terça-feira, 21 de junho de 2016

Habemus sinopse, salgueirenses!

A DIVINA COMÉDIA DO CARNAVAL

“Carnaval do Rio, vendaval de sentidos! (…) Tu és o espasmo da fera na civilização”. (João do Rio)

Quem sou eu nessa selva de ilusões que se ergue quando o mundo real acaba em cinzas para renascer vibrante nas chamas de mais um Carnaval?

Muito prazer! Sou um aventureiro errante, passageiro do delírio. Mas podem me chamar de poeta…

Embarco numa viagem desvairada pelos três reinos místicos de Momo, navegando por um rio de escaldantes tentações.

“Se ‘essa barca’ não virar / Olê, olê, olá… Eu chego lá!”

De mente aberta e alma liberta, lá vou eu!

ALEGRIA INFERNAL

No “Balancê, Balancê”, a embarcação avança pelas águas assombradas de onde avisto as loucas fantasias dos que se entregam sem temor às garras da folia. São milhares de vozes que ecoam pelos abismos mais profundos, entoando uma ladainha profana, hino de tantos carnavais:

“Mas que calor ô-ô-ô-ô-ô-ô”!

Estou em pleno Inferno, ardendo numa incontrolável febre de alegria. No rebuliço dos salões subterrâneos, o Bloco dos Mascarados arma as trincheiras para uma intensa batalha de confetes e serpentinas, libertando as feras que se escondem em cada um de nós.

No decorrer do trajeto, vejo uma procissão pagã inundando de beleza a Avenida das Labaredas, onde ressoam alto os clarins pedindo passagem para os “Tenentes do Diabo”. Numa triunfal aparição, é carregado em glória o Senhor das Profundezas, que uma vez por ano segue a comandar o soberbo desfile das Grandes Sociedades do Além-Túmulo. Nessa euforia aterradora, a ordem do Rei do Mundo Inferior é lavar a alma num irresistível transe coletivo, como se fosse o último Carnaval sobre a face das trevas.

Mas sinto que é hora de partir, ainda que atraído pelas fogosas tentações espalhadas no caminho maligno que tanto me seduz. Sigo, então, a minha trajetória. Ainda há muito Carnaval para pular.

PECADO É NÃO SE ENTREGAR…

Depois de abandonar as veredas infernais, eis que estou aos pés do imponente monte Purgatório, onde o Cordão dos Penitentes se divide em sete grupos de foliões, cada qual com seu pecado capital. Em um cortejo alucinante, sacodem a ladeira sem culpa, sem juízo e sem medo de ser feliz. Afinal, não há castigo para pecados cometidos em nome do prazer.

Mas que folião sou eu nesse reino entre o Inferno e o Céu? Para avançar pela trilha da temperança, é preciso mergulhar nas águas que purificam o espírito e seguir o caminho da salvação.

“Vê? Estão voltando as flores…”

O cenário se modifica e dá lugar a um gracioso cortejo de sonhos e recordações. Abram alas para o esplendor dos Ranchos e suas deslumbrantes flores, aves exuberantes e borboletas telúricas. É a natureza se revelando em um suntuoso Jardim do Éden, bordando de beleza a travessia rumo às portas do reinado derradeiro de Momo.

A DIVINA FOLIA

Purificado, cruzo a grande entrada que me defronta com a visão divinal do firmamento, onde estrelas giram como um carrossel místico suspenso no infinito. Ao seguir o rastro de poeira cósmica, vou percorrendo um universo magnífico e reluzente. Nos altos círculos celestiais, um Corso espacial desfila encanto e lirismo:

“E a lua anda tonta… com tamanho esplendor!”

A minha alma caminhante sorri diante da vastidão do espaço ornamentado de saudade. Decorado por grandiosos painéis multicores, flutuo em glória rumo à Apoteose que encerra esta jornada foliã. Chego, enfim, ao meu destino final!

No último portal do Paraíso, sinto o pulsar da magia dos tambores que emanam o axé das divindades. Iluminado, adentro o templo da divina criação, na dimensão afro-cósmica dos reis, heróis e deuses de Yorubá.

Nesse plano superior, ponho-me diante da Santíssima Trindade do Carnaval, que molda em arte tudo o que nasce do coração do povo. Pai, Filho e Espírito Santo… Juntos de novo na missão de interpretar a alma da nossa gente. Assim, celebro, extasiado, a beleza criada pelas mãos do gênio Arlindo, o eterno querubim arlequinal, a trançar a Divina festança entre rendas e fitas; contemplo a obra magistral deJoãosinho, o menino que virou rei, a tecer em luxo e brilho o maior espetáculo do universo; e, por fim, reverencio o supremo Deus com voz de trovão, Fernando Pamplona… Salve o mestre de muitas artes que enfeita, nas altas esferas de Orum de Todos os Deuses, a grande Festa para os Reis Negros da Academia do Samba, o meu sagrado Paraíso!

Em estado de graça, completo a minha Odisseia carnavalesca. É hora de revelar em poesia todas as maravilhas que vi e que senti ao longo do percurso.

Meu nome é Dante! Sou poeta peregrino que anuncia o grande aprendizado desta Divina Comédia:

A REAL FELICIDADE ESTÁ EM NOSSA INADIÁVEL MISSÃO DE

CARNAVALIZAR A VIDA.

Há um Dante dentro de você. Liberte-o!

                                         Renato Lage, Márcia Lage e Diretoria Cultural


SETORES DO DESFILE:

 Setor 1 – INFERNO
– A Barca para o Inferno
– Os Tenentes do Diabo

Setor 2 – PURGATÓRIO
2.1 – O Cordão dos Penitentes – Os Sete Pecados Capitais
2.2 – Ranchos: A Purificação

Setor 3 – PARAÍSO
3.1 – O Corso Espacial
3.2 – A Santíssima Trindade no Orum de Todos os Deuses

domingo, 22 de maio de 2016

"Desfazer o que Lula fez em política externa não é bom para o Brasil"

Por Luiza Bandeira (BBC Brasil, 20/05/2016)

As medidas que "desfazem" ações dos governos do PT - como parte da guinada na política externa brasileira proposta pelo novo ministro das Relações Exteriores, José Serra - não são boas para o país, na visão do editor de uma das principais revistas dedicadas a relações internacionais do mundo, a Foreign Policy.

"Se Serra acha que reformar a política externa é desfazer o que o Lula fez, ele não está agindo em nome dos interesses do Brasil", disse à BBC Brasil David Rothkopf, em referência à possibilidade de fechamento de embaixadas abertas em gestões anteriores.

Após assumir o posto de chanceler do governo interino de Michel Temer, Serra criticou o que chamou de "partidarismo" da política externa dos governos do PT e indicou que, além de buscar uma gestão focada em comércio internacional, possivelmente fecharia embaixadas abertas por Lula em países da África e do Caribe.

Para Rothkopf, Lula "fez mais para aumentar o peso do Brasil no cenário mundial do que qualquer presidente do Brasil". Ele também dá crédito ao ex-chanceler Celso Amorim - que chegou a chamar de "provavelmente o melhor chanceler do mundo" em um artigo em 2009 - pelo papel em transformar o país em um ator de peso no cenário internacional.

O CEO e editor da Foreign Policy, no entanto, critica a excessiva complacência do governo com o regime de Hugo Chávez sob Lula e a perda de importância da política externa sob Dilma.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista, separados por temas:

Discurso de Serra

"O maior problema que o Brasil tem em termos de política externa é que o país está paralisado e perdeu muita credibilidade. Não é só que Dilma tenha sofrido impeachment ou que haja uma nuvem de suspeitas sobre a cabeça de Temer, é que há uma nuvem de suspeitas sobre a cabeça de muita gente no Congresso, no Executivo, e é muito difícil saber quando esse escândalo de corrupção vai parar de prejudicar o Brasil.

Então os mercados estrangeiros perderam a confiança no Brasil, não tem certeza de com quem vão lidar, e esse tipo de previsibilidade, saber com que você está lidando, como são as políticas, é absolutamente crucial.

Então o discurso de Serra não significa nada se não soubermos por quanto tempo essa administração vai ser efetiva, ou se vai ser efetiva."
Política externa do PT

"Sobre as críticas às políticas do governo de esquerda, a questão é: qual governo? Lula, no auge de sua popularidade, fez mais para aumentar o peso do Brasil no cenário mundial do que qualquer presidente do Brasil, seja por abrir embaixadas e consulados pelo mundo, seu papel de liderança, Celso Amorim e o Itamaraty envolvidos nos assuntos mais importantes e dizendo 'o Brasil é um dos países mais importantes do mundo e temos que ser tratados desta forma'. Aderir à ideia dos Brics foi outro componente disso, a diplomacia Sul-Sul, e também o fato de que as coisas estavam funcionando no Brasil.

Dilma não tinha muito tato para isso, Antonio Patriota era ótimo, mas ela não o empoderou, controlou muito, houve tensões com o Itamaraty. Depois veio Mauro Vieira, que era também muito capaz, mas era muito claro que ela estava com problemas na maior parte do tempo em que ele foi chanceler. De novo, se há um problema interno, isso se transfere para a política externa.

Ouço Serra e penso: é possível que o regime de Lula tenha se inclinado demais para Chávez e ignorado problemas no regime (venezuelano)? Sim, com certeza. Eles foram muito permissivos na mudança de Chávez para uma ditadura e nos abusos de direitos humanos. Eu nunca sugeri que a política externa do PT era perfeita. Teria feito mais sentido ter uma política equilibrada.

Mas se o Brasil voltar às políticas pré-Lula, que eram essencialmente 'vamos ter políticas de comércio com algumas partes do mundo, não vamos causar problemas, vamos adotar um tom cético-reflexivo em relação aos EUA, etc.', isso não seria bom.

Mas toda política externa começa com força interna, e neste momento o Brasil tem um problema tão grande que torna a política externa uma nota de rodapé dentro da política do governo."

Comércio bilateral

"Dependendo dos acordos bilaterais, priorizá-los pode ser uma estratégia mais eficiente. A maioria dos esforços recentes com acordos multilaterias resultaram em inação ou, se implementados, acordos ineficientes.

Mas isso parece ecoar uma noção de que política externa é essencialmente política de comércio. E a política externa pré-PT era muito orientada para comércio, e não pelo protagonismo no cenário político mundial.

Eu acho que em um país de 200 milhões de pessoas, uma das sete maiores economias do mundo, com a quinta maior população e área, merece estar na discussão política também.

Não tem nada de errado em querer acordos bilaterias, mas isso por si só não é política externa."

Fechamento de embaixadas

"No meu ponto de vista, a abertura de embaixadas foi uma forma de aumentar a influência do Brasil. E acho que, sejam quais forem as boas intenções que Serra possa ter, não é uma boa política, como aprendemos com os EUA, chegar e falar 'vou fazer o oposto do que meu antecessor fez'.

George Bush foi e fracassou em lugares como o Oriente Médio e Obama fez o oposto, foi muito pouco ativo nesses lugares, e isso foi um problema.

Se Serra acha que reformar a política externa é desfazer o que o Lula fez, ele não está agindo em nome dos interesses do Brasil. A política externa tem que ser guiada pelo interesses de longo prazo.

Minha reação inicial é que provavelmente não será estratégico fechar embaixadas, mas não tenho familiaridade suficiente com os problemas financeiros do Brasil."
Respostas 'duras ' a vizinhos e impeachment

"É dificil dizer exatamente como será essa relação no longo prazo, pode ser bom se colocar pressão nesses governos (como Venezuela) para se comportarem de forma mais responsável.

Mas o Brasil pertence ao cenário global, como um dos países mais importantes do mundo, então as políticas têm que olhar muito além do seu quintal.

Não sei se o problema (de Serra) vai ser convencer outros países de que o governo é legítimo, mas se é um governo de confiança, se estará lá por um bom tempo, se terá mandato para fazer as coisas, se representa os brasileiros.

Parece impróvavel que Dilma renuncie, e isso significa que o governo tem um prazo de 6 meses, não sabemos o que acontece depois. O presidente está cercado de suspeitas, os líderes do Congresso, não sabemos onde os dominós vão parar de cair.

Os governos estrangeiros serão educados com Serra, vão receber bem as mudanças que acharem que são de seu interesse, mas eles vão esperar para ver o que vai acontecer."

terça-feira, 17 de maio de 2016

Serra e o subterrâneo do Itamaraty

Por Roberto Simon* (Folha de SP, 16/05/2016)

Caso José Serra, novo ministro das Relações Exteriores, desça o elevador em frente a seu gabinete e cruze a rua até o prédio anexo ao Palácio do Itamaraty, onde fica o arquivo do ministério, poderá encontrar papéis carcomidos com trechos de sua biografia.

Serra, afinal, é velho conhecido da Casa de Rio Branco. A instituição que agora comanda o espionou por anos -quando era ainda "o asilado territorial José Serra", nas palavras do embaixador da ditadura no Chile, Antonio Candido da Câmara Canto.

A chancelaria listava-o, em 1974, entre os "elementos brasileiros subversivos considerados perigosos" que haviam escapado após o golpe contra Salvador Allende. O então professor universitário chegara a dormir uma noite no Estádio Nacional de Santiago, a arena convertida em campo de concentração.

Teve, contudo, a sorte de ser solto antes de cinco agentes do Brasil começarem a dar expediente no local, auxiliando torturadores chilenos. Naqueles dias, um bilhete do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo sobre Serra avisava: "trata-se de 'boa gente', que bem merece ser 'tratado' pelos chilenos".

Anos antes de receber asilo na missão italiana no Chile, Serra já era vigiado por arapongas-diplomatas. A chancelaria se encolerizava em especial com seu trabalho na Frente Brasileira de Informações, grupo de exilados que compilava e disseminava mundo afora casos de tortura no Brasil.

A embaixada em Santiago fez intenso lobby junto ao governo Allende para que o boletim da frente fosse proibido e os envolvidos, expulsos do Chile. Fracassou duplamente.

O ministério suspeitava (com razão) que Serra era "um dos mais ativos pombos-correios" da organização. Documentos secretos registram sua passagem por Uruguai, Argentina e Peru para atar
nós da rede de denúncias, além de uma viagem à Europa socialista.

O Itamaraty espionava suas mais prosaicas atividades, de jantares a conferências sobre inflação. Em 1969, Serra tapeou a vigilância da ditadura e tirou um passaporte no consulado em Santiago. O caso custou a carreira do cônsul-adjunto.

O novo ministro viveu um passado ainda quase ignorado por estudiosos das relações internacionais. A versão oficial construída desde a redemocratização é que, institucionalmente, o Itamaraty se insulou dos arbítrios da ditadura e se ateve aos "interesses permanentes" de Estado. Nela, meganhas e delatores são a exceção que confirma a regra.

Os arquivos recém-revelados contam outra história. A chancelaria era parte fundamental do aparato repressivo fora do território nacional, espionando centenas de brasileiros como Serra.

Tratou-se de uma colaboração institucional que violou de modo sistemático direitos e, em alguns casos, fez "desaparecer" brasileiros. Claro: alguns honrosos diplomatas se arriscaram agindo contra a ditadura, por exemplo, ao transportar listas de torturadores em malas diplomáticas.

O Itamaraty de hoje é outro. À frente do ministério que o perseguiu, Serra tem a oportunidade de jogar luz sobre esse passado e provar que suas lições foram assimiladas.

Em um governo de feições assustadoramente retrógradas, o ex-"asilado territorial" deve honrar seu passado de luta e provar que o Brasil, a maior democracia da América Latina, reconhece suas responsabilidades na promoção dos direitos humanos dentro e fora de casa.

*Roberto Simon é mestre em políticas públicas pela Universidade Harvard (EUA). Prepara para a editora Companhia das Letras o livro "O Brasil de Pinochet"

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Respostas 'duras' de Serra a críticas de países vizinhos dividem Itamaraty

Por Ricardo Senra (Folha de SP, 16/05/2016)

A troca de poder na Presidência da República reverbera também em embaixadas, consulados e corredores do Itamaraty. Parte do corpo diplomático reagiu mal aos primeiros passos da gestão do novo chanceler José Serra, nomeado na última quinta-feira pelo presidente interino Michel Temer.

O grupo insatisfeito classifica as primeiras notas, divulgadas na sexta-feira pelo gabinete do novo ministro, como "eleitoreiras" e "agressivas", fugindo ao tom tradicional da instituição.

Os destinatários dos comunicados oficiais eram países como Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua - todos críticos à legitimidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Nas notas, a gestão de Serra responde ao posicionamento dos vizinhos com termos como "falsidades", "preconceitos" e "absurdo".

Nesta segunda, foi a vez de uma resposta a El Salvador, que criticou o impeachment e decidiu suspender os contatos oficiais com o Brasil. Em nota, o Itamaraty diz que a medida do país caribenho revela "profundo desconhecimento" sobre a legislação brasileira.

Para os críticos, o posicionamento de Serra colocaria acordos comerciais em risco (só com a Venezuela, o Brasil teve superavit comercial de R$ 38 bilhões entre 2004 e 2015) e atrapalharia a reputação diplomática do país. Eles também sugerem que os comentários enfáticos teriam "fins eleitoreiros", de olho em uma possível candidatura do ministro à Presidência da República em 2018.

De outro lado, alas do Ministério das Relações Exteriores entendem como "natural e necessária" a ofensiva do tucano a governos historicamente aliados da gestão petista. Para esses diplomatas, Serra e Temer precisam responder enfaticamente a questionamentos sobre a legitimidade do governo interino para que ele possa ganhar relevância na comunidade internacional.

Uma terceira via sugere ainda que o novo chanceler estaria antecipando um diálogo com possíveis sucessores de Nicolás Maduro (Venezuela) e Rafael Correa (Equador) caso se confirme uma guinada à direita em todo o continente nas eleições presidenciais em curso.

DISPUTA DE 2018

A reportagem ouviu membros de diversos níveis da instituição: de oficiais de chancelaria a embaixadores, passando por diplomatas. Todos pediram anonimato - por medo de represálias ou por temer dar declarações públicas "prematuras" sobre as mudanças no Itamaraty no governo interino.

Segundo a BBC Brasil apurou, Serra esteve duas vezes no Palácio do Itamaraty desde a nomeação. Na sexta-feira, saiu do edifício às 23h. No dia seguinte, conversou com líderes de sua nova equipe das 12h às 14h, já construindo seu discurso de posse.

Ele se apresentará oficialmente na próxima quarta-feira, quando falará pela primeira vez à frente do ministério.

"Nosso receio é que o Itamaraty seja usado como plataforma para avanço em interesses de curto prazo da política interna, em vez de perseguir objetivos de longo prazo do Estado brasileiro", avaliou um diplomata à BBC Brasil.

Ele se refere a uma possível candidatura do tucano à Presidência da República em 2018. Com as críticas públicas a lideranças de esquerda do continente, Serra estaria satisfazendo parte de seu eleitorado, que protesta nas ruas e redes contra o que entende como "eixo bolivariano" na América Latina.

Uma figura importante do Itamaraty minimiza os efeitos da suposta estratégia. "Serra foi um bom ministro da Saúde e nem por isso conseguiu se catapultar à Presidência da República."

"Ele se mostra como ministro candidato", rebate outro. "(Suas declarações) jogam para uma plateia treinada a odiar cegamente a Alba e a Unasul (órgãos multilaterais formados durante a predominância de governos de esquerda no continente)."

Na avaliação do professor Oliver Stuenkel, professor da FGV de São Paulo e especialista em relações internacionais, esse tipo de estratégia, se existir, é algo esperado. "A política externa sempre é feita com objetivos internos."

"Acho que ele tem boa perspectiva para 2018 porque a política externa é uma fonte de boas notícias", afirma. "Em um momento de cortes e ajuste, o ministro da Saúde dará notícias ruins, o mesmo para o da Fazenda ou do Planejamento. Sem avaliar aqui a orientação ideológica de Serra, ele usará sim o Itamaraty para produzir noticias positivas, com acordos binacionais, assinaturas de tratados, soluções de problemas de fronteira etc."

Stuenkel ressalta que a prática foi realizada em gestões anteriores. "Lula começou a promover o rótulo de potência emergente ao Brasil no justo momento em que o mensalão começou a surgir internamente. Foi uma tentativa bem-sucedida de usar a política externa para a produção de boas notícias."

TEOR DAS NOTAS

Em 2010, quando concorreu com Dilma Rousseff nas eleições presidenciais, o tucano disse que o governo boliviano é "cúmplice do tráfico" de cocaína e que "não teme incidentes diplomáticos" com o país vizinho.

"A melhor coisa diplomática para o governo da Bolívia é passar a combater ativamente a entrada da cocaína no Brasil", afirmou na época, em referência ao presidente Evo Morales, importante aliado das gestões Lula e Dilma no continente.

Mais recentemente, Serra fez críticas ao programa Mais Médicos, que traz médicos estrangeiros, na maioria cubanos, para atuar como médicos de família em regiões com pouca oferta no país.

"Afastar-se de países como Cuba, por exemplo, por motivações ideológicas, em um momento em que até os Estados Unidos estão se reaproximando, é ir na contramão da história", avalia um dos críticos.

Ele se refere à nota divulgada no último dia 13, logo após o anúncio da posse de Serra, em que o ministério "rejeita enfaticamente as manifestações dos governos da Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, assim como da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América/Tratado de Comércio dos Povos (ALBA/TCP), que se permitem opinar e propagar falsidades sobre o processo político interno no Brasil".

O texto oficial prossegue: "Esse processo se desenvolve em quadro de absoluto respeito às instituições democráticas e à Constituição Federal".

Em outra nota, respondendo ao secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), Ernesto Samper, que sugeriu uma ruptura do sistema democrático brasileiro caso o impeachment se confirme, o ministério afirmou que "os argumentos, além de errôneos, deixam transparecer juízos de valor infundados e preconceitos contra o Estado brasileiro (...) e fazem interpretações falsas sobre a Constituição e as leis".

O tom surpreendeu alguns diplomatas. "A linguagem usada nas duas notas não soa a notas diplomáticas brasileiras. Isso vale mesmo na comparação com o tom usado na política externa do presidente Fernando Henrique", avaliou um dos críticos.

"Leva-se anos construindo a imagem de garantia da estabilidade sul-americana e, em um ato apenas, se coloca tudo a perder."

À BBC Brasil, o embaixador Frederico Meyer, porta-voz do Itamaraty, disse que "a nova administração está começando e não há nenhuma mudança de instrução e orientação".

Sobre as críticas internas às notas, Meyer afirmou que elas não são suficientes para se avaliar a postura do ministério.

"É muito cedo para julgar ou avaliar", afirmou. "São comentários anônimos, eles existem em qualquer instituição. Há pessoas que agradam e que desagradam."

'Sempre haverá críticas'

Na avaliação do professor Matias Spektor, coordenador do Centro de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas, "nenhum chanceler poderoso gera unanimidade dentro do Itamaraty.

"Sempre haverá críticas. Foi assim com Celso Amorim, será assim com Serra", afirma.

Ele classifica as notas emitidas pela nova gestão como um posicionamento "como ministro forte de um governo no qual disputa espaço com a equipe econômica".

Para o professor Oliver Stuenkel, as cartas aos dirigentes de países vizinhos devem ter pouca influência nos rumos diplomáticos do continente.

"A Venezuela hoje não apoiaria o governo Temer independentemente da nota. A Bolívia idem, isso já está dado", afirma. "Mesmo sem essas notas, eles não dariam nenhum apoio diplomático ao Brasil."

Stuenkel ressalta que as previsões de resultados para eleições presidenciais no Peru e no Equador mostram fortalecimento de candidatos de centro-direita. "Sem juízo de valor, a tendência mostra um isolamento crescente da Venezuela. O risco dessas notas não é tão grande", avalia.

Parte dos diplomatas discorda e vê riscos em um possível afastamento.

"É importante esclarecer que a proximidade com os países vizinhos não é uma diretriz do governo, mas uma prática de Estado iniciada há mais de 100 anos, com o próprio Barão do Rio Branco", diz uma das entrevistadas. Ela teve altos e baixos, mas foi consagrada pela própria Constituição (artigo 4º, parágrafo único)."

domingo, 1 de maio de 2016

Itamaraty se anima com poder de Serra, mas teme absorver comércio

Por Patricia Campos Melo (Folha de S.Paulo, 30/04/2016)

A perspectiva de ter o senador José Serra (PSDB-SP) como próximo chanceler anima o Itamaraty, segundo apurou a Folha. Ter como ministro um político de estatura em vez de um diplomata de carreira fortaleceria o ministério em um momento de fragilidade. Com Serra, o Itamaraty voltaria a ter o peso que não tinha desde a saída do chanceler Celso Amorim, em 2010, acreditam diplomatas.

Mas a possibilidade de transferir a área de comércio exterior para o ministério é alvo de fortes críticas. Um Itamaraty "turbinado" incluiria toda área de comércio exterior, ou somente a Apex, agência que faz promoção comercial. O primeiro cenário gera pânico no Ministério do Desenvolvimento e profundo desagrado no Itamaraty.

"Seria como misturar vinho com azeite", diz uma fonte. São duas carreiras muito diferentes –a política externa segue uma visão de Estado enquanto a política comercial precisa abrir mercados e vender produtos. "É preciso ter um órgão que receba demandas do setor privado, como defesa comercial, e o Itamaraty não pode ser esse órgão, porque vai priorizar as relações diplomáticas com outros países", diz uma fonte do Desenvolvimento. União Europeia, EUA, China e Japão têm ministérios separados para lidar com comércio exterior e diplomacia.

Além disso, a incorporação da área de comércio exterior tomaria muito tempo e talvez nem estivesse pronta até o fim do governo Temer, em 2018.

Pessoas próximas a Temer afirmam que o vice fez a proposta a Serra sem pensar exatamente em como esse Itamaraty "turbinado" sairia do papel, tentando emplacar um "ministério fortalecido" em vez das pastas da Fazenda ou Planejamento, que o tucano preferia.

De qualquer maneira, diplomatas já comemoram a possibilidade de um ministro Serra. "Seria um ministro com acesso ao presidente e ao Ministério do Planejamento, que lidera os cortes de verbas do Itamaraty", diz um diplomata. Entre as mudanças esperadas estariam o fechamento de postos na África, menos ênfase no relacionamento Sul-Sul e uma guinada no Mercosul.

Mas o embaixador Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda que é muito próximo de Serra, com quem conversa regularmente, não acredita em mudanças dramáticas na política para o Mercosul. "Não se sabe se transformar o Mercosul em área de livre comercio traria benefícios e a Argentina agora tem um presidente, Mauricio Macri, que não seria obstáculo a negociações comerciais", diz. Matias Spektor, professor de Relações Internacionais da FGV e colunista da Folha, concorda. "Fazer reformas no Mercosul e no comércio exterior é muito complexo e geraria muitos inimigos", diz.

Em relação à personalidade difícil do senador, um diplomata é pragmático: "Depois de tanto tempo trabalhando com a Dilma, o Serra não seria um problema."

Entre os diplomatas com bom trânsito com o senador tucano estão Sergio Danese, atual secretário-geral do Itamaraty; Santiago Mourão, embaixador em Teerã, Mário Vilalva, embaixador em Lisboa, Marcos Galvão, embaixador junto à OMC, e Roberto Jaguaribe, embaixador em Pequim.

Se o chanceler for mesmo um político, o assessor internacional da presidência, cargo hoje ocupado por Marco Aurelio Garcia, poderia ser um diplomata de carreira, e o nome de Danese surge com força. Segundo um interlocutor de Temer, o vice já teve várias audiências com Danese e a "química foi boa".

segunda-feira, 14 de março de 2016

A bala de prata petista

Por Murillo Victorazzo

Em 2011, seu primeiro ano de governo, Dilma demitiu sete ministros após denúncias de corrupção. Vestia a fantasia da "faxineira ética". Hoje, confirmada a ida de Lula para o ministério, fará o caminho oposto, com agravantes: terá no gabinete a seu lado no Planalto alguém com peso político maior do que o seu, denunciado formalmente e com prisão preventiva pedida. 

Nenhum daqueles ministros demitidos estava tão perto do xadrez como Lula. Um erro triplo: moralmente reprovável, confissão de culpa da parte dele e resignação oficiosa por parte dela. Dilma sucumbiu ao papel de rainha da Inglaterra - sem, claro, o prestígio que Elizabeth tem perante seu povo. 

Sua expectativa é de que Lula consiga realinhar governo, PT e suas bases social e parlamentar, a fim de postergar ou contornar a queda oficial iminente. Mas a única certeza é que, nas ruas, eles e seu partido ficarão ainda mais isolados e rejeitados, o que, na prática, pode - e o que suspeito - catalisar o contrário do projetado. 

Vindo de Dilma, sempre, com razão, ciosa da imagem de mulher de fibra, e de Lula, inegavelmente craque no jogo de xadrez político, o arriscado movimento demonstra o quanto estão acuados e desesperados. Às favas o resto de discernimento. É a "bala de prata" petista.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Ainda os malandros salgueirenses

Por Murillo Victorazzo

Por sua riqueza, apelo, simbolismo e esmerada pesquisa, vale transcrever a justificativa de enredo do carnaval passado do Salgueiro, redigido pelo Departamento Cultural da escola, comandado pelo jornalista João Gustavo Melo:

"A Ópera dos Malandros"

"Um enredo sobre os Malandros reverbera alto no corpo social e na alma mística de uma escola de samba. A identificação direta do sambista com o personagem foi fundamental para trazer para a avenida temas e situações relacionadas a essa figura tão presente no imaginário carioca e brasileiro. Por isso, o Salgueiro se lançou de corpo e espírito nessa história que nos leva a desfilar por aspectos sociais, culturais, históricos e religiosos dos Malandros, que guardam em si um pouco de cada um de nós. Um enredo que, embora prime pela simplicidade e pela linguagem direta, traz em si a complexidade de uma figura que reúne malícia e jogo de cintura diante das dores e delícias do dia a dia.

OS BARÕES DA RALÉ – O Malandro é o herói e o anti-herói brasileiro. Tem em si, ao mesmo tempo, o espírito romântico, estrategista, integrador, cordial e negociador. É carismático, amado, invejado, desejado, temido, perseguido e cultuado. É o sujeito que transita entre as altas castas da sociedade e as camadas mais populares, de onde emergiu para conquistar o seu lugar no mundo. Caminha com desenvoltura entre as classes sociais, no limite entre a polidez exigida pela ordem dos espaços da chamada burguesia com quem convive e a informalidade do povo marginalizado que representa. Mergulhado sem culpa na boemia, sempre às voltas com amores fugazes com mulheres para as quais não importa a “reputação”, “o Malandro traz consigo as marcas do desejo e do prazer, além de representar as pulsões sufocadas pelo homem civilizado, enfim liberadas nas aventurosas e lascivas noites urbanas” (CRISTINO, 2005).

De acordo com o Dicionário da História Social do Samba (LOPES & SIMAS, 2015), uma das hipóteses para a origem da palavra “Malandro” vem do termo malandrino, nome italiano que, entre diversos significados, serve para caracterizar um indivíduo astuto, matreiro e sagaz. Mas como esse tipo se agregou de forma tão definitiva ao tecido social brasileiro? “Segundo Câmara Cascudo, a origem do Malandro surgiu a partir dos filhos dos escravos urbanos alforriados, os quais rejeitando o trabalho formal, com horários rígidos e obrigações definidas, procuravam representar, finda a ordem escravista, o papel do dominador branco” (CASCUDO apud LOPES & SIMAS, 2015). E uma das estratégias para que esse fenômeno acontecesse de fato, foi investir na própria imagem, desvencilhando-se da figura do “pé-de-chinelo”.

DA GINGA E DO BICOLOR NO PÉ – Foi no cenário carioca, especialmente entre os anos de 1920 e 1930, que a caracterização do Malandro de chapéu de palheta, camisa listrada, calça branca e sapato bicolor ganhou as ruas e tornou-se uma espécie de traje típico do homem-sambista-carioca. “O Malandro, com sua indumentária e seus modos sempre característicos e caricaturais, não deixa de ser um oprimido que permanece fantasiado o ano inteiro” (MATOS, 1982). A “fantasia” do Malandro é, portanto, um meio de penetrar onde jamais poderia, não fosse o processo de negociação claramente expresso na própria forma de se apresentar. Não por acaso, tornou-se uma figura tão identificada com o sambista.

O Malandro é, entre outras diversas características, um sujeito galanteador ligado ao prazer, às coisas do mundo e à satisfação imediata. É oprimido por um sistema em que muitas vezes não se encaixa, mas no lugar da revolta, constrói um trajeto original para se afirmar. Afinal, ser Malandro é “viver cada momento intensamente, gozar das delícias do aqui e agora sem pensar nas consequências” (LIGIÉRO, 2004). É o bon vivant das madrugadas, o dono de um universo paralelo onde é rei e senhor. Um mundo noturno, assimétrico, confuso, desordenado, desvairado, desencaixado e, por isso mesmo, absolutamente irresistível.

A ÓPERA E A RUA – Assim como o Malandro transita entre mundos socialmente distintos, o nosso enredo desfila entre a veia erudita da ópera clássica e os códigos populares das escolas de samba. A separação entre a alta e a baixa cultura cai por terra quando a cultura do cotidiano, do povo, dos conhecimentos cultivados nas ruas, mexe despudoradamente com os dogmas que insistem em separar aquilo que o saber popular teima em unir.

A palavra “ópera” surgiu na Itália, no século XVII, e é o plural de “opus”, ou “obra”, em português. As óperas são peças de teatro musical, “às quais se referia, com formulações universais, a dramma per música (drama musical) ou favola in música (fábula musical)” (GONÇALVES, 2011). As montagens das óperas, por sua vez, remetem às tragédias gregas e aos cantos carnavalescos italianos do Século XIV.

Ao traçarmos essa interseção entre a ópera e o carnaval, não há como deixar de lembrar de Joãosinho Trinta. Foi ele, artista maior do espetáculo visual das escolas de samba, revelado no carnaval pelas mãos de Fernando Pamplona, no Salgueiro, o primeiro a associar o desfile à ópera clássica. “O réssigeur é o carnavalesco. O maestro é o mestre de bateria. O enredo é o libreto. A bateria, a orquestra. Enquanto os passistas são o corpo de baile. As alas são o coro e os destaques são os personagens principais da ópera. Os carros alegóricos são a cenografia” (TRINTA apud GOMES, 2008).

É a partir desse cruzamento de linguagens artísticas a que o desfile das escolas de samba se permite, que nos inspiramos a encenar uma ópera popular dividida em seis atos, abordando aspectos da malandragem, tendo como ponto de partida o musical “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque de Hollanda. Assim, procuramos trilhar essa tentadora possibilidade em nome da instigante opção de mostrar diversos aspectos da malandragem, nessa grandiosa ópera de rua chamada carnaval. Mas para mergulharmos nas referências ao musical, é bom entendermos o contexto de sua criação na cena teatral brasileira.

A ÓPERA DO MALANDRO – O ano de 1978 marca a estreia da “Ópera do Malandro”, de autoria de Chico Buarque de Hollanda. A ideia da montagem do espetáculo surgiu de uma conversa entre o autor e o cineasta moçambicano Ruy Guerra, que mais tarde adaptou a peça para as telas do cinema. A Ópera do Malandro é inspirada na “Ópera dos Três Vinténs”, de Bertold Brecht e Kurt Weill, que por sua vez foi adaptada da “Ópera dos Mendigos”, escrita por John Gay, em 1724. Trata-se de uma ópera em formato de pastiche – jogo de imitações com alusões históricas – sobre os grandes espetáculos operísticos da época, que cada vez mais atraía um público burguês ávido por novas formas de entretenimento em obras teatrais e musicais mais dinâmicas.

Foi nesse cenário, ainda no século XVIII, que o pastiche ganhou espaço no circuito das óperas, firmando-se como “uma prática comum em encenações” (STOREY, 2001). Daí surgiu o mote para a adaptação de espetáculos clássicos à realidade carioca, presentes no segundo ato da nossa “Ópera dos Malandros”, com personagens consagrados da ópera clássica incorporados pelo espírito malandreado da nossa gente.

Mas voltando à montagem brasileira da Ópera do Malandro, a peça apresenta os amores, aventuras, tropeços e trapaças de Max Overseas, o herói que vive de golpes e conchavos com o chefe de polícia Chaves. Também fazem parte do musical personagens importantes, como as prostitutas do cabaré dos cafetões Duran e Vitória, pais de Terezinha, jovem que se envolve com o Malandro Max. Outra figura marcante no desenrolar da história é a travesti Geni, apaixonada por Max e que, malandramente, ocupa um lugar de destaque na trama.

A trilha musical da “Ópera dos Malandros” é uma das mais importantes da história do teatro brasileiro. Canções como “Folhetim”, “Terezinha”, “Geni e o Zepelim”, “O Meu Amor”, “Tango do Covil” e “A Volta do Malandro” ecoaram além das salas de espetáculo e viraram sucesso nas vozes de intérpretes consagrados da Música Popular Brasileira, como Gal Costa, Maria Bethânia, Ney Matogrosso e o próprio Chico Buarque.

Vale a pena ressaltar que muitas dessas canções inspiraram fantasias e alegorias presentes no enredo. Entretanto, o desfile das escolas de samba, como uma procissão que mexe profundamente com a porção devota do sambista, também evoca o perfil espiritual da malandragem, fundamental para completar o quadro de aspectos desses místicos protagonistas das ruas.

LAROYÊ, MOJUBÁ, AXÉ! – A apoteose da nossa Ópera dos Malandros, isto é, nosso último ato, representa a as crenças e a divinização dos Malandros, cultuados em terreiros espalhados pelo país. Entidades como Zé da Ginga, Zé Pelintra, Exu Giramundo, Pombas Giras e outras variações geralmente não costumam ser tão abordadas diretamente no carnaval por serem forças etéreas que trazem em si uma energia vital poderosa. Mas não fugimos a esse desafio que nos exigiu muita responsabilidade espiritual.

A saudação ao povo de rua presente nesse desfile não poderia prescindir da apresentação dessas entidades tão louvadas pelos sambistas, especialmente nestes tempos em que a liberdade religiosa é violada no Brasil em diversos episódios recentes de intolerância. Por isso, a Passarela do Samba é o palco maior do nosso canto de paz em respeito a todas as religiões.

Em nome de toda uma nação, o Salgueiro encerra sua ópera pedindo tolerância e respeito, declarando o samba como elemento agregador entre as diversas crenças que coexistem no nosso país. Afinal, o brasileiro carrega na pele e no sangue a marca da diversidade de povos que aqui se estabeleceram ao longo do tempo. Dessa mistura de saberes e credos, surgiu uma sociedade que, acima de tudo, acredita no futuro. A crença no intangível e a fé inabalável no amanhã conduzem nosso povo adiante.

Na luta de cada manhã, a luz do dia que surge após a infinita noite de ilusões, os personagens vestem a fantasia da realidade, tornam-se corpo e carne. Enquanto isso, a alma se guarda para outro momento em que a lua convocará seus reis e rainhas da noite para de novo brilharem num palco sob as estrelas.

Salve a Malandragem!! Laroyê!"