sexta-feira, 26 de abril de 2013

Progresso silencioso

Por Matias Spektor*  (Folha de São Paulo, 17/04/2013)

O governo norte-americano começa a preparar um possível encontro entre Dilma e Obama.Na perspectiva de Washington, isso é bom porque o relacionamento bilateral vem avançando positivamente. Longe dos holofotes e sem alarde, as duas diplomacias têm encaminhado pendências em temas como comércio, investimento e tributação.

Em silêncio, dissiparam o mal-estar característico dos últimos meses do governo Lula e avançaram em novas áreas: a Casa Branca considerou a postura de Dilma diante da sucessão presidencial venezuelana como "excelente" e não apenas entende, como aprecia, o modo brasileiro de lidar com Cuba. Acha que conversar reservadamente com o Brasil sobre África e Oriente Médio é útil, não mera formalidade.

O avanço mais palpável talvez seja na área de cooperação naval. Almirantes dos Estados Unidos são, na capital americana, os defensores mais influentes da ideia de um Brasil em ascensão. Nada disso significa que a relação esteja atravessando uma lua de mel. Há fricções de baixa intensidade que não vão desaparecer e sérios problemas de percepção mútua.

A diplomacia americana é tão orgulhosa quanto a brasileira e frustra-se cada vez que, em foros multilaterais ou grandes encontros Sul-Sul, Brasília dialoga ou coopera com Washington em privado, mas a esbofeteia em público. Idem para o argumento da Esplanada segundo o qual a política monetária americana seria causa de todo mal --proposição sem amparo nas análises econômicas mais sérias.

Mas o avanço é inegável, graças ao trabalho de bastidor das duas diplomacias. O próximo encontro poderá render excelentes frutos. Como Dilma tem a agonia de quem precisa vencer uma corrida eleitoral, enquanto Obama tem a flexibilidade do último mandato, as condições são boas para o Brasil pedir concessões e levar.

Isso importa porque Obama receberá, neste ano, boa parte dos líderes das chamadas Aliança do Pacífico e da Parceria Transatlântica, as duas iniciativas comerciais mais importantes dos últimos tempos. Juntas, elas pretendem destravar o comércio internacional. Representam, no entanto, um duro golpe contra os pilares da estratégia comercial brasileira, Mercosul e Organização Mundial do Comércio.

Em uma conjuntura na qual há muita coisa em jogo, é crucial que o governo brasileiro monte uma visita presidencial possante. Possante de verdade. Imagine Dilma no Congresso dos EUA, onde há inédita boa vontade porque senadores e deputados disputam investimentos brasileiros.

Imagine uma campanha de marketing para promover a marca Brasil antes da viagem, método simples e barato que nunca foi testado. Imagine uma presidente que encontra representantes dos mais de 2,5 milhões de brasileiros que moram nos Estados Unidos, força que todo mundo ignora.

Imagine o anúncio da política de conteúdo local do pré-sal em coletiva para a imprensa internacional antes da reunião no Salão Oval. O progresso silencioso dos últimos dois anos criou as condições para avançar. Pé no acelerador.

*Matias Spektor é professor de relações internacionais da FGV-Rio. Trabalhou na ONU antes de completar seu doutorado na Universidade de Oxford.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Qual socialismo cabe em Caracas?

Por Clóvis Rossi (Folha de São Paulo, 07/03/2013)

O socialismo do século 21 de Hugo Chávez é menos socialista que o do século 20, se por socialismo se entender a estatização dos meios de produção. 
É o que mostra o Banco Central da Venezuela: o reinado de Chávez aumentou, sim, a participação do Estado na economia, mas o setor privado ainda responde por 58,2% do Produto Interno Bruto. O Estado avançou de 35%, quando Chávez assumiu, em 1999, para 41,8% em 2012.

A pergunta seguinte é óbvia: se, como parece mais provável hoje, Nicolás Maduro se eleger presidente, haverá mais avanço do Estado ou alguma recuperação do setor privado? 
A boa lógica manda cravar a segunda hipótese. Simples de explicar: o vice-presidente é tido como homem de confiança da liderança cubana, uma das razões, talvez a principal, para que tenha sido ungido por Chávez como seu sucessor.

Se Cuba está abrindo espaço para o setor privado, não faria sentido recomendar o contrário a Maduro. 
Até porque a liderança cubana tem interesse vital em que a Venezuela dê certo: de 20% a 22% da economia cubana é gerado pela estreita associação com a Venezuela.

E, para a Venezuela dar certo, é indispensável refazer as pontes com o setor privado. Não bastam os programas sociais que fizeram a glória eleitoral de Chávez e serão parte fixa da agenda política venezuelana pelo futuro previsível. 
Para manter tais programas, o setor privado terá que ser chamado a cooperar porque o papel do Estado como locomotiva econômica aproxima-se da exaustão.

A ineficiência da economia venezuelana reflete-se em dois fenômenos que minam a popularidade de qualquer governo: inflação exagerada (20,1% em 2012, o mais alto índice da América Latina) e desabastecimento (20,4% dos produtos que os consumidores pedem na rede comercial não estavam disponíveis em janeiro).

Para não falar no deficit público, que, em 2012, situou-se na altura de 11,9% do PIB, patamar insustentável no médio prazo e que, obviamente, dificulta a expansão do gasto público, principal motor do crescimento de 45% que a economia da Venezuela conheceu nos anos Chávez.

Há, portanto, razões de sobra para supor que Maduro, se de fato se eleger, olhará menos para o socialismo cubano do século 20 e mais para o "lulismo", cujo líder "também fez do 'povo' e do alívio da pobreza uma prioridade, e, com melhor gerenciamento e sem a polarização no confronto com o 'império', teve impressionante sucesso", como escreve Jon Lee Anderson para a "New Yorker".

Até porque rótulos como "socialismo do século 21" contam pouco ou nada para as massas, como depõe para "El País" Beatriz Lecumberri, ex-chefe do escritório da agência France Presse em Caracas: "O socialismo e a luta contra o capitalismo não impregnaram um povo consumista, individualista e convencido de que o petróleo resolverá seus problemas".

Ou, como dizia o então líder chinês Deng Xiaoping, "não importa a cor do gato, desde que ele pegue o rato". 
Maduro terá, pois, que decidir com que socialismo pegar o rato da prosperidade venezuelana.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Chávez: nem Deus, nem o diabo

Por Murillo Victorazzo

Chávez não era o generoso democrata, salvador dos latinos americanos, como alguns da esquerda preferiam acreditar.Tampouco era o diabo na Terra, o "anti-Cristo", o "herdeiro" de Stálin, um perigo para o Brasil (seria o mesmo que o gato ter medo do rato), como a direitona conservadora, representada por colunistas como Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Diogo Mainardi, pregava.

A receita do petróleo, que, até sua eleição, ia apenas para as mãos de uma elite corrupta e parasita, com ele, chegou ao andar debaixo. Com a criação das "missões", financiada por este dinheiro, Chávez fez por merecer toda a admiração e gratidão que os mais pobres lhe dedicavam.

Em seu governo, a pobreza na Venezuela caiu mais de 20%, e o país passou a registrar a menor desigualdade entre ricos e pobres entre nações latino-americanas, de acordo com relatório da ONU. As taxas de analfabetismo e de mortalidade infantil despencaram.

Por outro lado, embora seus fanáticos defensores não queiram ver, era sim um protoditador. Ainda que não haja notícias de mortos e desaparecidos políticos, perseguiu adversários, restringiu liberdades individuais, prinicipalmente a de expressão, e, pior, deu respaldo a terroristas como os das Farc.

Sua plataforma econômica, exageradamente estatista/nacionalista, já se mostrava inflacionária. O desabastecimento é um drama cotidiano para venezuelanos. Sua retórica antiamericana era não apenas demagógica e anacrônica como hipócrita: 75% das exportações de petróleo vão para o Tio Sam.

Na balança dos prós e contras, Chávez criou um regime que não deve ser seguido por país algum. Mas não se pode negar: seu estilo caudilho boquirroto externava uma personalidade polarizadora e contraditória, como de tantos outros líderes da História.

Contradição que pode ser sintetizada no fato de ter sido um projeto de tirano com respaldo - não apenas uma vez - do voto popular.

terça-feira, 5 de março de 2013

O tiro no pé italiano: um país à beira do abismo

Por Murillo Victorazzo

Ao colocar seu cargo à disposição e antecipar as eleições gerais, o primeiro-ministro italiano, Mário Monti, desejava dar ao povo a chance de formar um governo mais forte, capaz de atravessar a tempestade da grave crise econômica sem maiores indefinições. Seria necessário um governo avalizado pelo eleitorado para   prosseguir nas reformas necessárias.

Monti sabia que seu severo pacote de austeridade fiscal seria reprovado pelo voto popular. Diante de tamanha recessão e desemprego, os italianos extravasariam nas urnas sua indignação. Após os intermináveis escândalos, a centro-direita do famigerado Sílvio Berlusconi parecia não ter fôlego para voltar ao poder. A vitória cairia no colo da centro-esquerda de Pier Bersani.

O que ele não imaginava, mais do que obter meros 10% dos votos, é que o pleito fosse ter efeito inverso. Para formar o necessário governo de maioria, Bersani precisava que sua coligação levasse metade mais dos parlamentares na Câmara e no Senado. Conseguiu na primeira, mas não no segundo. A pulverização do eleitorado em três partes quase iguais embaralhou o jogo parlamentar, que poderia se ajustar com alianças se não fossem o segundo e terceiro colocados quem são.

Para a perplexidade e deboche dos mercados e imprensa mundiais, as urnas mostraram um Berlusconi ainda com força - mais do que se suponha e se desejava (menos de um ponto percentual atrás do centro-esquerdista) - e revelou ao planeta o comediante Beppe Grillo. Este, sem dúvida, a maior e mais desagradável surpresa. O grande responsável por Bersani ter "vencido, mas não levado", como o próprio admitiu.

A complicada situação econômica exacerbou o desencanto dos italianos com os políticos tradicionais, que não cansam de ilustrar o noticiário com escândalos de corrupção. Grillo foi a voz do protesto de um povo desiludido, apreensivo com o futuro. O outsider que costuma aparece em cenários similares em todos os cantos do mundo. Seu partido, que se diz movimento, não tem sede nem hierarquia: todos militantes debatem pelas redes sociais. Vendeu-se como o "diferente de tudo que está aí", um homem íntegro e idealista.

Não há, até hoje, motivos para duvidar do caráter de Grillo. No entanto, uma pessoa que se dispõe a posar quase nu na capa de uma revista para fazer propaganda não pode ser levada a sério. Alguém que nega a política ao entrar nela é, querendo ou não, nada mais do que um populista. Dizer-se apolítico é a forma mais conveniente - e temerária - de se fazer política.  Apenas o radicalismo prosaico e presunçoso explica um postulante a premier ter como o lema um palavrão. Em seus discursos, mandava "todos" (os políticos) para "aquele lugar" como se fosse um mantra.

Pode-se até tentar compreender a reação do eleitor, considerado irresponsável por muitos na mídia europeia. Ele responde com fígado o que seu estômago e bolso sentem. Mas espera-se de quem deseja liderar uma nação ou ser o porta-voz das sonhadas transformações o discernimento entre política e politicagem. Deve-se combater a segunda, nunca a primeira.

Pregar e praticar a ética, ainda que necessário, não é o suficiente para querer liderar uma nação. Voto de protesto, sem consistência, é bom para movimento estudantil, não para formar um governo. Agora, com o cacife de um quarto dos votos, Grillo dá sinais de que não se aliará a ninguém. Logo que os resultados saíram, chamou Bersani de "morto que fala", ao insinuar que não dará voto de confiança a coalizão alguma. Por não entender que se aliar a alguém não significa torna-se igual ao aliado, sinaliza preferir ver o circo pegar fogo.

Sem maioria, Bersani não conseguirá formar um governo, e o presidente Giorgio Napolitano acabará obrigado a convocar novas eleições. Aos olhos da população, significará que o poço do descalabro do sistema político atual é ainda mais fundo. Quanto maior for a indignação, ainda maior será o número de votos em mim, deve pensar o comediante. Nada mais do que uma tática maquiavélica.

A favor de Grillo, seus aliados afirmam que ele não poderia  receber mais de 8 milhões de votos prometendo se livrar do sistema estabelecido e logo depois se aliar à "velha guarda". Decepcionaria seus eleitores. Embora plausível, do ponto de vista deles, tal argumento, por si só, explica o perigo de candidaturas deste tipo em um parlamentarismo. Tendem a se ver no dilema de ou engolir algum grau de pragmatismo, correndo o risco de, à primeira vista, desiludir os seus, ou cair na armadilha da inoperância.

Ainda mais preocupante é quando, majoritários, os "puros" descambam para a caça às bruxas messiânica. Historicamente, o autoritarismo foi seu fim. A retórica niilista de que nada presta, de aversão às instituições da democracia representativa, produziu na própria Itália, Benito Mussolini. Pavimentou, numa Alemanha caótica, a estrada de Adolf Hitler.

Não por acaso, ano passado, no rastro dessa mesma crise, o mundo se assustou com a expressiva votação do partido neonazista na Grécia e da extrema-direita xenófoba de Marine Le Pen na França. No Brasil, discurso e conjuntura semelhantes elegeram Fernando Collor, um dos governos mais corruptos e instáveis de nossa República. Outsiders sempre foram sinônimos de instabilidade e frustração.

Alguns jornais brasileiros de imediato simplificaram Grillo, rotulando-o de "o Tiririca da Itália". Afinal, embora o humor do primeiro tenha mais a ver com uma mistura de Bussunda com Rafinha Bastos, como ressalvou, no "Globo", o colunista Nélson Motta, do que com o besteirol ingênuo e oco do segundo, ambos são comediantes cujos milhões de votos foram inesperados sinais de protesto. Neste aspecto, a comparação faz sentido. Contudo, o palhaço deles é algo maior - e isto não necessariamente é um elogio.

Afora o brasileiro ter tornado-se "apenas" mais um deputado enquanto o italiano é o líder de seu partido, o que, no Parlamentarismo, significa o nome da sigla para chefiar o governo, a diferença reside nas ideias e no seu significado para o futuro do país. Tiririca não tem nada a dizer e nada representa para o falido quadro partidário brasileiro. Grillo, para o mal ou para o bem, quebrou o paradigma do, ainda que não oficial, bipartidarismo italiano. Até então, as eleições eram uma disputa entre os partidos Democrático e O Povo da Liberdade, ambos com outras pequenas legendas a seus reboques. Um furacão político nada efêmero que já deixou rastros.

Infelizmente, porém, tais ideias, quando não são prosaicas e apolíticas, são demagógicas e/ou arriscadas. Entre elas, estão defender um "salário-solidariedade" de mil euros para desempregados, a redução da semana de trabalho a 20 horas por semana e revisão da presença da Itália na União Europeia. Grillo, assim, seria, digamos, um Tiririca com mais verniz, com algo mais a falar, mas mais perigoso - ainda que ele talvez não tenha consciência do risco que representa.

A diferença entre o veneno e o remédio é a dose. Qualquer economista, não importa de que escola teórica fosse, pregava, com razão, um ajuste fiscal na Itália. Era inevitável. Mas a intensidade do pacote patrocinado por Bruxelas e Berlim e aplicado por Monti, nos moldes que a ortodoxia liberal aplaude, mostrou-se ser um fardo grande demais para a população. Nada, porém, que justifique propostas populistas. Na política e na econômica, não há (ou não deveria haver) espaço para maniqueísmos.

As crises são o cenário ideal para se propagar propostas imediatistas tão caras aos populistas. Se até mesmo David Cameron aproveitou o momento para praticar a eurofobia tradicional de seu partido, ao prometer plebiscito sobre a permanência da Grã Bretanha na União Europeia, imagina Grillo e nacionalistas de outros países. As chances de que europeus implodam pelo voto o bloco ou a Zona do Euro não são desprezíveis. Em economia, contudo, nem sempre o que é bom a curto-prazo - ou parece ser - é de fato o certo a longo-prazo.

Grillo, apesar de ter se destacado principalmente entre os mais jovens - justamente a faixa do eleitorado mais atingida pelo desemprego e suscetível a bravatas radicais, utópicas -, conseguiu sucesso até perante os ditos formadores de opinião, aqueles dos quais se espera maior grau de politização. Um sinal da intensidade dos dias de fúria vividos na "Bota" nesses últimos meses. Mas não é inédito ver a classe média perder a racionalidade quando ela sente seu bolso e emprego serem corroídos. Depois se arrependem...

Da Alemanha, o líder do partido social-democrata, Peer Steinbrück, adversário de Ângela Merkel nas próximas eleições, não perdoou. Conhecido pela franqueza pouco comum em políticos de sua posição, disparou, referindo-se ao desempenho de Berlusconi e Grillo: "Estou estarrecido que a Itália tenha votado nestes dois palhaços". No embalo da sinceridade alemã, uma das mais importantes revistas do mundo, a inglesa "The Economist", trouxe, na capa de sua última edição, os dois lado a lado, sob o título "Escolha o palhaço". No subtítulo: "Como o desastre da eleição da Itália ameaça o futuro do euro".

Quando o voto de protesto ajuda a piorar a situação, a indignação torna-se nada mais do que um tiro no pé. O maior derrotado dessas eleições é o próprio país, que agora enfrenta uma severa crise econômica sob uma instabilidade política de proporções ainda não mensurada e com sua credibilidade perante a comunidade internacional mais arranhada do que a dos políticos que tanto rejeitou. Em recessão, a Itália se vê, se não sem governo, com um governo com data de validade próxima.

Os italianos, mesmo inconscientemente, ao desejarem se afastar do precipício, deram alguns passos a mais rumo a ele.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Um conselho de Chico Buarque para o Oriente Médio

Por Murillo Victorazzo

A guerra civil síria - que envolve rebeldes apoiados por países do Ocidente e Turquia contra uma ditadura cujo principal (talvez hoje único) aliado é o Irã e que serve de alicerce para o Hezbollah, no Líbano -começa a ter reflexos na fronteira norte de Israel. Este, por enquanto, prefere não se envolver no conflito, mas, em sua fronteira sul, voltou, na última semana, a a trocar bombardeios pesados com o Hamas. O grupo terrorista, por sua vez, parece, agora, contar com maior solidariedade de um Egito liderado pela Irmandade Muçulmana. Até então, o país era o principal moderador na região do paralisado processo de paz entre palestinos e israelenses.

O parágrafo acima, em linhas gerais, explica o potencial explosivo que as atuais crises político-militares do Oriente Médio têm: se não bastassem envolver rancores históricos de fundo religioso e étnico, permeados por interesses geopolíticos, apresentam preocupantes entrelaçamentos. São uma rede de conflitos com causas e consequências interligadas.

Ainda que se tenha conseguido um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, não precisa ser profundo conhecedor do caso para saber que foi alcançada uma mera paz provisória. Varreu-se o problema para debaixo do tapete. Um tapete que, em algum momento, terá que ser levantado se quiserem limpar a casa para valer.

Além do Hamas, que se tornou o principal centro político palestino,  saíram vitoriosos a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton,  e o presidente egípcio, Mohamed Bursi. Ao ter êxito como negociadora da trégua, ela despediu-se da chefia da diplomacia norte-americana levando para casa um respeitável troféu. Aumentou seu cacife na política interna de seu país. Ele, por sua vez, em seu primeiro teste de fogo na arena regional, conseguiu equilibrar-se entre criticar os ataques israelenses e pressionar seus aliados radicais a aceitarem o cessar-fogo, sem perder o mínimo de isenção necessária a um mediador. Tudo que o Egito não deseja é mais instabilidade em seu quintal.

Há muitas perguntas sem resposta ou com respostas mal dadas na questão palestina. E elas se caracterizam assim porque não são fatos isolados; são uma espiral de conflitos historicamente correlacionados e estimulados de forma conveniente pelo radicalismo de ambos os lados, com a "ajuda" da incapacidade (ou má vontade) política dos líderes mundial e regional. Um pergunta mal respondida antes resulta em novas perguntas não (ou mal) respondidas agora e por aí vai. Uma versão bem mais séria e complexa do clássico "dilema do ovo" ("Quem vem primeiro, o ovo ou a galinha?"). Certeza apenas de que vítimas inocentes continuam sendo chocadas.  

O último recrudescimento da eterna crise é apenas mais um exemplo da sandice extremista. O argumento israelense de que estava "apenas" defendendo-se dos ataques do Hamas, intensificados nas últimas semanas, era factível. Mas, ressalvando a diferença de métodos, o atual governo direitista de Israel já dera mostras de sua cegueira radical ao fazer de tudo para fragilizar a Autoridade Nacional Palestina (ANP), presidida pelo moderado Mahmoud Abbas, e insistir na expansão de assentamentos na Cisjordânia e no bloqueio à Gaza. Se a racionalidade chegasse ao gabinete de Benjamim Netanyahu, este seria o maior interessado em lidar com um Abbas fortalecido, dono de maior prestígio entre os palestinos, em detrimento do grupo terrorista. 

A incapacidade da comunidade internacional de agir é também vista na Síria. Até agora, toda proposta de sanção mais forte contra o regime de Bashar al-Assad foi vetada pela Rússia no Conselho de Segurança da ONU. Os russos têm o ditador como seu principal aliado político e econômico na região e, por isso, não hesitam em usar o seu direito a veto, privilégio este que, além deles, apenas EUA, Inglaterra, China e França possuem. A imobilidade do conselho e o congelamento de poder decorrente deste "direito" são, por sinal, motivos de grandes debates nos fóruns políticos internacionais e meios acadêmicos. 

Há ainda outras razões para que a mortandade na Síria continuar avançando. Muitos temem que uma intervenção militar aprovada pela ONU acabe por aumentar o número de vítimas, e outros tantos têm dúvidas quanto ao que seria um governo liderado pelos rebeldes. Israel, mais do que nenhum outro, se arrepia com a possibilidade de que a queda de Assad represente a ascensão de um regime fundamentalista islâmico. Mais um em suas cercanias...

A delicadeza do cenário sírio proveniente de posição geopolítica do país tornava previsível a tibieza da reação da ONU. Sabia-se que não teria como ela agir de forma igual (ou na mesma velocidade) ao visto no  caso líbio. Assim, só restam, até agora, tentativas de negociações específicas cansativas e infrutíferas.

Chico Buarque, certa vez, propôs ironicamente ao então presidente Lula a criação do "Ministério do Vai Dar Merda". A cada decisão importante, o titular da pasta seria chamado, e a ele seria perguntado: "Vai dar merda?" Após analisar as circunstâncias, o ministro responderia ou não: "Vai dar merda".

O panorama atual do Oriente Médio, com  diversas nações envolvidas diretas ou indiretamente na teia de conflitos, em meio à ascensão de regimes islâmicos fundamentalistas e ao fortalecimento do Hamas,  faz-nos crer que seria recomendável aos governantes da região criarem órgão igual. Porque, na ausência de ponderação, qualquer ação mais impulsiva tem tudo para resultar em resposta positiva à pergunta-nome do ministério. E em efeito dominó.

domingo, 14 de outubro de 2012

O inferno de Dante e os traidores da nação

Por Murillo Victorazzo

Entre tantos ensinamentos que aprendi com meus pais, um em especial me veio à cabeça nesses meses de campanha eleitoral: o honesto não precisa se vangloriar de sua honestidade. Ela é uma obrigação, um pré-requisito tão óbvio, que deveria estar implícito na análise sobre qualquer pessoa. Não preciso e, algumas vezes, desconfio de quem precisa de arroubos verbais para reafirmar o próprio caráter.

Sei, porém, que, na nossa política -e não é de hoje -, a honestidade, de tão escassa, tornou-se um diferencial. O noticiário dos últimos dias só confirma nosso infortúnio. É julgamento de mensalão, é CPI do Cachoeira e suas ramificações (como a promíscua relação entre o governador Cabral e a empreiteira Delta), são os casos envolvendo prefeitos da região metropolitana... Nessas últimas eleições, nos deparamos ainda com a suposta compra de um pequeno partido (PTN) pela campanha do prefeito reeleito Eduardo Paes.

Vendo tal panorama, veio-me à cabeça A Divina Comédia, eterna obra de Dante Alighieri. Épico poema, marco do Renascimento, ela, já no século XIV, abordava os desvios do homem. Em sua viagem ao inferno, guiado pelo poeta italiano Virgílio, Dante descreveu o local como nove círculos de sofrimentos crescentes, proporcionais à gravidade do pecado, localizados dentro da Terra.

Baseado naquela visão de inferno, em instante de devaneio, fiquei imaginando para onde iriam, após suas mortes, os protagonistas desses escândalos São tantos pecados que certamente galgariam vários círculos. Quem sabe, para começar, o quarto, as Colinas de Rochas, que representam a ganância, onde pródigos e avarentos se encontram e acabam por ter que carregarem enormes pesos de barra e moedas de ouro uns contra os outros. (abaixo, ilustração de Gustavo Duré representando o quarto círculo)




Teriam eles também lugar garantido no Maleboge, o oitavo círculo, onde ficam os fraudadores. Sofreriam no quinto de seus 10 fossos, destinado aos corruptos, submersos em um piche fervente. Se permanecessem com a cabeça para fora, seriam atingidos por flechas atiradas por demônios. Segundo Alighieri, eles deveriam ficar escondidos sob o piche porque suas negociações sempre são feitas às escondidas.

Alguns, em especial aqueles que na oposição pregavam a ética, mas revelaram-se ser iguais ou pior do que os que combatiam, também teriam lugar no sexto fosso: os dos hipócritas. Penariam no inferno com roupas brilhantes, porém pesadas como chumbo. Peso que deveriam ter sentido, ainda vivos, em suas consciências; o peso de seu falso brilho.

Mas a esses "marginais do poder", como definiu brilhantemente o ministro Celso de Mello em seu voto no STF acerca dos réus do mensalão, ainda estaria reservado o último e pior círculo: o lago Cocite. Nele estão os traidores! Lá, não há fogo, e sim muito frio. Congelado, o lago, localizado no centro da Terra, é formado pelas lágrimas dos condenados e pelos rios do inferno que nele deságuam seu sangue.

Para Alighieri, a traição é o mais grave e sórdido de todos os pecados, pois se trata de um crime contra alguém que confia no pecador e, por isto, está indefeso. Á época, o poeta já destinava uma das quatro esferas do lago aos traidores da pátria.

Confesso que me satisfiz ao imaginar a alma desses políticos que não dignificam seus mandatos delegados pelo povo, traindo quem deles espera melhores condições de vida, submersa no gelo até o pescoço, na esfera de Antenora. Por alguns minutos, apropriei-me do inferno de Dante, aprovando-o como se fosse meu também.

Em artigo publicado no jornal O Globo semana retrasada, o escritor Marco Lucchesi, também usando a Divina Comédia para falar sobre a expectativa em relação ao julgamento no STF, foi no alvo: "Crime bárbaro: aqueles que a deviam servir acabam por desservi-la de modo infame e imperdoável. Penso no Lúcifer devorando os que traíram o poder que lhes foi conferido, através do lídimo processo democrático. A traição (...) ocupa a parte mais funda do Inferno e a mais afastada de Deus, como se formasse um cordão sanitário".

Ainda que algumas definições de pecado tenham mudado entre os séculos XIV e XXI, a gravidade de outros permanece a mesma. O inferno de Dante é um retrato poético brilhante que serve para nos demonstrar a perversidade desses fatos que, infelizmente, nos são impostos dia após dia. E, mesmo ainda acreditando na Justiça dos homens, em especial nos nobres ministros da Suprema Corte brasileira, nos confortar por nos fazer imaginar que, pelo menos em outra dimensão, o crime não compensa.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Nem ressaca nem marola: a onda PSOL e a esmagadora reeleição de Paes no Rio

Por Murillo Victorazzo

Historicamente palco de acirradas eleições municipais, a cidade do Rio de Janeiro viu, este ano, uma para lá de previsível disputa. Com 20 partidos em sua coligação e o apoio do governador Sérgio Cabral, da presidente Dilma Rousseff, do ex-presidente Lula e dos três senadores fluminenses, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) em momento algum viu ameaçada sua reeleição já no primeiro turno.

Com 64,6% dos votos válidos, Paes sagrou-se vice-campeão de votos entre as capitais do país. Perdeu por pouco para o prefeito reeleito de Porto Alegre, José Fortunati (PDT), que chegou aos 65,2%. Seu mar de votos, porém, não ofusca o ótimo desempenho de Marcelo Freixo. De um partido pequeno e com campanha muito mais pobre, o socialista surpreendeu ao atingir os 28,1%.

Quando se iniciou o horário eleitoral na TV e no rádio, muitos indagavam se Freixo, com pouco mais de um minuto, teria fôlego para ameaçar a poderosa máquina peemedebista. O tamanho da onda vermelha que se formava na Zona Sul e Grande Tijuca (Tijuca, Vila Isabel, Andaraí, Méier) era a incógnita que revelaria se os cariocas voltariam às urnas no final de outubro. As comparações com a onda verde de Fernando Gabeira, originada nas mesmas regiões da cidade em 2008, eram inevitáveis.

Após 45 dias de palanque eletrônico, porém, o que se constatou foi que Freixo não só teve fôlego para avançar como cresceu tanto quanto Paes, mesmo este ocupando metade do tempo destinado aos candidatos (em agosto, as pesquisas indicavam um placar de 47% a 12% de intenções de votos totais). Uma performance superior a de Gabeira, que, no primeiro turno de quatro anos atrás, obteve 25% dos votos válidos.

No entanto, embora o percentual de Freixo e Gabeira tenham sido próximos, suas ondas propagaram-se de forma diferente. Gabeira suplantou Paes com facilidade na Tijuca e Zona Sul, ultrapassando a maioria absoluta dos votos na região. Nos bairros mais nobres (Leblon, Ipanema, Copacabana e Lagoa), bateu a casa dos 60%. Em muitos pontos das zonas Oeste e Norte, no entanto, não atingiu sequer os 15%.

Já Freixo, em que pese tenha alcançado a faixa dos 40% na Zona Sul e Grande Tijuca, venceu o prefeito em apenas uma zona eleitoral. Conseguiu, entretanto, surpreender nas zonas Norte e, em especial, Oeste, ficando entre inimagináveis 25% e 30% em pontos de Olaria, Engenho de Dentro, Padre Miguel e Realengo. Sua votação foi mais espalhada do que a de Gabeira, que teve nos bairros nobres um verdadeiro bunker.

Dois dados retratam bem a diferença entre as duas candidaturas: ambas tiveram seu pior desempenho na mesma 246º ZE, que reúne seções de Campo Grande e Santa Cruz, na Zona Oeste. Freixo, porém, levou lá quase o dobro de votos de Gabeira: 15,6% x 8,9%.  Por outro lado, enquanto o teto do socialista foi de 48%, em Laranjeiras/Cosme Velho, o do verde chegou aos 64%, em Ipanema (Freixo teve 37%).

O perfil esquerdista de Freixo em muito explica por que ele, embora com ótima votação, não encontrou nos bairros nobres respaldo igual ao de Gabeira. Sentia-se na classe média/alta mais à direita grande dificuldade em votar no PSOL, legenda vista como radical, por mais incômodo que as denúncias que pairam sobre o PMDB fluminense causasse. Não por acaso, o tucano Otávio Leite atingiu naqueles locais o patamar dos 5% (o dobro do obtido no total).

Paes, que, em 2008, tornara-se uma espécie de persona non grata para grande parte da elite carioca, dobrou, este ano, sua votação entre eles: alcançou a média de 52%. Falaram mais alto a rejeição ideológica e as obras que se multiplicam pela cidade, em detrimento do discurso da ética, geralmente tão priorizado nesses setores.

Em contrapartida, o socialista herdou grande parte dos eleitores que depositavam, no passado, seus votos no PT e no brizolista PDT, mas hoje refutam a aliança com o PMDB. Uma migração inviável de ocorrer com Gabeira devido a sua aproximação com PSDB e DEM. Some-se a isso o reconhecimento por seu trabalho na CPI das milícias, assunto que toca em especial a população da Zona Oeste, e encontramos a resposta para seu bom desempenho em bairros menos elitizados.

É bem verdade que Gabeira foi para o segundo turno, quando então perdeu para Paes por meros 55 mil votos. Mas, naquela disputa, ressalve-se, o então prefeito César Maia sofria grande desgaste e nomes como Marcello Crivela (PRB) e Jandira Feghali (PCdoB) atingiram os dois dígitos. A Freixo, faltaram outras candidaturas oposicionistas com maior poder de fogo para tirar votos do prefeito e forçar o segundo turno.

Imaginava-se que esse papel caberia à chapa Rodrigo Maia/Clarissa Garotinho, por, em tese, terem capilaridade no eleitorado mais pobre. Entretanto, mais do que a estagnação, o que se viu foi o desmantelamento da chapa. Antes do horário eleitoral, eles tinham 6% de intenções de votos. Terminaram com pouco menos do que 3%. De Otávio Leite pouco se esperava, pois a debilidade do PSDB carioca, depois do ocaso de ex-governador Marcelo Alencar, tornou-se crônica.

As famílias Maias e Garotinho foram, sem dúvida, as grandes derrotadas na capital fluminense. Rodrigo e César (DEM), de certo modo, debilitaram-se ainda mais que Clarissa e Anthony (PR), cuja força maior tradicionalmente vem da Baixada Fluminense e do interior do estado. A esposa e mãe Rosinha, ainda que sob recurso no TSE, foi reeleita prefeita de Campos com respeitáveis 70% dos votos.

Além de ter que se deparar com o pífio papel protagonizado pelo filho, César viu ele próprio sair politicamente menor. Ao decidir sair candidato a vereador, imaginava ele ser não apenas o mais votado da cidade. Almejava ser recordista de votos e, com este ativo, ser o líder natural de uma oposição mais combativa do que a da última legislatura. Integrantes do DEM afirmavam que o ex-prefeito projetava receber, no mínimo, 100 mil votos, o que levaria o partido a conquistar cerca de oito das 51 cadeiras da Câmara. Menos do que isto, sentir-se-ia derrotado.

A estratégia do ex-prefeito fazia algum sentido. Ninguém ficou mais tempo no gabinete principal do Palácio da Cidade do que ele. Por mais desgastado que estivesse, tendo ficado apenas em quarto lugar na corrida de 2010 para o Senado, doze anos no poder sedimentam um eleitorado cativo suficiente para se destacar em eleições proporcionais. Mas, abertas a urnas, veio o choque de realidade: com constrangedores (para ele) 44 mil votos, em um eleitorado de 4,7 milhões, César foi apenas o terceiro mais votado, e seu partido, bem distante das previsões, fez somente três vereadores, cinco a menos que quatro anos atrás.

Aquele que um dia sonhou ser presidente da República, liderando o campo conservador, mostrou ter se apequenado. Um declínio cada vez mais agudo iniciado em meados de seu terceiro e último mandato no Executivo municipal. Levando-se em conta a fraqueza do DEM nacionalmente e a hegemonia do PMDB no Rio de Janeiro, não parece arriscado dizer que é um melancólico fim de carreira.

Paes conseguiu votação histórica - em números absolutos e proporcionais-, usufruirá de maioria esmagadora no Legislativo (39 dos 51 vereadores) e teve êxito na missão de penetrar em segmentos que lhe eram muito críticos. Rompeu com chavões como o que apenas os mais pobres, "desinformados" e "sem instrução" votariam nele. Em 90 das 97 zonas eleitorais, faturou a maioria absoluta. Mais do que votos, ganhou maior estatura política.

Freixo, no entanto, também saiu politicamente vitorioso. Mesmo diante de dificuldades estruturais de campanha, polarizou praticamente sozinho com o prefeito. Ao contrário do que alguns diziam, sua candidatura não foi apenas "modinha" de universitário, ou "papo de intelectual". Seu partido, além de tornar-se a maior bancada de oposição (quatro vereadores), consolidou-se como o preferido da esquerda tradicional carioca. Os 115 mil votos de legenda, em contraste com os 20 mil de um PT a reboque do PMDB, sinalizam a mudança.

O crescimento do PSOL carioca encontrou ainda eco do outro lado da Baía da Guanabara. Em Niterói, terra natal de Freixo, seu candidato, Flávio Serafini, teve surpreendentes 18,4%. Ficou em terceiro lugar, atrás do petista Rodrigo Neves e do pedetista Felipe Peixoto. Definitivamente, se a onda vermelha não causou forte ressaca nas praias peemedebistas, chamá-la de mera marola é um grave erro de interpretação dos fatos.

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Em tempo: foi no noroeste do estado do Rio de Janeiro, em Itaocara, que, no último dia 7, o PSOL elegeu seu primeiro prefeito: Gelsimar Gonzaga, um ex-cortador de cana de 48 anos que virou dirigente sindical nos anos 80 e ajudou na fundação tanto do PT quanto de seu dissidente PSOL, em 2005.