imperiais à era soviética, a noção de que seus território e recursos eram alvos de Estados vizinhos e inimigos bélicos expansionistas não apenas moldaram a percepção russa de ameaça como também contribuíram para forjar um forte nacionalismo, traço integrante da identidade nacional do país
A cultura estratégica do país e sua aspiração à grande potência são, portanto, fundadas sobre uma quase obsessiva percepção de ameaça generalizada à soberania russa e sua integridade territorial, além de exacerbado nacionalismo, centrado na influência global, na segurança e nos interesses do país.
A repressão aos movimentos separatistas na Chechênia e no Daguestão, a incursão militar na Geórgia em 2008, a recente anexação da Crimeia e o aparente apoio a movimentos separatistas nas regiões ucranianas orientais, mais especificamente nas cidades de Donetsk, Lugansk e Kharkov, seguem claramente esse padrão, já reforçado em julho de 2008, quando o então presidente Andrei Medvedev aprovou um novo "conceito de política externa" para o país, cujos principais objetivos eram "garantir a segurança nacional, preservar e fortalecer sua soberania e integridade territorial e alcançar posições fortes de autoridade no mundo".
Outros elementos também contribuem para moldar a cultura estratégica russa, tais como o estilo profundamente enraizado de liderança autoritária e a cultura política militarizada. Na verdade, a cultura política russa tem profunda influência sobre sua cultura estratégica. Ela é em si muito "marcial"ou harmoniosa com os valores militares nos quais o princípio do kto-kovo (literalmente, "quem-quem) se baseia : quem domina quem, a partir do poder coercitivo ou do status ditado pela autoridade superior".
Isso certamente não significa que a Rússia desistiu da força militar como fonte de poder e influência política, uma ferramenta importante nas suas relações internacionais. Ela ainda é a base institucional do Estado. No entanto, o desenvolvimento econômico também se tornou importante força motriz por trás de sua política externa.
Não podemos esquecer, contudo, que, por sua própria natureza, a Rússia é um país de revisionista. O estado russo nasceu e expandiu-se em semipermanente estado de guerra. Ao longo da história, dos tempos imperiais à era soviética, a noção de que seus território e recursos eram alvos de Estados vizinhos e inimigos bélicos expansionistas não apenas moldaram a percepção russa de ameaça como também contribuíram para forjar um forte nacionalismo, traço integrante da identidade nacional do país
A cultura estratégica do país e sua aspiração à grande potência são, portanto, fundadas sobre uma quase obsessiva percepção de ameaça generalizada à soberania russa e sua integridade territorial, além de exacerbado nacionalismo, centrado na influência global, na segurança e nos interesses do país.
A repressão aos movimentos separatistas na Chechênia e no Daguestão, a incursão militar na Geórgia em 2008, a recente anexação da Crimeia e o aparente apoio a movimentos separatistas nas regiões ucranianas orientais, mais especificamente nas cidades de Donetsk, Lugansk e Kharkov, seguem claramente esse padrão, já reforçado em julho de 2008, quando o então presidente Andrei Medvedev aprovou um novo "conceito de política externa" para o país, cujos principais objetivos eram "garantir a segurança nacional, preservar e fortalecer sua soberania e integridade territorial e alcançar posições fortes de autoridade no mundo".
Outros elementos também contribuem para moldar a cultura estratégica russa, tais como o estilo profundamente enraizado de liderança autoritária e a cultura política militarizada. Na verdade, a cultura política russa tem profunda influência sobre sua cultura estratégica. Ela é em si muito "marcial"ou harmoniosa com os valores militares nos quais o princípio do kto-kovo (literalmente, "quem-quem) se baseia : quem domina quem, a partir do poder coercitivo ou do status ditado pela autoridade superior".
Este pressuposto implica que as elites políticas russas tendem a ver elementos da democracia como meros instrumentos políticos a serem usados para manipular e controlar pessoas e governos mais fracos, a fim de perseguir e alcançar os interesses do país e em benefício da autoridade central.
Em grande medida, a política externa russa espelha sua cultura política. A tradição kto-kovo tem implicações nas relações internacionais do país, pois representa uma tendência a ver Estados e atores estrangeiros como inimigos, aliados transitórios ou idiotas úteis a serem manipulados
Isso ajuda a explicar a opção preferencial por acordos bilaterais no desenvolvimento de sua estratégia multipolar no nível das grandes potências. Através deles, a Rússia forma uma variedade de coligações, em detrimento do sistema de instituições internacionais.
Esta perspectiva também explica a crescente pressão sobre Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Moldávia, Geórgia, Cazaquistão, e também a Ucrânia, para juntarem-se à União da Eurásia, bloco comercial desenhado por Moscou com o intuito de vincular a Rússia aos seus vizinhos mais próximos, contrabalançando a influência econômica da União Europeia na região.
Superado o período caótico que se seguiu ao colapso da União Soviética, as lideranças russas manifestam sistematicamente o desejo de devolver à nação o status de grande potência, importante fator de condução na política externa russa.. Sob este prisma, elas têm agido. O país não só quer aumentar e projetar sua influência e poder em sua região como pretende ser um ator mais significativo na arena internacional. Um impulso improvável de ser arrefecido.
As lideranças parecem ver o mundo basicamente pela ótica realista, na qual a busca pelo equilíbrio de poder é permanente. Para eles, a missão da Rússia é promover o surgimento de um mundo multipolar, a fim de conter e contrabalançar a magnitude do poder americano.
Os principais elementos da cultura estratégica russa – combatividade, competitividade, assertividade política e uma posição firme contra o que é percebido como a maior ameaça à sua segurança e ambições, os Estados Unidos – estão presentes na renovada aspiração ao status de grande potência.
Ao mesmo tempo, devido à sua cultura estratégica, a Rússia se manterá reagindo ao que é percebido como ameaça a sua integridade territorial, influência e valores. Continuará sendo particularmente sensível às tentativas de EUA e União Europeia de não apenas incluírem em uma comunidade de segurança coletiva países que já foram parte de sua esfera de influência, mas também de promover a economia de mercado e a democracia liberal nestas áreas.
Putin deixou claro que está pronto para gastar seu capital político e significativos recursos militares e econômicos na defesa do direito de proteger o que vê como "espaço vital" e interesses da Rússia. E desde a anexação da Península da Criméia, agora um fato consumado, quando não enfrentou nenhuma oposição internacional séria, apenas leves protestos diplomáticos, uma análise da cultura estratégica do país indica que outras aventuras semelhantes podem estar por vir.
Exceto, obviamente, se Estados Unidos e demais potências ocidentais descobrirem uma efetiva maneira de tornar tais ações mais custosas para a Rússia sem aumentar os riscos de um confronto militar direto.
*Marcos Degaut is estudante de pós-doutorado em Segurança Internacional na Universidade da Flórida Central
(tradução livre do blog)
*Marcos Degaut is estudante de pós-doutorado em Segurança Internacional na Universidade da Flórida Central
(tradução livre do blog)
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Flamengo: só de quem muito se espera vem a decepção
Por Murillo Victorazzo
Pode-se criticar escalações, padrões táticos. Mas lembremos que Jayme deu ao Flamengo dois títulos em seis meses. Mudar treinador faz parte, concorde-se ou não. Porém, ser ele o último a saber foi, em um termo direto e sucinto, a mais pura cafajestagem. Pecado que se tornou mais grave por ter vindo, estranhamente, acompanhado da informação de que Ney Franco já teria sido escolhido seu sucessor.
No fim da tarde, mais de seis horas depois do vazamento da notícia, o máximo de satisfação que os dirigentes deram a seus torcedores foi uma breve nota oficial. Em meio a meia dúzia de blá blá blá sobre "nova fase", "projetos novos", anunciava apenas a saída do treinador
Dar a cara em entrevistas para explicar-se não é definitivamente característica destes "profissionais". Quando dão, mostram uma visão de mundo que nada tem a ver com um clube de massa. O mínimo que se espera é ver dirigentes em coletivas após momentos como este ou a bizarra eliminação da Libertadores.
Ficou a sensação de que primeiro se fechou com Ney, para depois avisar o demitido. O oposto do que manda a ética e o profissionalismo: demitir oficialmente antes o funcionário, comunicá-lo, para depois contratar outro, ainda que sondagens possam ocorrer simultaneamente.
No fim da tarde, mais de seis horas depois do vazamento da notícia, o máximo de satisfação que os dirigentes deram a seus torcedores foi uma breve nota oficial. Em meio a meia dúzia de blá blá blá sobre "nova fase", "projetos novos", anunciava apenas a saída do treinador
Dar a cara em entrevistas para explicar-se não é definitivamente característica destes "profissionais". Quando dão, mostram uma visão de mundo que nada tem a ver com um clube de massa. O mínimo que se espera é ver dirigentes em coletivas após momentos como este ou a bizarra eliminação da Libertadores.
Ficou a sensação de que primeiro se fechou com Ney, para depois avisar o demitido. O oposto do que manda a ética e o profissionalismo: demitir oficialmente antes o funcionário, comunicá-lo, para depois contratar outro, ainda que sondagens possam ocorrer simultaneamente.
Encontrado pela Rádio Tupi no fim da noite, depois do estrago e de ter ficado a tarde toda incomunicável, o vice de futebol, Wallin Vasconcelos, disse que não. Garantiu que a cúpula decidiu dispensar o treinador após da derrota do Fla x Flu, mas esperavam um nome bom no mercado aparecer - e apareceu com o pedido de demissão de Ney ao Vitória, convenientemente algumas horas depois.
Difícil acreditar, mas, caso verdadeira, a declaração transparece outro erro: sinaliza que contrataram o primeiro que viram livre, sem nenhum critério, sem definição de que tipo de treinador desejam, seu perfil. Tudo às pressas...
Sem desmerecer os avanços no equacionamento das dívidas e o fim de loucuras em contratações de impacto, ainda dominam, na gestão do futebol, o amadorismo, a ingratidão e a falta de respeito ao outro e de convicção no que se pretende. Tudo que os propalados "executivos da iniciativa privada, eficientes e sérios" diziam combater nas famigeradas administrações passadas.
São, por sinal, os membros dessas administrações, responsáveis diretos pela dramática situação financeira do clube e líderes da oposição atual, os que certamente aproveitarão o caso para fazer barulho e se cacifar na política interna do "Mais querido". Dar-lhes munição será o pior efeito colateral das lambanças de Bandeira de Melo e cia.
Tudo está confuso no Departamento de Futebol do clube. Desde o ano passado, são erros atrás de erros, dos tipos inimagináveis para a diretoria atual. De quem nada se espera, não vem decepção. Exige-se mais dos que podem - ou dizem poder - mais. Tomara o futuro, o longo-prazo, traga-nos de volta o respeito por ela.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
O uso político do idioma: um obstáculo ao diálogo na Ucrânia
Por Polina Sinovets* (Open Democracy.net, 06/05/2014)
Os acontecimentos recentes na Ucrânia revigoraram o debate sobre a utilização oficial e não oficial da língua russa no país, há muito tempo parte da sociedade local. Durante as campanhas eleitorais, partidos políticos locais e atores externos se utilizaram de cartazes nos idiomas russo e ucraniano para conquistar busca o apoio da opinião pública, atrelando a língua à identidade e à política.
Após o colapso do regime de Victor Yanukovych, o novo Parlamento da Ucrânia revogou a polêmica "Lei da Língua" de 2012 que dava ao russo (e a algumas outras línguas) o status oficial em regiões onde elas são dominantes. Vetada pelo presidente interino da Ucrânia, Oleksandr Turchinov, a revogação nunca entrou em vigor, mas foi suficiente para provocar agitações no Sul e no Leste, especificamente em Sebastopol, Kharkiv e Odessa. Também permitiu que a Rússia acusasse a Ucrânia de suprimir os direitos políticos de russos étnicos, e deu a Moscou o pretexto para a intervenção militar na Crimeia.
Na Ucrânia, há dois grupos linguísticos expressivos envolvidos com as divisões políticas do país. Geograficamente, o primeiro grupo baseou-se na maior parte do país - no Sul e no leste -, regiões por centenas de anos parte do Império Russo. Associa-se historicamente com a cultura e língua russas.Após o colapso do regime de Victor Yanukovych, o novo Parlamento da Ucrânia revogou a polêmica "Lei da Língua" de 2012 que dava ao russo (e a algumas outras línguas) o status oficial em regiões onde elas são dominantes. Vetada pelo presidente interino da Ucrânia, Oleksandr Turchinov, a revogação nunca entrou em vigor, mas foi suficiente para provocar agitações no Sul e no Leste, especificamente em Sebastopol, Kharkiv e Odessa. Também permitiu que a Rússia acusasse a Ucrânia de suprimir os direitos políticos de russos étnicos, e deu a Moscou o pretexto para a intervenção militar na Crimeia.
No presentes, alguns partidos políticos ucranianos, como o Rodina (legenda pró-Rússia baseada em Odessa) e o Russkiy Blok (uma aliança de partidos que inclui o Za Rus Edinuyu e o Soyuz Russko-Ukrainskiy), bem como a transnacional Russkiy mir Foundation, usam a herança cultural e linguística russa para tentar justificar a influência da Rússia contemporânea sobre a Ucrânia.
As posições destes partidos e movimentos são bastante agressivas e radicais. Eles consideram o russo o legítimo idioma 'civilizado' das cidades, enquanto o ucraniano seria um mero dialeto rural, empobrecido pela intromissão da cultura e língua polonesas. Qualquer expansão da cultura e língua ucranianas é vista negativamente como uma tentativa de apagar a identidade eslava.
Como descreve, em russo, um membro da Russkiy mir, "para cortar a Rússia dos mares do Sul, empurre-o para o norte, e assim o processo de desmantelamento final do Estado russo está lançado". Em sua opinião, este processo levaria à degradação cultural da população ucraniana e, em último estágio, ao isolamento das minorias russas em guetos rodeados por ambientes hostis.
Tais grupos tornaram o termo "ucranianos" sinônimo de "inimigos", "traidores'", "Banderovtsy" (uma referência ao líder nacionalista ucraniano da II Guerra Mundial Stepan Bandera). Uma "quinta coluna" de ajuda ao Ocidente para enfraquecer a Rússia. Segundo eles, os russos são segregados na Ucrânia e a "Lei da Língua" de 2012 é um passo muito modesto em direção à proteção dos direitos da língua russa, já que ela também prevê direitos iguais a todas as outras línguas regionais.
Na visão destes setores, há no russo uma "inegável superioridade sobre todas as outras línguas europeias" (palavras, atribuídas ao poeta Alexander Pushkin, escrito em cartazes por toda Odessa). Um discurso radical que claramente não favorece o diálogo e o compromisso, representando, portanto, um grave conflito impossível de ser vencido.
Ao mesmo tempo, um de seus argumentos é difícil de ser ignorado: estatisticamente, a minoria russófona na Ucrânia é de entre 30 e 40% da população. Número suficiente para o russo ser considerado um idioma de estado, similar, por exemplo, à evolução do inglês como língua oficial em ex-colônias britânicas como Índia, Irlanda e Malta.
Pesquisas realizadas em 2013 sugeriram que a autoidentidade ucraniana inclui frequentemente o uso da língua russa: 35% dos inquiridos têm o russo como sua língua nativa e aproximadamente 50% disseram que o idioma é mais fácil para falar. (outros 13% afirmaram que falavam russo e ucraniano igualmente bem).
Tal percepção é uma das razões da forte influência da Rússia na vida política da Ucrânia: a questionável política de "proteger a população russa" fora de suas fronteiras não se aplica apenas à etnia russa, mas também para os falam seu idioma. Como visto na Crimeia, uma retórica que pode ser usada como pretexto para a agressão militar a um Estado soberano.
A Igreja Ortodoxa Russa também traz sua influência na esfera da política do idioma. Faz isso, em particular, através do conceito de Russkiy mir, segundo o qual russos, ucranianos e bielorrussos constituem o chamado "mundo russo", um único espaço civilizacional unido pela cultura e língua russas. Um conceito que tenta reviver a união das três nações, remontando aos tempos do Império Russo e soviético e definindo-os coletivamente como à parte da civilização ocidental.
Ao aparecer para justificar a intervenção militar da Rússia contra a Ucrânia, um porta-voz da Igreja Ortodoxa Russa mencionou a antiga declaração da Assembleia do Povo Russo mundial - associação lastreada pela Igreja - que afirma que "o povo russo é uma nacionalidade dividida em seu território histórico e tem o direito de ser reunificado em um único organismo governamental".
As eleições são sempre um horário nobre para apresentar os argumentos pró-russo. Em 1994, a defesa do russo como segunda língua estatal foi uma das principais bandeiras do presidente Leonid Kuchma. Um estratagema que Victor Yanukovych e seu Partido das Regiões também usaram, resultando na aprovação da "Lei da Língua" de 2012. Quando o Parlamento ucraniano inicialmente revogou a lei, após a destituição de Yanukovych, a Rússia a usou como justificativa para a ocupação da Crimeia, " a fim de defender os russos" em solo ucraniano.
No outro lado da Ucrânia, no entanto, está um segundo grupo - aqueles para os quais uma ilimitada propagação da língua russa significa certa marginalização do ucraniano. Associados ao oeste do país, onde as tradições nacionais são muito fortes, e também a Kiev, onde a ideologia nacional está sendo formada hoje, seus integrantes não aceitam o russo como um segundo idioma oficial. Veem-o como empecilho à construção da nação e do Estado ucranianos.
Integrantes destes segmentos argumentam que a língua ucraniana é privada de oportunidades e estatuto. Em particular, dizem que ela é a base para a construção da nação, e o uso onipresente do russo mata esta possibilidade por marginalizar o ucraniano a uma estreita área de comunicação doméstica.
Eles consideram que a língua ucraniana precisa ser promovida através da limitação consciente do russo, a língua cotidiana para a cultura, a informação e os negócios nas maiores cidades do país. O soft power linguístico russo tem desempenhado um papel ativo na perpetuação do domínio da língua russa.
A tentativa de revogar a "Lei da Língua" desencadeou as posições mais agressivas de ambos os grupos. Justamente quando era necessário unificar a nação, o Verkhovna Rada (Parlamento) cometeu um erro muito perigoso. O movimento nacionalista de direita Right Sector insistiu na necessidade de "derussificar" a Ucrânia, enquanto o Russkiy Blok levantou-se para defender os direitos dos russófonos contra o Banderovtsy armado.
No entanto, esta luta ideológica é oca diante da realidade. Para começar, a revogação nunca entrou em vigor, desde que Turchinov a rejeitou. Além disso, a Ucrânia ratificou a Carta Europeia para Línguas Minoritárias ou Regionais, em 1996, e deu ao russo o status de língua regional em muitas partes do Sul e do Leste do país. O único efeito da lei linguagem foi desequilibrar a balança jurídica existente a favor do russo. Revogá-la seria apenas ter nivelado campo de jogo novamente.
Hoje, a possibilidade de retirar verdadeiramente o idioma russo da Ucrânia é inimaginável e irrealista. O desafio atual a ser enfrentado é a exploração das questões linguísticas por partidos políticos e atores com o intuito de destruir o diálogo e integração.
O clichê popular garante que um russófono é sempre politicamente mais próximo à Rússia. Dados lançam dúvidas sobre esta afirmação. De acordo com uma pesquisa realizada em junho de 2013 na cidade de Donetsk, no Leste do país, o número de entrevistados locais entrevistados entre 18 e 45 anos que se identificam como ucranianos varia entre 60 a 75%, enquanto 99% de todos os entrevistados preferiram responder o levantamento em russo.
Uma Ucrânia bilíngue não é viável? Um grande grupo de nacionalistas ucranianos russófonos conduz debates em russos na popular rede social VKontakte. Seus membros consideram o ucraniano a única língua oficial, mas dizem que a transição para o ucraniano deve ser gradual e que nenhuma língua deveria ser suprimida ou humilhada no território do país.
É um erro, para ambos os lados, politizar as questões linguísticas. Há muito mais que o idioma na construção de uma nação. Apenas uma pequena parte da população ucraniana se vê como parte da Rússia — de acordo com um levantamento, em russo, do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, realizado, em abril, no Sul e no Leste da Ucrânia, apenas 8,4% defendem a união de Ucrânia e Rússia em um só Estado. E apenas 15,4% apoiam a anexação de sua região à Rússia.
A maioria dos russófonos urbanos e com alta instrução na Ucrânia demonstrou forte solidariedade com seus compatriotas de língua ucraniana, mantendo-se juntos contra a agressão russa e as tentativas de dividir o território e a sociedade local. Nas cidades pequenas, o quadro é um pouco diferente. Passivos, amedrontados e confusos, hoje estes são presas fáceis para qualquer ator político - de agentes pró-Rússia que lhes dão dinheiro, comunistas, à inteligência e propaganda russas.
* Polina Sinovets é professor adjunto na Universidade Nacional de Mechnikov, em Odessa,Ucrânia
(tradução livre do blog)
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