Por Matias Spektor (Folha de S.Paulo, 16/03/2017)
Ganha força na imprensa brasileira a tese segundo a qual as tensões entre Donald Trump e o México criariam uma boa oportunidade para o Brasil. Segundo esse raciocínio, a diplomacia mexicana teria um incentivo para buscar maior convergência com Brasília.
Essa interpretação tem a vantagem de vislumbrar no futuro uma forma de transcender o passado. Brasil e México sempre perderam chances de montar uma aliança. O caso mais dramático ocorreu há 35 anos, quando os dois países deixaram de montar uma coalizão para enfrentar a crise da dívida externa. A nova expectativa de convergência, no entanto, baseia-se em um diagnóstico equivocado.
Trump vai renegociar os termos de seu comércio com o México por meio do unilateralismo agressivo que é sua marca distintiva. No caminho, o presidente agradará a base eleitoral que enxerga a imigração mexicana como problema.
Só que o México não responderá a essas pressões por meio de parcerias alternativas. O país já possui acordos de livre comércio com 43 países diferentes, mas nenhum deles é substituto para os Estados Unidos. A interdependência mexicano-americana é uma força estrutural irreversível.
A estratégia do México será tentar normalizar as relações com Trump. Por isso, seus diplomatas já repetem que a fronteira tem trechos murados há tempos, e que a renegociação do Nafta poderá trazer um bom ajuste para os interesses mexicanos.
Essa estratégia não é de fuga em direção a novos parceiros, mas de redução de danos diante de um vizinho do qual não se pode escapar. Em que pesem as diferenças de tom e linguagem corporal, essa lógica valerá para governos mexicanos de direita e de esquerda.
Nesse sentido, hoje, o maior aliado do México são os equívocos do próprio Trump. Por exemplo, ao abandonar Parceria Transpacífico, o grande acordo comercial proposto por Obama, os americanos perderam um fabuloso instrumento de pressão contra os mexicanos.
É fantasia acreditar que o Brasil possa ser uma alternativa geopolítica de peso para o México. No ranking global de ambiente de negócios, os mexicanos estão na posição 47, o Brasil na 123. Em grau de abertura econômica, 54 contra 70. Em competitividade global, 51 contra 81. A complementaridade entre as economias brasileira e mexicana é baixa, não alta. Quando o tema é política internacional, os interesses e valores das diplomacias brasileira e mexicana nunca são muito coincidentes.
Nada disso significa que o Brasil não deva buscar mais intercâmbio com o México. A relação tem tudo para crescer muito, dada sua atual modéstia. Mas imaginar um realinhamento estratégico graças à chegada de Trump é quimera.
Não, não é um protesto contra o fim da obrigatoriedade de diploma para exercer o jornalismo. Vejo, aliás, prós e contras na resolução do STF. A qualificação profissional se torna ainda mais necessária. Ser jornalista diplomado é orgulhosamente um diferencial. E o blog serve para exteriorizar algumas ideias, destacar notícias que me chamem a atenção e recordar matérias por mim assinadas (publicadas ou não).
quinta-feira, 16 de março de 2017
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Trump abre janela de oportunidade para maior integração na América Latina
Por Oliver Stuenkel (El País, 15/02/2017)
É provável que Donald Trump rompa o consenso articulado 70 anos atrás de que os Estados Unidos devem atuar como âncora do sistema internacional por meio da promoção de normas globais e garantias de segurança a seus aliados. Essa estratégia revisionista de Trump poderá levar à incerteza e à instabilidade na Europa, Ásia e Oriente Médio, onde o recuo dos EUA teria profundas implicações geopolíticas.
No caso da América Latina, as consequências são em grande parte restritas ao âmbito econômico. O Méxicodeverá ser o mais afetado pela abordagem "America First" de Trump. O país tem 80% de suas exportações destinadas a seu vizinho do norte (as quais, por sua vez, possuem 40% de conteúdo dos EUA). Mais da metade de seu investimento estrangeiro direto vem dos Estados Unidos, assim como 26 bilhões de dólares em remessas de mexicanos que vivem nos EUA. Diante disso, o presidente Enrique Peña Nieto se verá forçado a articular a mais profunda reorientação estratégica do país desde a adesão ao Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, na sigla em inglês) em 1994.
O fim do acordo é improvável por enquanto, já que mais de 10 milhões de empregos nos Estados Unidos dependem dele. No entanto, já não se pode mais descartar uma renegociação fundamental do NAFTA — a qual poderia trazer consequências desastrosas para um país cuja economia tem um comércio bidirecional diário de 1,4 bilhões de dólares com os EUA. Em resposta, o México buscará diversificar suas parcerias e, em particular, fortalecer os laços comerciais com a Europa e a Ásia.
Porém, a crise do NAFTA também cria uma janela de oportunidade para o Mercosul se aproximar do México. Além de benefícios econômicos mútuos, laços mais fortes permitiriam aos governos dos países envolvidos coordenarem melhor estratégias para enfrentar os principais desafios regionais, como o tráfico de drogas e armas, a migração, a ascensão da China, a degradação ambiental e a corrupção.
Um dos principais obstáculos à maior integração regional é a divisão existente há anos na América Latina entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul. A relação entre México, membro da Aliança do Pacífico, e Brasil, integrante do Mercosul, exemplifica essa divisão. Apesar de serem as duas principais economias latino-americanas e representar mais da metade do PIB e da população da região, suas visões de mundo são extremamente diferentes.
É provável que Donald Trump rompa o consenso articulado 70 anos atrás de que os Estados Unidos devem atuar como âncora do sistema internacional por meio da promoção de normas globais e garantias de segurança a seus aliados. Essa estratégia revisionista de Trump poderá levar à incerteza e à instabilidade na Europa, Ásia e Oriente Médio, onde o recuo dos EUA teria profundas implicações geopolíticas.
No caso da América Latina, as consequências são em grande parte restritas ao âmbito econômico. O Méxicodeverá ser o mais afetado pela abordagem "America First" de Trump. O país tem 80% de suas exportações destinadas a seu vizinho do norte (as quais, por sua vez, possuem 40% de conteúdo dos EUA). Mais da metade de seu investimento estrangeiro direto vem dos Estados Unidos, assim como 26 bilhões de dólares em remessas de mexicanos que vivem nos EUA. Diante disso, o presidente Enrique Peña Nieto se verá forçado a articular a mais profunda reorientação estratégica do país desde a adesão ao Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, na sigla em inglês) em 1994.
O fim do acordo é improvável por enquanto, já que mais de 10 milhões de empregos nos Estados Unidos dependem dele. No entanto, já não se pode mais descartar uma renegociação fundamental do NAFTA — a qual poderia trazer consequências desastrosas para um país cuja economia tem um comércio bidirecional diário de 1,4 bilhões de dólares com os EUA. Em resposta, o México buscará diversificar suas parcerias e, em particular, fortalecer os laços comerciais com a Europa e a Ásia.
Porém, a crise do NAFTA também cria uma janela de oportunidade para o Mercosul se aproximar do México. Além de benefícios econômicos mútuos, laços mais fortes permitiriam aos governos dos países envolvidos coordenarem melhor estratégias para enfrentar os principais desafios regionais, como o tráfico de drogas e armas, a migração, a ascensão da China, a degradação ambiental e a corrupção.
Um dos principais obstáculos à maior integração regional é a divisão existente há anos na América Latina entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul. A relação entre México, membro da Aliança do Pacífico, e Brasil, integrante do Mercosul, exemplifica essa divisão. Apesar de serem as duas principais economias latino-americanas e representar mais da metade do PIB e da população da região, suas visões de mundo são extremamente diferentes.
Enquanto o México abraçou a globalização econômica liderada pelos Estados Unidos, as elites brasileiras se mantiveram profundamente relutantes ao comércio globalizado, optando por permanecer uma das economias mais fechadas do G20. Quando o México aderiu ao NAFTA e à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), observadores brasileiros concluíram que o México havia se vendido para o Norte e se transformado em um apêndice dos EUA, renunciando à sua identidade latino-americana.
O Brasil articulou ambições geopolíticas maiores, desde o desejo de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU até a decisão de liderar uma missão de paz das Nações Unidas – passos que os observadores mexicanos consideraram megalomaníacos. Com o então presidente Lula, o Brasil concentrou-se na UNASUL, que exclui o México, e exerceu um papel de liderança independente na América do Sul.
Desde a reeleição de Dilma Rousseff em 2014 e a eleição de Mauricio Macri em 2015, fortaleceu-se no Brasil e na Argentina o grupo daqueles que veem uma maior abertura econômica como condição necessária para iniciar o processo de recuperação. Em 2015, Rousseff e Peña Nieto assinaram acordos visando dobrar os volumes de comércio até 2025, e Macri frequentemente articula seu interesse em uma maior aproximação com a Aliança do Pacífico.
Desde a reeleição de Dilma Rousseff em 2014 e a eleição de Mauricio Macri em 2015, fortaleceu-se no Brasil e na Argentina o grupo daqueles que veem uma maior abertura econômica como condição necessária para iniciar o processo de recuperação. Em 2015, Rousseff e Peña Nieto assinaram acordos visando dobrar os volumes de comércio até 2025, e Macri frequentemente articula seu interesse em uma maior aproximação com a Aliança do Pacífico.
Porém, a liberalização do comércio continua sendo altamente seletiva, e as transações comerciais intra-regionais ainda estão entre as mais baixas do mundo. Apesar da retórica pró-comércio adotada por Temer e Macri em reunião recente, os dois presidentes avançaram pouco na eliminação de barreiras que ainda existem dentro do Mercosul devido à busca de proteção para produtos brasileiros e argentinos.
Considerando a situação mexicana, porém, está na hora de articular propostas mais ambiciosas sobre como viabilizar um estreitamento entre o México e o Mercosul. Um elemento-chave será acelerar esforços para assinar um acordo de livre comércio (incluindo a eliminação de barreiras não tarifárias) entre as duas partes – e depois, possivelmente, entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul.
Considerando a situação mexicana, porém, está na hora de articular propostas mais ambiciosas sobre como viabilizar um estreitamento entre o México e o Mercosul. Um elemento-chave será acelerar esforços para assinar um acordo de livre comércio (incluindo a eliminação de barreiras não tarifárias) entre as duas partes – e depois, possivelmente, entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul.
Reduzir barreiras na região criaria incentivos para melhorar a integração física e o potencial para estabelecer cadeias de valor praticamente inexistentes dentro da Aliança do Pacífico e fracos em toda a América Latina. Ao mesmo tempo, devem-se abordar temas não econômicos, incluindo as questões de segurança já mencionadas.
Uma maior integração latino-americana estaria em sintonia com um fenômeno global mais amplo. Como os Estados Unidos desempenharão um papel muito mais limitado tanto no plano econômico quanto no político, haverá mais espaço e necessidade de se fortalecer a cooperação regional. Por exemplo, com a influência de Washington em declínio na Ásia, os laços entre Nova Deli e Tóquio prosperaram.
Uma maior integração latino-americana estaria em sintonia com um fenômeno global mais amplo. Como os Estados Unidos desempenharão um papel muito mais limitado tanto no plano econômico quanto no político, haverá mais espaço e necessidade de se fortalecer a cooperação regional. Por exemplo, com a influência de Washington em declínio na Ásia, os laços entre Nova Deli e Tóquio prosperaram.
É provável que, em resposta a Trump, a União Europeia conseguirá se fortalecer. Com eleições legislativas na Argentina neste ano e eleições presidenciais no México e no Brasil em 2018, o tempo para articular qualquer projeto dessa natureza é curto, e a janela de oportunidade tem prazo limitado. Será uma pena se não for aproveitada.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
El libertador Trump?
Por Murillo Victorazzo
Um dos aspectos da metralhadora verbal e diplomática que Donald Trump apontou para o México diz respeito a toda América Latina. Depois de anunciar a saída dos EUA do TPP, Trump ameaça rever e até sair do Nafta. O país azteca, ligado umbilicalmente aos EUA por razões geográficas e históricas, agora pode ter que virar seus olhos para os "hermanos" abaixo do globo.
Diante dessa expectativa, vários especialistas começaram a advogar que é o tempo do Brasil se aproveitar da orfandade mexicana.
Há muitas décadas, as duas maiores economias da América Latina optaram por caminhos e parceiros diferentes. Bem convivem com a discreta rivalidade na disputa pelo protagonismo na região, refletida, por ex, na pouca simpatia mexicana à busca brasileira por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU e na liderança verde e amarela na idealização da Unasul.
Um dos aspectos da metralhadora verbal e diplomática que Donald Trump apontou para o México diz respeito a toda América Latina. Depois de anunciar a saída dos EUA do TPP, Trump ameaça rever e até sair do Nafta. O país azteca, ligado umbilicalmente aos EUA por razões geográficas e históricas, agora pode ter que virar seus olhos para os "hermanos" abaixo do globo.
Diante dessa expectativa, vários especialistas começaram a advogar que é o tempo do Brasil se aproveitar da orfandade mexicana.
Há muitas décadas, as duas maiores economias da América Latina optaram por caminhos e parceiros diferentes. Bem convivem com a discreta rivalidade na disputa pelo protagonismo na região, refletida, por ex, na pouca simpatia mexicana à busca brasileira por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU e na liderança verde e amarela na idealização da Unasul.
Uma aproximação concreta entre os dois países seria um realinhamento significativo em suas políticas externas, com consequências políticas e comerciais para ambos.
Não cessaria a "disputa", mas o presidente dos EUA, quem diria, estaria dando uma força inesperada na tão cheia de percalços integração regional latina, que, embora varie de intensidade e viés em função do governo de plantão, é objeto perene de desejo do Itamaraty.
Objetivo cujo fim é diminuir justamente a influência do Tio Sam em nosso quintal e aumentar nossa "autonomia". Simon Bolívar sonhava com a América do Sul unida; Trump talvez ajude ir além.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Por que Medellín é tão especial?
Por Silvia Colombo (Folha de S.Paulo, 02/12/2016)
Em seu mais famoso relato de não-ficção, “Notícias de Um Sequestro”, Gabriel García Márquez afirma que os “paisas” (habitantes da região de Antioquia, cuja capital é Medellín) combinavam de uma forma muito particular “a reza e a parranda” (parranda significa festa, de modo geral).
Aos brasileiros que se comoveram com a linda homenagem que o Atlético Nacional de Medellín fez aos jogadores do Chapecoense e às demais vítimas do acidente aéreo desta semana, os “paisas” deram mais uma prova de serem uma sociedade muito especial, dentro de um país que é nosso vizinho, mas que conhecemos tão pouco.
Medellín é colombiana em sua essência, mas possui uma personalidade muito própria, marcada pela solidariedade, pela força dos laços familiares, pela fé, pela religiosidade extrema, e pelo gosto pela festa coletiva.
No livro mencionado, o costenho García Márquez observou os “paisas” quase como um estrangeiro. Gabo nunca viveu em Medellín. Conhecia bem as características dos caribenhos, pois nascera na região, antipatizava levemente com certa arrogância da elitista Bogotá, mas em Medellín se deparou com um desafio.
Em seu mais famoso relato de não-ficção, “Notícias de Um Sequestro”, Gabriel García Márquez afirma que os “paisas” (habitantes da região de Antioquia, cuja capital é Medellín) combinavam de uma forma muito particular “a reza e a parranda” (parranda significa festa, de modo geral).
Aos brasileiros que se comoveram com a linda homenagem que o Atlético Nacional de Medellín fez aos jogadores do Chapecoense e às demais vítimas do acidente aéreo desta semana, os “paisas” deram mais uma prova de serem uma sociedade muito especial, dentro de um país que é nosso vizinho, mas que conhecemos tão pouco.
Medellín é colombiana em sua essência, mas possui uma personalidade muito própria, marcada pela solidariedade, pela força dos laços familiares, pela fé, pela religiosidade extrema, e pelo gosto pela festa coletiva.
No livro mencionado, o costenho García Márquez observou os “paisas” quase como um estrangeiro. Gabo nunca viveu em Medellín. Conhecia bem as características dos caribenhos, pois nascera na região, antipatizava levemente com certa arrogância da elitista Bogotá, mas em Medellín se deparou com um desafio.
Como uma sociedade era capaz de produzir um contexto de extrema violência _que era, exatamente, a razão pela qual ele escrevia sobre ela, afinal, “Notícias” é um relato sobre uma série de crimes cometidos pelo Cartel de Medellín_ e ao mesmo tempo atravessar esses anos de forma tão compacta, tão forte, e com tanta união entre seus cidadãos?
A literatura mesmo oferece outras chaves. Uma obra de um antioquenho célebre, “El Olvido que Seremos”, de Hector Abad Faciolince, vai no centro da questão. Trata-se de um relato memorialista. O autor teve o pai assassinado por paramilitares quando ele pouco mais que um adolescente.
Já sabemos isso desde o começo, mas o livro tem uma força desde a primeira linha, porque Abad Faciolince o constrói para mostrar não como era a violência em Medellín, apesar de esta ser o pano de fundo o tempo todo, mas sim como era o círculo de amizades, afetos e familiares na Medellín em que ele cresceu, em tempos tão difíceis.
Além das inovações nos transportes, houve também grande investimento na rede de museus e bibliotecas. Mas, novamente, elas de nada adiantariam se, como no caso do “metrocable”, não fossem abraçadas e incorporadas pela sociedade. Essas obras são concebidas para serem inclusivas e acessíveis, e assim foram recebidas.
Entre a costa alegre e festeira e a capital sofisticada e europeia, Medellín é uma Colômbia à parte. Uma sociedade também da montanha, com fama de trabalhadora e religiosa, e que aprendeu, ao longo de décadas de percalços, a ser solidária para atravessar junta períodos difíceis.
Já é hora de parar de associar Medellín ao perigo e à violência. E sim de celebrar Medellín por sua imensa generosidade, e por ser capaz de chorar mortos que não são os seus, de estender a mão ao outro que está sofrendo, mesmo que este seja um desconhecido. De unir “reza e parranda” também para consolar o próximo em um momento de terrível luto como o que assistimos nesta semana.
Foi bonita e emocionante a festa, Medellín. Gracias.
A literatura mesmo oferece outras chaves. Uma obra de um antioquenho célebre, “El Olvido que Seremos”, de Hector Abad Faciolince, vai no centro da questão. Trata-se de um relato memorialista. O autor teve o pai assassinado por paramilitares quando ele pouco mais que um adolescente.
Já sabemos isso desde o começo, mas o livro tem uma força desde a primeira linha, porque Abad Faciolince o constrói para mostrar não como era a violência em Medellín, apesar de esta ser o pano de fundo o tempo todo, mas sim como era o círculo de amizades, afetos e familiares na Medellín em que ele cresceu, em tempos tão difíceis.
Apesar de a história terminar com uma tragédia, encerra-se também com uma mensagem de esperança. A de que a força está no outro, no apoio dos que te rodeiam, sejam eles de seu próprio sangue ou não.
Medellín carrega de modo sofrido esse rótulo de ter sido, por vários anos, uma das cidades mais violentas do planeta. Justamente durante os tempos da atuação do cartel liderado por Pablo Escobar. Não ajuda nada que tanto se celebre sua imagem como ícone cultural nos dias de hoje. Escobar precisa ser mostrado e entendido para jamais ser repetido. Não estampado em camisetas vendidas nas esquinas das grandes cidades como se fosse um ídolo nacional.
Mas o que vale ressaltar aqui é o que Medellín conquistou depois de 1993, ano em que o chefão do narcotráfico foi morto. Muitos apontam que a esperança surgiu com uma série de gestões de prefeitos e governadores progressistas, com uma visão de que mudanças urbanísticas poderiam transformar a sociedade.
De fato, a aposta, iniciada por Sergio Fajardo quando foi prefeito da cidade (2003-2007) foi correta. Mas não basta para explicar porque a cidade, de sangrenta e perigosa, se transformou em uma urbe moderna e generosa.
Medellín carrega de modo sofrido esse rótulo de ter sido, por vários anos, uma das cidades mais violentas do planeta. Justamente durante os tempos da atuação do cartel liderado por Pablo Escobar. Não ajuda nada que tanto se celebre sua imagem como ícone cultural nos dias de hoje. Escobar precisa ser mostrado e entendido para jamais ser repetido. Não estampado em camisetas vendidas nas esquinas das grandes cidades como se fosse um ídolo nacional.
Mas o que vale ressaltar aqui é o que Medellín conquistou depois de 1993, ano em que o chefão do narcotráfico foi morto. Muitos apontam que a esperança surgiu com uma série de gestões de prefeitos e governadores progressistas, com uma visão de que mudanças urbanísticas poderiam transformar a sociedade.
De fato, a aposta, iniciada por Sergio Fajardo quando foi prefeito da cidade (2003-2007) foi correta. Mas não basta para explicar porque a cidade, de sangrenta e perigosa, se transformou em uma urbe moderna e generosa.
Andar de “metrocable”, o sistema de teleféricos que une periferia e centro, poderia ter se transformado apenas numa facilidade para as pessoas que vivem no subúrbio chegarem mais rápido ao trabalho. Mas não, o “metrocable” virou também passeio de fim de semana. É ao mesmo tempo um modo de famílias de classe média levarem os filhos para conhecer as partes altas da cidade como um meio para que os habitantes das favelas tenham acesso mais rápido às ofertas de diversão do centro, entre elas o futebol.
Além das inovações nos transportes, houve também grande investimento na rede de museus e bibliotecas. Mas, novamente, elas de nada adiantariam se, como no caso do “metrocable”, não fossem abraçadas e incorporadas pela sociedade. Essas obras são concebidas para serem inclusivas e acessíveis, e assim foram recebidas.
Entre a costa alegre e festeira e a capital sofisticada e europeia, Medellín é uma Colômbia à parte. Uma sociedade também da montanha, com fama de trabalhadora e religiosa, e que aprendeu, ao longo de décadas de percalços, a ser solidária para atravessar junta períodos difíceis.
Já é hora de parar de associar Medellín ao perigo e à violência. E sim de celebrar Medellín por sua imensa generosidade, e por ser capaz de chorar mortos que não são os seus, de estender a mão ao outro que está sofrendo, mesmo que este seja um desconhecido. De unir “reza e parranda” também para consolar o próximo em um momento de terrível luto como o que assistimos nesta semana.
Foi bonita e emocionante a festa, Medellín. Gracias.
O jornalista é notícia? Xi, deu merda
Por Murillo Victorazzo
Nunca trabalhei com Guilherme Marques nem o conhecia de fato, a não ser de vista. Mas alguns amigos tiveram essa oportunidade, e diante de seus desabafos hoje, não poderia escolher outro para ainda expressar, após tamanha comoção nas redes sociais o dia inteiro, o meu misto de incredulidade e pesar (sim, hoje chorar não foi força de expressão). Não mais como um desses milhões de brasileiros loucos por futebol, perplexos com a triste ironia que o destino reservou ao Chapecoense, a, como estampou o diário esportivo espanhol "As", "linda menina" que "apaixonou o Brasil", após o feito histórico de semana passada. Sobre esse meu lado, me tornaria repetitivo.
Aqui, agora, é o jornalista que fala mais alto, ainda me lembrando das palavras de Galvão Bueno no arrepiante encerramento da emocionante edição de hoje do JN: "Os jogadores sempre serão os protagonistas, mas é através dos jornalistas que essa paixão chega a vocês". Pois é, em um momento tão triste, paradoxalmente, por segundos, despertou em mim um sentimento bom, o do orgulho pela profissão.
Guilherme, além de tudo, começou na imprensa carnavalesca. Salgueirense (na foto, com o mestre Marcão), amava o samba e agora estava no esporte. Quem me conhece não terá dificuldades de encontrar nele gostos comuns aos meus e entender por que, dentre tantas, sua morte me tocou tanto mais.
Que Deus te proteja onde agora estiver, garoto. É em seu nome, mas com os outros vinte no coração - impossível não bater palmas para Vitorino Chermont, um dos melhores repórteres esportivos do país -, que encho o peito pra dizer o quanto é bom poder chamá-los de "coleguinhas".
A maior tragédia do futebol brasileiro ter vindo junto a maior do jornalismo deste país foi uma porrada forte demais. Porém, talvez faça sentido. Este dia 29/11 nos mostrou um outro lado, aquele com que ninguém gostaria de ter se deparado, de uma obviedade que até então só conseguia ver com satisfação: futebol e jornalismo são indissociáveis.
Na faculdade, um professor gostava de repetir a máxima de que, se o jornalista é notícia, é porque deu alguma merda. Tenho certeza que ele não imaginava o tamanho e o sentido da merda de hoje. Que merda. (foto: página oficial do Salgueiro)
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Para Irã, demonstrar força junto com abertura faz parte do plano
Por Thomas Erdbrink (New York Times/UOL, 27/10/2016)
Assim como opositores conservadores do acordo nuclear feito com o Irã avisaram, Teerã parece estar se movimentando agressivamente para expandir sua influência regional enquanto trabalha para conter os interesses americanos em todo o Oriente Médio.
No entanto, assim como os proponentes do acordo prometeram, o Irã também está se abrindo aos poucos, fechando contratos com empresas ocidentais, criando conexões de telefone com os Estados Unidos, aumentando a velocidade da internet, dando boas-vindas às hordas de turistas europeus e afrouxando algumas restrições sociais para seu próprio povo.
O que pareceria uma bizarra contradição é na verdade uma política de duas vias cuidadosamente pensada pelo líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e pelo círculo de líderes ao seu redor.
Os generais iranianos estão conduzindo a guerra em solo na Síria. Consultores iranianos estão treinando milícias xiitas que lutam no Iraque e na Síria. Armas iranianas e outros tipos de apoio estão ajudando os rebeldes houthis no Iêmen.
Além de sancionar as pegadas militares mais agressivas do país na região, Khamenei tem feito regularmente discursos contra os Estados Unidos, prometendo que não haverá uma flexibilização na posição de Teerã contra o Grande Satã, ao mesmo tempo em que abre as portas para o capital e as técnicas do Ocidente.
No entanto, embora o presidente Hassan Rouhani enfrente ataques dos conservadores linha-dura, Khamenei quase sempre o protege, pelo menos não publicamente.
"Sim, é parte de nossa nova política mostrar nossa força, mas também tentar nos aproximarmos do Ocidente", diz Saeed Laylaz, um economista e analista político próximo do governo de Rouhani. "Ambos pretendem fortalecer nosso país e aumentar nossa influência. Contradição? Estamos fazendo exatamente o que os Estados Unidos têm feito há décadas."
Não há muita dúvida de que o Irã esteja exercendo um maior poder na região. Nos campos de batalha da Síria, consultores iranianos e "voluntários"—muitas vezes milícias afegãs e xiitas— estão lutando e morrendo ao lado de tropas do governo sírio para expulsar os rebeldes de Aleppo.
Perto de Mosul, no Iraque, as Forças de Mobilização Popular, outro nome para dezenas de milícias xiitas, estão se guiando por outros consultores, normalmente associados à força de elite Quds da Guarda Revolucionária.
Com a região em meio a tanta turbulência, esse pode parecer um momento inoportuno para flexibilizar as restrições em acordos de negócios com o Ocidente e nas liberdades pessoais em casa. Mas é exatamente isso que parece estar acontecendo. As mudanças estão vindo aos poucos e podem ser revertidas a qualquer momento, mas elas são inegáveis, dizem os analistas.
A mudança mais óbvia é na política. Depois de dominar por 15 anos, a fação linha-dura do Irã —uma elite conservadora de clérigos, líderes militares e políticos— sofreu uma série de derrotas.
O testa-de-ferro deles, o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, se tornou o símbolo de uma nação que recusa qualquer concessão. "O Irã nunca vai fazer concessões a seu programa nuclear", costumava prometer Ahmadinejad.
Mas em 2012, um ano antes de terminar o mandato de Ahmadinejad, Khamenei permitiu que seus representantes contatassem os Estados Unidos para discutir exatamente essas concessões.
Desde então, os conservadores linha-dura perderam todas as batalhas para um grupo de tecnocratas e moderados que eram os únicos no pequeno establishment do país capazes de conversar com o Ocidente.
Durante as eleições de 2013, os linhas-duras perderam para o moderado Rouhani. Recentemente, Khamenei descartou qualquer perspectiva de uma volta de Ahmadinejad, que ainda é o único conservador com muitos seguidores.
Por dois anos durante as negociações com os Estados Unidos e outras potências mundiais sobre a questão nuclear, os linhas-duras se declararam contra qualquer tipo de concessão. Perderam. Eleições parlamentares? Perderam também.
Os linhas-duras se declararam contra qualquer tipo de investimento estrangeiro, liberdade na internet, mais visitas de estrangeiros, shows e menos polícia da moral nas ruas. Em todas essas questões, eles perderam ou foram amplamente ignorados.
E isso não é por acaso, dizem os analistas.
Vem da decisão de Khamenei de liberar o Irã —por ora, pelo menos— de uma interpretação rígida de sua ideologia revolucionária e de encerrar o isolamento que dificultou a economia e frustrou jovens iranianos que ansiavam viver em um país "normal".
Aos 77 anos, e com pelo menos uma internação em anos recentes por câncer de próstata, Khamenei parece determinado, enquanto ainda tem poder total, a fazer as mudanças essenciais para o Irã realinhar relações com o mundo, dizem os analistas.
"Na visão de Khamenei, nós deveríamos ser como a China", diz Hamidreza Taraghi, um analista com ligações próximas dos linhas-duras. "Tendo relações econômicas com o Ocidente, mas sem sua influência política e neocolonização."
Assim, as restrições de visto foram afrouxadas e as políticas de investimentos estrangeiros foram relaxadas, enquanto os diplomatas iranianos estão disseminando a mensagem de que o Irã é o último grande mercado inexplorado do mundo.
"Precisamos das técnicas ocidentais e dos investimentos ocidentais", diz o economista Laylaz. "Agora que as sanções não estão mais no nosso caminho, estamos nos aproximando do Ocidente pelo dinheiro e pelo conhecimento deles. Mas, é claro, não queremos a política deles."
Rene Harun, um expatriado alemão e diretor da Câmara de Indústria e Comércio Alemã-Iraniana, fala de uma "nova era" na república islâmica. "O governo está dando grandes passos para melhorar a economia", ele diz.
Nos últimos meses, o iraniano médio tem notado algumas bem-vindas mudanças também. A internet, que por muito tempo foi mantida lenta pelas autoridades, está visivelmente mais rápida, o suficiente para assistir vídeos online, algo que nunca fora possível antes. A televisão estatal criou novos canais digitais, introduzindo mais comédias e até mesmo uma versão persa de "House of Cards", série do Netflix.
O Parlamento, livre da dominação por parte dos linhas-duras pela primeira vez em mais de uma década, pediu por restrições sobre a pena capital, mais liberdade de imprensa e reintegração de uma política mulher que foi barrada depois de aparecer em fotos sem o véu islâmico obrigatório.
"No geral há esperança, e embora precisemos ver ainda como isso se dará e quanto tempo levará, as pessoas estão esperando pelo futuro mais do que antes", diz Nazanin Daneshvar, a presidente da Takhfifan, um site de compras com desconto.
Ao mesmo tempo, Khamenei tem feito o possível em seus pronunciamentos públicos para garantir a seus apoiadores linhas-duras que sua visão de uma teocracia islâmica conservadora em oposição aos EUA e ao Ocidente ainda tem muita influência. Em um discurso feito na semana passada, por exemplo, ele disse que "os problemas entre o Irã e os EUA nunca serão resolvidos."
Khamenei também emite alertas frequentes sobre o Estado Islâmico, que em sua essência é uma violenta insurgência sunita que representa uma ameaça ao Irã xiita. Ele diz que se deve ou combater os militantes na Síria, ou combatê-los nas cidades iranianas ocidentais de Kermanshah e Hamadan.
Embora as ações militares do país pareçam distantes da vida cotidiana para muitos iranianos, elas de fato se alinham com as visões frequentemente nacionalistas da população. "O Irã deveria ser forte e influente", diz Mohammad Heydari, ex-jornalista. "É só olhar para o mapa, ver onde estamos localizados e o tamanho do nosso país, que você vai entender."
As guerras também podem servir como uma distração, talvez aplacando os linhas-duras em um momento em que os limites ideológicos também estão sendo ultrapassados, e acontecimentos que antes pareciam impossíveis, como a compra de aviões americanos, agora se dão regularmente.
Publicamente, Khamenei costuma criticar o acordo nuclear, mas os linhas-duras mais influentes entendem que foi ele o arquiteto do pacto. Ele também não impediu as conversas entre a Boeing e a empresa nacional Iran Air, embora o acordo que está surgindo vá resultar em relações de negócios de grande escala com os Estados Unidos.
"Muitas coisas no Irã são ditas para consumo doméstico", diz Amir Kavian, um analista político próximo do movimento reformista iraniano. "Não devemos levar as coisas tão a sério. As ações falam mais alto que as palavras."
Tanto a abertura parcial do Irã para o Ocidente quanto seu envolvimento nos conflitos do Oriente Médio são conduzidos por Khamenei, de acordo com analistas.
"Todas as principais políticas externas e internas são comandadas pelo líder", diz Taraghi, o analista político linha-dura. No entanto, ele diz, os ocidentais não deveriam alimentar a esperança de que haja mudanças profundas e significativas no Irã.
No entanto, assim como os proponentes do acordo prometeram, o Irã também está se abrindo aos poucos, fechando contratos com empresas ocidentais, criando conexões de telefone com os Estados Unidos, aumentando a velocidade da internet, dando boas-vindas às hordas de turistas europeus e afrouxando algumas restrições sociais para seu próprio povo.
O que pareceria uma bizarra contradição é na verdade uma política de duas vias cuidadosamente pensada pelo líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e pelo círculo de líderes ao seu redor.
Os generais iranianos estão conduzindo a guerra em solo na Síria. Consultores iranianos estão treinando milícias xiitas que lutam no Iraque e na Síria. Armas iranianas e outros tipos de apoio estão ajudando os rebeldes houthis no Iêmen.
Além de sancionar as pegadas militares mais agressivas do país na região, Khamenei tem feito regularmente discursos contra os Estados Unidos, prometendo que não haverá uma flexibilização na posição de Teerã contra o Grande Satã, ao mesmo tempo em que abre as portas para o capital e as técnicas do Ocidente.
No entanto, embora o presidente Hassan Rouhani enfrente ataques dos conservadores linha-dura, Khamenei quase sempre o protege, pelo menos não publicamente.
"Sim, é parte de nossa nova política mostrar nossa força, mas também tentar nos aproximarmos do Ocidente", diz Saeed Laylaz, um economista e analista político próximo do governo de Rouhani. "Ambos pretendem fortalecer nosso país e aumentar nossa influência. Contradição? Estamos fazendo exatamente o que os Estados Unidos têm feito há décadas."
Não há muita dúvida de que o Irã esteja exercendo um maior poder na região. Nos campos de batalha da Síria, consultores iranianos e "voluntários"—muitas vezes milícias afegãs e xiitas— estão lutando e morrendo ao lado de tropas do governo sírio para expulsar os rebeldes de Aleppo.
Perto de Mosul, no Iraque, as Forças de Mobilização Popular, outro nome para dezenas de milícias xiitas, estão se guiando por outros consultores, normalmente associados à força de elite Quds da Guarda Revolucionária.
Com a região em meio a tanta turbulência, esse pode parecer um momento inoportuno para flexibilizar as restrições em acordos de negócios com o Ocidente e nas liberdades pessoais em casa. Mas é exatamente isso que parece estar acontecendo. As mudanças estão vindo aos poucos e podem ser revertidas a qualquer momento, mas elas são inegáveis, dizem os analistas.
A mudança mais óbvia é na política. Depois de dominar por 15 anos, a fação linha-dura do Irã —uma elite conservadora de clérigos, líderes militares e políticos— sofreu uma série de derrotas.
O testa-de-ferro deles, o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, se tornou o símbolo de uma nação que recusa qualquer concessão. "O Irã nunca vai fazer concessões a seu programa nuclear", costumava prometer Ahmadinejad.
Mas em 2012, um ano antes de terminar o mandato de Ahmadinejad, Khamenei permitiu que seus representantes contatassem os Estados Unidos para discutir exatamente essas concessões.
Desde então, os conservadores linha-dura perderam todas as batalhas para um grupo de tecnocratas e moderados que eram os únicos no pequeno establishment do país capazes de conversar com o Ocidente.
Durante as eleições de 2013, os linhas-duras perderam para o moderado Rouhani. Recentemente, Khamenei descartou qualquer perspectiva de uma volta de Ahmadinejad, que ainda é o único conservador com muitos seguidores.
Por dois anos durante as negociações com os Estados Unidos e outras potências mundiais sobre a questão nuclear, os linhas-duras se declararam contra qualquer tipo de concessão. Perderam. Eleições parlamentares? Perderam também.
Os linhas-duras se declararam contra qualquer tipo de investimento estrangeiro, liberdade na internet, mais visitas de estrangeiros, shows e menos polícia da moral nas ruas. Em todas essas questões, eles perderam ou foram amplamente ignorados.
E isso não é por acaso, dizem os analistas.
Vem da decisão de Khamenei de liberar o Irã —por ora, pelo menos— de uma interpretação rígida de sua ideologia revolucionária e de encerrar o isolamento que dificultou a economia e frustrou jovens iranianos que ansiavam viver em um país "normal".
Aos 77 anos, e com pelo menos uma internação em anos recentes por câncer de próstata, Khamenei parece determinado, enquanto ainda tem poder total, a fazer as mudanças essenciais para o Irã realinhar relações com o mundo, dizem os analistas.
"Na visão de Khamenei, nós deveríamos ser como a China", diz Hamidreza Taraghi, um analista com ligações próximas dos linhas-duras. "Tendo relações econômicas com o Ocidente, mas sem sua influência política e neocolonização."
Assim, as restrições de visto foram afrouxadas e as políticas de investimentos estrangeiros foram relaxadas, enquanto os diplomatas iranianos estão disseminando a mensagem de que o Irã é o último grande mercado inexplorado do mundo.
"Precisamos das técnicas ocidentais e dos investimentos ocidentais", diz o economista Laylaz. "Agora que as sanções não estão mais no nosso caminho, estamos nos aproximando do Ocidente pelo dinheiro e pelo conhecimento deles. Mas, é claro, não queremos a política deles."
Rene Harun, um expatriado alemão e diretor da Câmara de Indústria e Comércio Alemã-Iraniana, fala de uma "nova era" na república islâmica. "O governo está dando grandes passos para melhorar a economia", ele diz.
Nos últimos meses, o iraniano médio tem notado algumas bem-vindas mudanças também. A internet, que por muito tempo foi mantida lenta pelas autoridades, está visivelmente mais rápida, o suficiente para assistir vídeos online, algo que nunca fora possível antes. A televisão estatal criou novos canais digitais, introduzindo mais comédias e até mesmo uma versão persa de "House of Cards", série do Netflix.
O Parlamento, livre da dominação por parte dos linhas-duras pela primeira vez em mais de uma década, pediu por restrições sobre a pena capital, mais liberdade de imprensa e reintegração de uma política mulher que foi barrada depois de aparecer em fotos sem o véu islâmico obrigatório.
"No geral há esperança, e embora precisemos ver ainda como isso se dará e quanto tempo levará, as pessoas estão esperando pelo futuro mais do que antes", diz Nazanin Daneshvar, a presidente da Takhfifan, um site de compras com desconto.
Ao mesmo tempo, Khamenei tem feito o possível em seus pronunciamentos públicos para garantir a seus apoiadores linhas-duras que sua visão de uma teocracia islâmica conservadora em oposição aos EUA e ao Ocidente ainda tem muita influência. Em um discurso feito na semana passada, por exemplo, ele disse que "os problemas entre o Irã e os EUA nunca serão resolvidos."
Khamenei também emite alertas frequentes sobre o Estado Islâmico, que em sua essência é uma violenta insurgência sunita que representa uma ameaça ao Irã xiita. Ele diz que se deve ou combater os militantes na Síria, ou combatê-los nas cidades iranianas ocidentais de Kermanshah e Hamadan.
Embora as ações militares do país pareçam distantes da vida cotidiana para muitos iranianos, elas de fato se alinham com as visões frequentemente nacionalistas da população. "O Irã deveria ser forte e influente", diz Mohammad Heydari, ex-jornalista. "É só olhar para o mapa, ver onde estamos localizados e o tamanho do nosso país, que você vai entender."
As guerras também podem servir como uma distração, talvez aplacando os linhas-duras em um momento em que os limites ideológicos também estão sendo ultrapassados, e acontecimentos que antes pareciam impossíveis, como a compra de aviões americanos, agora se dão regularmente.
Publicamente, Khamenei costuma criticar o acordo nuclear, mas os linhas-duras mais influentes entendem que foi ele o arquiteto do pacto. Ele também não impediu as conversas entre a Boeing e a empresa nacional Iran Air, embora o acordo que está surgindo vá resultar em relações de negócios de grande escala com os Estados Unidos.
"Muitas coisas no Irã são ditas para consumo doméstico", diz Amir Kavian, um analista político próximo do movimento reformista iraniano. "Não devemos levar as coisas tão a sério. As ações falam mais alto que as palavras."
Tanto a abertura parcial do Irã para o Ocidente quanto seu envolvimento nos conflitos do Oriente Médio são conduzidos por Khamenei, de acordo com analistas.
"Todas as principais políticas externas e internas são comandadas pelo líder", diz Taraghi, o analista político linha-dura. No entanto, ele diz, os ocidentais não deveriam alimentar a esperança de que haja mudanças profundas e significativas no Irã.
Tradução: UOL
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
Na ONU, Temer se legitima junto à comunidade internacional
Por Matias Spektor (Folha de S.Paulo, 22/09/2016)
A estreia de Michel Temer na política internacional é uma obra em três atos: a reunião do G-20, a Assembleia Geral das Nações Unidas e uma visita à Argentina, daqui a dez dias. Ao fim do périplo, o governo terá encerrado a longa transição.
Claro e direto, o discurso de Temer na ONU reafirmou pautas tradicionais da diplomacia brasileira, algumas das quais defendidas com vigor pelo PT. Da necessidade de compensar os perdedores da globalização à reforma do Conselho de Segurança, ele passou em revista toda a agenda diplomática.
Em seu melhor momento, o presidente bateu forte contra as mensagens do candidato republicano Donald Trump: Temer celebrou a abertura americana para Cuba, comemorou o acordo nuclear com o Irã, aplaudiu compromissos formais sobre mudança do clima, denunciou a xenofobia e a proliferação nuclear. Na sequência, encontrou-se com o vice de Obama.
As diferenças com o PT ficaram claras. Ao prometer uma "diplomacia com os pés no chão", Temer marcou distância do que vê como exuberância irresponsável na diplomacia petista. Naquele dia, sua imagem no púlpito da ONU contrastou com a de Lula na Lava Jato e a de Dilma na campanha municipal de Jandira Feghali.
Antes de Temer discursar, Venezuela, Equador e Nicarágua saíram do plenário. Tendo em vista o autoritarismo cleptocrata de seus presidentes, muitos acharam que o gesto depôs a favor do governo brasileiro. Costa Rica também saiu, mas sua chancelaria soltou nota minimizando o ocorrido.
Em Nova York, Temer ouviu seu colega uruguaio pedir a restauração das boas relações, depois da fricção. O presidente de Portugal afirmou que a Comunidade de Países de Língua Portuguesa quer um novo capítulo com o Brasil, tamanha a irritação com o tratamento dispensado ao grupo por Dilma.
A visita de Temer à ONU também teve silêncios. Na expectativa de baixar o fogo, ele nada disse sobre a situação na Venezuela. E, para perplexidade geral, o presidente nem sequer mencionou a palavra "corrupção", tema que chacoalha com vigor a sociedade que ele representa.
Sobre a crise global dos refugiados, não propôs nada. Pelo contrário, apresentou números inflados de quanta gente recebemos. A pedalada estatística é uma herança do governo Dilma, quando se fez uma gambiarra jurídica para receber milhares de haitianos sem violar a legislação sobre a matéria. Temer poderia ter dito que seu próprio líder no Senado apresentou um projeto de lei que, com apoio das principais organizações de direitos humanos, promete começar a modernizar o tratamento da questão. Buenos Aires é a próxima parada.
A estreia de Michel Temer na política internacional é uma obra em três atos: a reunião do G-20, a Assembleia Geral das Nações Unidas e uma visita à Argentina, daqui a dez dias. Ao fim do périplo, o governo terá encerrado a longa transição.
Claro e direto, o discurso de Temer na ONU reafirmou pautas tradicionais da diplomacia brasileira, algumas das quais defendidas com vigor pelo PT. Da necessidade de compensar os perdedores da globalização à reforma do Conselho de Segurança, ele passou em revista toda a agenda diplomática.
Em seu melhor momento, o presidente bateu forte contra as mensagens do candidato republicano Donald Trump: Temer celebrou a abertura americana para Cuba, comemorou o acordo nuclear com o Irã, aplaudiu compromissos formais sobre mudança do clima, denunciou a xenofobia e a proliferação nuclear. Na sequência, encontrou-se com o vice de Obama.
As diferenças com o PT ficaram claras. Ao prometer uma "diplomacia com os pés no chão", Temer marcou distância do que vê como exuberância irresponsável na diplomacia petista. Naquele dia, sua imagem no púlpito da ONU contrastou com a de Lula na Lava Jato e a de Dilma na campanha municipal de Jandira Feghali.
Antes de Temer discursar, Venezuela, Equador e Nicarágua saíram do plenário. Tendo em vista o autoritarismo cleptocrata de seus presidentes, muitos acharam que o gesto depôs a favor do governo brasileiro. Costa Rica também saiu, mas sua chancelaria soltou nota minimizando o ocorrido.
Em Nova York, Temer ouviu seu colega uruguaio pedir a restauração das boas relações, depois da fricção. O presidente de Portugal afirmou que a Comunidade de Países de Língua Portuguesa quer um novo capítulo com o Brasil, tamanha a irritação com o tratamento dispensado ao grupo por Dilma.
A visita de Temer à ONU também teve silêncios. Na expectativa de baixar o fogo, ele nada disse sobre a situação na Venezuela. E, para perplexidade geral, o presidente nem sequer mencionou a palavra "corrupção", tema que chacoalha com vigor a sociedade que ele representa.
Sobre a crise global dos refugiados, não propôs nada. Pelo contrário, apresentou números inflados de quanta gente recebemos. A pedalada estatística é uma herança do governo Dilma, quando se fez uma gambiarra jurídica para receber milhares de haitianos sem violar a legislação sobre a matéria. Temer poderia ter dito que seu próprio líder no Senado apresentou um projeto de lei que, com apoio das principais organizações de direitos humanos, promete começar a modernizar o tratamento da questão. Buenos Aires é a próxima parada.
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