Não, não é um protesto contra o fim da obrigatoriedade de diploma para exercer o jornalismo. Vejo, aliás, prós e contras na resolução do STF. A qualificação profissional se torna ainda mais necessária. Ser jornalista diplomado é orgulhosamente um diferencial. E o blog serve para exteriorizar algumas ideias, destacar notícias que me chamem a atenção e recordar matérias por mim assinadas (publicadas ou não).
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022
O meme como política externa
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022
Não culpem a vítima
Por Murillo Victorazzo
Uma das bases teórica do antissemitismo nazista talvez seja umas das primeiras “fake news” da História: os Protocolos dos Sábios de Sião, falso texto produzido no final do sec XIX por grupos ligados ao czar russo. No livro - distorções de um congresso religioso - haveria as provas do plano judeu de dominar o mundo.
Na Alemanha, foi publicado no final da I Guerra Mundial, momento em crescia o sentimento de humilhação entre os alemães. Entre seu leitores, Hitler, para quem o judaísmo, assim, seria o responsável pelos males do país: tanto o capitalismo liberal ( “banqueiros”, “mídia”) como o socialismo/comunismo (além de Marx, Trotsky e outros dirigentes tinham ascendência judaica).
Afirmar que a repercussão do caso Monark deveu-se porque “judeus têm muito poder” é, portanto, reverberar, de certa forma, o antissemitismo. Se chorumes sobre racismo (contra pretos) e homofobia ditos recentemente não tiveram o mesmo resultado, foi porque esse país não se olha no espelho, não quer desnaturalizar seus males estruturais, cujos sintomas imageticamente mais sutis ajudam os sofismas do preconceituoso e suas indignações seletivas. Diz mais sobre o Brasil como nação.
Os alemães sentem e difundem a vergonha de seu passado. O nazismo, que perseguiu também outras minorias, é a política de desumanização de grupos raciais (vistos como ameaça ou inferioridade) mais escancarada do séc. XX mundial. Não culpem a vítima.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022
Olavão e o bolsonarismo, o capítulo final
Por Wilson Gomes* ( Revista Cult, 28/01/2022)
Nesta semana morreu pela última vez Olavo de Carvalho. Já havia sido dado por morto algumas vezes, inclusive politicamente, mas esta foi a derradeira. Morreu “por cima”, embora em evidente decrepitude, pois poucos ideólogos tiveram a fortuna de falecer enquanto seus alunos e seguidores assentavam-se no trono ou se espalhavam pela corte como vencedores.Há de ser por isso que foi objeto de uma das raras manifestações de pesar emanadas pelo presidente da República, que decretou um dia de luto oficial e declarou que havia morrido um gigante na luta pela liberdade e um farol para os brasileiros. Todos sabem o quanto Bolsonaro e o bolsonarismo lhe devem, mas essa relação era complicada.
De uma maneira paradoxal, Olavo de Carvalho foi efetivamente um sujeito brilhante, a começar pela habilidade de autopromoção. Um homem que, a despeito de ser versado apenas em astrologia e autoindulgência, conseguiu convencer milhões de adultos, dentre os quais uma dúzia de pessoas razoavelmente inteligentes, de que era um pensador profundo e original.
Não era. Era um leitor tendencioso, superficial e de interpretações forçadas do pensamento alheio, e, sobretudo, era um escritor de pensamento confuso, raso e contraditório que citava muito e assimilava nada. Era basicamente um autodidata, portanto, sem formação consistente no sentido estrito do termo, que escolhia as obras que lia segundo suas intenções beligerantes, e as lia apenas para confirmar o seu ponto de vista ou para refutar o que se chocava com suas crenças. Nunca para realmente entendê-las.
Por outro lado, escrevia e falava como um pregador que conhecia bem o coração do seu auditório e sabia para onde levá-lo. Sobretudo porque dele se acercavam outros autodidatas, gente sem formação nem discernimento, aquela típica população em que o sujeito nem é muito estúpido nem muito inteligente, até se vira com ideias e leituras, mas é incapaz de uma interpretação profunda e de perceber contradições e falácias. Nem tem instrumentos intelectuais para contestar o mestre. Por isso a anedota corrente, atribuída a Ruy Castro, não sei se é verdade, de que Olavo era considerado um imbecil pelos filósofos e um filósofo pelos imbecis. Assino embaixo da primeira parte.
Por mais de 30 anos, Olavo foi uma espécie de napoleão de hospício: alucinado, preso em seus devaneios e com delírios de poder. Considerava-se imenso e o repetia com despudor. Mas foi um napoleão que conseguiu convencer todo o sanatório, médicos e enfermeiros inclusive, de que era o próprio Bonaparte. Olavo suspeitava que era o Deus Optimus Maximus, seus seguidores têm certeza disso. Sorte a dele, pois como se diz naquele ditado romano, beati monoculi in terra caecorum.
Por isso mesmo, foi tão influente. Olavão teve o mérito de coletar todos os delírios da direita norte-americana, empacotá-los de maneira atraente para os conservadores brasileiros, dar-lhes um verniz pretensamente intelectual, com o famoso truque da chuva de citações, como se decorressem de investigações profundas e de reflexões densas e originais. Com isso, o maluco à cata de uma causa, o conservador complexado que se orientava por sentimentos reacionários, mas não tinha argumentos para sustentá-los, o fanático fundamentalista político que precisava situar o seu ódio em algum projeto existencial, o wannabe intelectual carente de um mestre, toda essa gente passou a ter um eixo, uma agenda, um conjunto de crenças que estruturavam minimamente a nebulosa de sentimentos e intuições que habitavam.
Esse foi um papel exercido de forma magnífica por Olavão, que representou muito bem o personagem do profeta destemido e desbocado, afrontoso e planejadamente desagradável, cujo estilo era baseado no insulto, no insistente autoelogio e na degradação dos adversários. A polêmica na sua forma mais vulgar, a da briga de rua, do vale-tudo, da difamação do adversário, era base do seu estilo. Olavão era o rei do ad hominem, o príncipe do xingamento, o imperador dos impropérios. E ai de quem fosse por ele transferido do catálogo de seguidores e aliados para a caixa dos ingratos, traidores e detratores, tratado doravante por apelidos degradantes e objeto dos ataques e da fúria do mestre que os excomungara.
Por outro lado, Olavo de Carvalho antecipou em mais de uma década a transformação digital da pregação e da discussão política. Quando os intelectuais brasileiros consideravam “a internet” uma coisa elitista, sem alcance e esvaziada de sentido, Olavão já estava fazendo discípulos e aliciando para os seus cursos online no Orkut. Pelo menos uma década antes que a expressão “influenciador digital” aparecesse no jornalismo popular, Olavão já doutrinava no YouTube. Olavo plataformizou a formação de seguidores quando isso tudo ainda era mato.
Por fim, devo dizer que se engana, contudo, quem acha que o olavismo é igual ao bolsonarismo ou que exista uma continuidade entre uma coisa e outra. É certo que o olavismo precedeu em mais de duas décadas o bolsonarismo, é exato considerar que Olavo foi uma espécie de João Batista para Jair, mas entre os dois há continuidades, sim, mas muito mais descontinuidades.
Primeiro, o bolsonarismo é um movimento social e uma forma de militância, o olavismo é uma ideologia ou, para não lhe conceder mais do que merece, um conjunto de premissas ideológicas que vertebrou o bolsonarismo. Se é demais dizer que moldou o pensamento bolsonarista (o bolsonarismo dificilmente pode ser acusado de pensar), pelo menos lhe deu os slogans, as palavras-chaves, as figuras do imaginário e uns scripts fundamentais para usar nas suas histórias e nos complôs que imagina. Sem falar na inspiração para a afronta, para uma atitude beligerante perpétua, para transformar todos os críticos em comunistas, para ganhar discussões sem ter razão, à base de ofensas, palavrões e acusações.
Segundo, mesmo quando o olavismo conseguiu se institucionalizar, com olavistas ocupando, por exemplo, postos-chaves nos Ministérios da Educação ou das Relações Exteriores, isso durou pouco, pois não resistiu ao conflito com outras forças políticas que competem no interior do bolsonarismo, como os militares e os partidos fisiológicos de direita. Logo, logo, o “núcleo ideológico” do governo, o olavismo institucional, foi abandonado.
Por isso mesmo é que Olavão morreu brigado com Bolsonaro. Ele não só já não era mais necessário ao governo, como havia se transformado em um estorvo para os Bolsonaros, com seu ego imenso para o qual eles tudo lhe deviam e não pagavam como era de se esperar, com a sua enorme capacidade de fogo cerrado contra quem há pouco era amigo, com a sua habilidade para procurar brigas e fazer inimigos.
Terceiro, Olavo era de certo modo muito mais radical que Jair. Por seu desejo expresso, isso aqui já era para ser uma ditadura militar faz tempo, com esquerda fuzilada, prisão e tortura de opositor. Ele achava os militares uns frouxos e Bolsonaro um incapaz, além de pouco inteligente, ambos por não terem radicalizado a conquista do poder pela direita conservadora. É que Olavo, diferentemente de Bolsonaro e dos militares, vivia perenemente no mundo da vontade e da representação. Tinha, portanto, a liberdade de vociferar o que quer que lhe passasse pela cabeça. Cabeça esta que morreu sem jamais ter sido visitada por qualquer ideia democrática, republicana ou liberal.
Por fim, Olavo desprezava a inteligência de Bolsonaro e dos bolsonaristas. Achava-os incapazes e estúpidos e repetia isso toda a vez que não se sentia reconhecido ou recompensado. Quanto a isso… bem, sobre isso não há dúvida, tenho que concordar, enfim, com os seus discípulos: Olavo tem razão.
* Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas.
domingo, 30 de janeiro de 2022
Olavo de Carvalho resolveu ficar no lado burro da cultura ocidental
Por Celso Rocha de Barros ( Folha de São Paulo, 31/01/2022)
Em um dado momento da vida, Olavo de Carvalho resolveu ir morar no lado burro da cultura ocidental. Tornou-se politicamente influente quando o Brasil se tornou seu vizinho. Se Olavo de Carvalho tivesse morrido, digamos, em 2001, talvez tivesse entrado para a história como um agitador cultural de certo interesse. Já tinha defeitos seríssimos, mas formou alguns alunos bons, que depois abandonaram seu grupo. Divulgava autores conservadores que podem ter sido importantes para os jovens conservadores dos anos 90. Escrevia bem.No começo dos anos 2000, Lula foi eleito presidente e Olavo foi morar nos Estados Unidos, em circunstâncias estranhíssimas. A partir daí, sua inserção no debate brasileiro muda. Conforme o PT se fortalece, aumenta a demanda por ideias que descrevessem o PT como um participante ilegítimo da democracia brasileira (um braço do Foro de São Paulo, por exemplo). E Olavo adquire o repertório do conspiracionismo reacionário americano, que exacerba seus piores defeitos.
Como divulgador dos influencers da extrema direita americana, conquistou uma audiência razoável na internet brasileira. Se tivesse ficado só nisso, já teria causado algum dano ao nosso debate público. Mas, sejamos honestos, os alunos do "Curso Online de Filosofia" já eram burros antes da matrícula.
Olavo só veio para a primeira divisão em 2018, quando o Brasil caiu para a última. O bolsonarismo adotou o olavismo como ideologia oficial do movimento. Era importante ter uma ideologia oficial, fosse qual fosse. Bolsonaro queria ter um movimento seu, pessoal, que o ajudasse a não ser controlado pelos militares que o cercavam. O sectarismo de Olavo foi instrumental para isolar os bolsonaristas em uma bolha relativamente isolada da discussão (e das denúncias) da grande mídia.
No meio bolsonarista, Olavo floresceu: nunca houve a menor possibilidade de alguém no bolsonarismo saber que ele estava errado sobre Kant, Marx ou Rorty. O atual ministro da Cultura estava na novela "Mutantes", da TV Record. Se Olavo lhe dissesse que Heidegger era uma das Paquitas, o ministro acreditaria.
E foi assim que um sujeito em franca decadência intelectual, que achava Isaac Newton burro e não sabia se a terra era plana ou esférica, indicou, não um, mas dois ministros da Educação brasileiros, além do pior chanceler do mundo. As ideias dos extremistas americanos que Olavo trouxe para o Brasil tiveram evidente influência na atitude negacionista do bolsonarismo diante da pandemia. Olavo defendia um golpe militar abertamente desde o impeachment de Dilma.
E agora morreu Olavo, depois de anos ensinando a direita brasileira a desconfiar da democracia e da ciência. O que devemos nos perguntar é: como o Brasil decaiu a ponto de Olavo ter se tornado mais influente à medida que se deixava degenerar intelectual e moralmente? Por que não houve uma resposta de direita racional à crise do petismo? A direita brasileira é poderosa demais para ter que se preocupar com bons argumentos? Havia defeitos nas ideias de esquerda que facilitaram a proliferação de respostas tão ruins? Em que momento nos tornamos incapazes de falar sobre nossos problemas e começamos a delirar?
E, sobretudo: como se sai desse sonambulismo?
quarta-feira, 26 de janeiro de 2022
As "Terras de Sangue" e a "civilização ocidental" de Bolsonaro: as contradições vêm à tona
Por Murillo Victorazzo
"Terras de Sangue" é como o historiador norte-americano Timothy Snyder denomina, em seu livro com o mesmo título, o largo espaço territorial no leste europeu onde se cruzaram as ambições de Hítler e Stálin. Entre a Polônia e o oeste da Rússia, passando por Ucrânia, Bielorrússia e países bálticos, 14 milhões de pessoas foram assassinadas entre 1932 e 1945 tanto pelo III Reich quanto pelo Politburo soviético.Por três anos, os ucranianos padeceram com os devaneio sanguinários de Hitler. Embarreirado pelo domínio naval britânico à oeste e no Pacífico, o ditador via na União Soviética a saída para seu almejado império territorial. Conforme suas próprias palavras, um ariano "Jardim do Éden", despovoado de eslavos, onde, no pós-guerra, se desenvolveria uma colônia agrícola e energética (Generalplan Ost) para a Alemanha e um gigantesco campo de deportação, trabalho forçado e assassinato de judeus (a "Solução Final"). Com esse objetivo, Hitler mandou às favas as regras tradicionais de guerra. Isentou suas tropas de responsabilidade legais e, além de execuções sumarias, fez da inanição arma de aniquilamento de civis e militares soviéticos.
Foram, porém, as atrocidades russas as que mais deixaram marcas na Ucrânia. Havendo já sofrido por séculos cerceamento político, econômico e cultural pelo Império russo, o país padeceu diante de dois genocídios perpetrados pelo ditador comunista. Entre 1932 e 1933, com o Holomodor ("A Grande Fome"), quando a feroz retaliação, através do confisco de alimentos e sementes, contra os camponeses que resistiam à coletivização de terras piorou as consequências sociais inevitáveis da ineficácia daquela política. Para Stálin, aqueles agricultores não eram vítimas, mas culpados pelo seu fracasso, boicotadores inimigos da revolução.
Depois, durante o "Grande Terror" ( 1937-38), o país tornou-se um dos principais palcos do expurgo que atingiu o próprio partido comunista e a NKVD, mas majoritariamente grupos nacionais vistos por Stálin como agentes externos que ameaçavam a integridade do Estado soviético - lógica diferente do marxismo-leninismo e seu internacionalismo proletário. Através da fome, fuzilamento e deportações para os gulags (campos de trabalho forçado na Sibéria ou Cazaquistão), os dois extermínios totalizaram cerca de quatro milhões de mortes. Os primeiros sinais de democracia só viriam com a independência ucraniana na década de 90.
Assim como todos os demais países circunscritos nas "terras de sangue", é bastante relevante a presença de grupos étnicos vizinhos na Ucrânia. Ainda hoje pouco menos de 25% de sua população é de origem russa, em sua maioria concentrados no sul e especialmente leste do país, locais onde o russo é o idioma principal. Esse perfil multinacional de Estados com fronteiras impostas de cima para baixo por tratados e guerras é crucial para entender os conflitos na região.
A presença de russos, bielorrussos e ucranianos justificou a invasão da metade oriental da Polônia em 1939. Era necessário, segundo Stálin, defendê-los daqueles que estavam invadindo a metade ocidental - os alemães, com quem, em cláusula secreta do pacto Molotov-Ribbentrop, compactuara a divisão do leste europeu em duas de influência.
Do mesmo modo, a considerável comunidade russa na Ucrânia e Bielorrússia sempre embasou os tentáculos de Moscou, dos mais leves aos mais severos, sobre ambos. A própria Rússia é um país multiétnico. "A Rússia nunca foi um Estado-nação como entendemos esse conceito no Ocidente. A Rússia foi um império, mas nunca um Estado-nação", diz Mira Milosevich, analista para Rússia e Eurásia do Real Instituto Elcano da Espanha, à BBC News.
Com a desintegração da União Soviética, "tudo que havia sido construído em mais de mil anos foi em grande parte perdido", diz Milosevich. Um sentimento de humilhação não apenas politica e econômica, mas cultural. Tamanha perda de identidade levou Putin a considerar o colapso soviético, independente de sua crítica ideológica àquele regime, como "a maior catástrofe geopolítica do século 20": "Foi a desintegração da Rússia histórica sob o nome de União Soviética".
O despencar da Cortina de Ferro aparentava ser o "fim da História", como o cientista político conservador Francis Fukoyama definiu a aparente hegemonia irreversível da democracia e do capitalismo liberais, em um sistema internacional unipolar liderado os Estados Unidos. A fragilidade de uma Rússia em transição foi entendida por Washington, seja no governo republicano de George W. Bush ou do democrata Bill Clinton, como oportunidade para expandir a OTAN para o leste. A letargia de Moscou em algum momento terminaria. Era preciso aproveitar aquele vácuo temporário para fortalecer a aliança antes que o inimigo acordasse.Somente após a assinatura do acordo tripartite que cedeu aos russos as armas nucleares em território ucraniano em troca de garantias a respeito da soberania de Kiev, os Estados Unidos puderam iniciar sua política de "portas abertas". Entre 1997 e 2009, República Checa, Hungria, Polônia, Bulgária, Romênia, Eslováquia, Eslovênia, Croácia e Albânia ingressaram na aliança. Em 2004, para ainda maior incômodo russo, seguiram o mesmo caminho as ex-repúblicas soviéticas bálticas Estônia, Letônia e Lituânia. A desconfiança se instalava definitivamente no Kremlin. A sensação de traição se juntara ao de humilhação.
Os disfuncionais anos liberais de Yeltsin e sua errática transição democrática reforçaram a sensação de um país em colapso e permitiram ao Ocidente colocar em prática sem maiores resistência suas pretensões. A ascensão de Putin a partir do inicio deste século, porém, alterou a correlação de forças. Com ele, reemergia o que Aleksandr Dugin, cientista político e considerado referência intelectual do presidente russo, define como "eurasianismo": uma concepção de ordem multipolar crítica à hegemonia norte-americana e que "preconiza a integração, na base da civilização comum", do território do antigo império russo ou da União Soviética".
Tornava-se, portanto, prioridade a restauração do status de potência da Rússia após uma década em que consideram terem sido mantidos à margem das principais decisões do mundo. "Putin se vê como o salvador da Rússia", resume Milosevich. Reemergia o ideal, intrínseco à grande parte da sociedade do país, da "Grande Rússia". E, além da Bielorrússia, sob a ótica dessa identidade eurasiana, nenhum outro país é tão visto como "quintal" como a Ucrânia. Um sentimento que encontra raízes ainda antes dos czares, na Kievan Rus, a medieval federação eslava que reunia boa parte do que são hoje os três países e cuja capital era a hoje capital ucraniana. A Rússia nasceu em Kiev, já escreveu Putin.
Para ele, se não é possível reaver como antes as terras ucranianas e seu consequente amplo acesso ao Mar Negro, é inaceitável perdê-las de sua órbita. "O Ocidente pensa que a União Soviética era somente uma criação comunista e aqueles Estados eram independentes antes dela. Nunca existiram como Estados e representam apenas distritos administrativos sem nenhum significado histórico ou político dentro do Império russo ou da União Soviética. Foram criados com suas atuais fronteiras após o colapso soviético", argumentou Dugin em entrevista à Folha de São Paulo, em 2014.
A crescentes receitas do petróleo ofereceram a Putin os meios econômicos para seu projeto. A modernização das Forças Armadas se insere nesse contexto como ponto fundamental. Recuperava com ela o poder de barganha russo, para além de suas ogivas nucleares nem sempre funcionais para certos tipos de deterrência. Hoje, em proporção ao PIB, os gastos com defesa do país são maior que os dos Estados Unidos e cerca do dobro dos membros da OTAN. Como exemplo, em uma década, mais de mil aeronaves foram adquiridas, segundo o Kremlin
Contudo, embates internos no governo e os fracassos nos índices econômicos reforçaram a oposição e, em 2010, Yanukovych foi eleito, sinalizando uma volta ao colo da Mãe Rússia. Entre suas promessas, a paralização do processo de adesão à OTAN e tornar o russo o segundo idioma oficial do país. Yushchenko, porém, mostrou no decorrer de seu governo autonomia maior do que Moscou esperava.
Em março de 2014, o ataque de um desses grupos à base do Exército ucraniano em Sinferopol, na Crimeia, península onde, por acordo, sedia-se também a frota naval russa no Mar Negro, veio acompanhado de uma silenciosa e fulminante invasão russa à região. Voluntários civis se somaram ao que acreditavam ser a "libertação da Crimeia". Uma ocupação necessária para proteger a maioria russa ali presente, segundo Putin, em retórica semelhante a de Stálin.
Uma certeza apenas há: cenários assim, entre blefes e guerra de informações, não raramente saem do controle. Nesta segunda-feira, 24, a OTAN informou que seus integrantes estão colocando tropas em prontidão para reforçar as forças aliadas no leste europeu. Perto de dez mil soldados norte-americanos foram colocados em alerta para, se necessário, serem enviados a esses países. Familiares dos funcionários das embaixadas dos Estados Unidos e Reino Unidos começaram a ser retirados da Ucrânia. Washington recomendou a todos seus cidadãos no país a saída imediata.
Mas, nesse jogo de xadrez, os custos do Ocidente não se resumem às consequências diretas e locais do conflito. O comandante da Marinha alemã, Kay-Achim Schönbach, teve que se demitir semana passada por, além de considerar a Crimeia um "caso perdido", afirmar que não custa nada dar a Putin o que ele quer e "provavelmente merece": "apenas respeito". Talvez o almirante esteja equivocado sobre o presidente russo, mas é inegável seu acerto ao observar: "Precisamos da Rússia para conter a China".
Cuba e Venezuela receberam, nos últimos anos, grande volume de investimentos estatais da Moscou, cujo apoio foi fundamental para Maduro se segurar no poder até hoje. Putin criticou diversas vezes a "interferência externa" na infindável crise política venezuelana, enquanto aumentava as joint-ventures entre as duas gigantescas companhias petrolíferas. Calcula-se que, em seus cerca de 20 anos, o chavismo gastou US$ 11 bilhões em armamentos russos.
Desde sua eleição, Bolsonaro tomou como estratégia de inserção internacional um bandwagoning (alinhamento automático) ainda mais problemático do que os de costume. Optou por ir à reboque menos da superpotência do que dos interesses e ideologia do seu inquilino até 2020. Reverberou Trump, exaltado pelo ex-chanceler Ernesto Araújo como o "único homem capaz de salvar o Ocidente". Um Ocidente propagandeado como sinônimo de "civilização judaico-cristã", termo por si só controverso, mas que sustenta, a partir da teoria do "choque de civilizações" desenvolvida pelo influente cientista político republicano Samuel Huntington, o discurso político do Islã como ameaça principal a Washington.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2021
A sanha em aparelhar
Orçamento, não é de hoje, é produto de choques de prioridades e interesses. Bolsonaro certamente não é o primeiro a priorizar bases eleitorais. Distingue-se, porém, pelo contexto. Pressionar o Congresso a abrir espaço para aumento salarial de uma categoria, em meio a perdas econômicas disseminadas em toda a população, é por si só dar brecha para a bola de neve que já se inicia, com outros setores do serviço público, alguns há mais tempo defasados, ameaçando greve e demissões.
Bolsominions e seu mito não entendem o que é liderar
Sim, os "bolsominons", como é conhecida a militância fiel do presidente da República, estão achando normal um chefe de Estado ficar se exibindo risonho, de férias, nas praias catarinenses, enquanto, no Nordeste, um estado do país supostamente comandado por ele afunda na tragédia de dezenas de mortos e milhares de desabrigados. Apenas porque liberou nada mais que uns protocolares milhões de reais e sobrevoou por umas horas a região semanas atrás, antes de a situação degringolar para o triste quadro atual.
Esperar que montasse na Bahia um gabinete de crise com sua presença, eu sei, seria esperar demais de Bolsonaro. Mas choca a falta de compreensão dele e de seus simpatizantes do papel de liderança - e da empatia inerente a ela- em momentos em que são mais exigidas. Ignoram o sentido imagético de governar. São incapazes de notar a necessidade de enviar uma mensagem tão propagada na caserna que ele tanto diz representar: se não na linha de frente da batalha, voltar já ao quartel (Planalto), porque o comandante sou eu.
Adestramento ideológico infantiliza, e Bolsonaro é apenas um deslumbrado com as benesses do poder, sem ainda não ter entendido o seu significado. Isso que dá eleger alguém que só sabe vociferar contra a miragem do comunismo, estimular descrença nas instituições e vomitar falsos moralismos.