segunda-feira, 31 de março de 2014

As lições do "jovem" Pepe

Por Murillo Victorazzo

José "Pepe" Mujica foi o entrevistado do "Canal Livre", na Band, domingo passado. Em seu humilde sítio nos arredores de Montevidéu, o presidente do Uruguai recebeu  os jornalistas Fernando Mitre, Ricardo Boechat e Fábio Pannunzio para uma hora de ótima conversa.

Conversa que, de tão boa, pareceu ter durado apenas cinco minutos. Deixou, de todo modo, uma certeza: Mujica é daquelas personalidades raras no mundo que explicam por que a  História e a política são apaixonantes - por mais que a maioria de seus atores atuais faça parecer o contrário.

Concorde-se ou não com tudo que  defende, o presidente uruguaio nos faz pensar, cativa, te prende em frente à televisão. Une vanguarda e simplicidade a bom humor, sem fugir de perguntas. Reflete antes de responder, sem platitudes ou frases decoradas. Prova que ser inteligente é muito diferente de ser pernóstico. E que idade avançada não é sinônimo de conservadorismo. Quem dera tantos jovens brasileiros tivessem a inquietude intelectual, a mente arejada, do "Viejo"...

Para o Brasil, Mujica pode ser a inspiração para uma esquerda moderna, sem os dogmas excessivos, as visões jurássicas sobre economia e com a coragem de avançar na implantação de políticas que reflitam as relações sociais atuais. Ainda que, neste quesito, tenha-se que dar o desconto da diferença de tamanho e de complexidade da sociedade que separam os dois países, como ele mesmo ressaltou. "O Uruguai é um país laico, muito laico", frisa.

 Descrente do petismo, assustada com a repaginada à direita do PSDB e cética com o que se transformou o PPS (antigo PCB),  o eleitorado centro-esquerdista é órfão de políticos assim. Mujica nos lembra que, entre o autoritarismo nacionalista chavista e o direitismo neoliberal, alinhado, muitas vezes, automaticamente aos EUA, há um vasto campo a explorar. Uma verdadeira e contemporânea social-democracia.

Como cidadão, invejo os uruguaios; como jornalista, invejei Mitre, Boechat e Pannunzio...

terça-feira, 25 de março de 2014

A política externa do regime militar

Por Matias Spektor (Folha de S.Paulo, 25/03/2014)

O golpe ocorreu em meio à mais intensa mudança de posição do Brasil no sistema internacional.
Entre 1955 e 1960, o Produto Interno Bruto cresceu 8,1% ao ano. Entre 1964 e 1971, os industrializados passaram de 5% para 31% da pauta de exportações, enquanto o café caiu de 55% para 13%.

O país deixou de ser uma economia rural para virar uma sociedade urbana. Pela primeira vez, o Brasil entrou para a categoria de país emergente. "Como um gigante adormecido, o Brasil está acordando para um período de expansão quase sem precedente", afirmava "The Times" de Londres. "Poderemos vê-lo se tornar o Japão do Terceiro Mundo."

Na política externa, o regime militar patrocinou a luta anticomunista. Colaborou com uma intervenção na República Dominicana e restaurou laços com o Fundo Monetário Internacional. Operou em países como Argentina, Bolívia, Chile e Uruguai. Juracy Magalhães, embaixador do regime em Washington, proferiu a frase: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

O regime contou para isso com o apoio dos Estados Unidos. Quando a repressão apertou, o embaixador americano no Brasil, William M. Rountree, e seu adido militar, o coronel Arthur Moura, alentaram a atividade nos porões.

No entanto, com o tempo, os Estados Unidos se tornaram um problema para os militares brasileiros.
O poder econômico norte-americano, que num primeiro momento se beneficiara de acesso privilegiado à Esplanada dos Ministérios, passou a se ressentir da política industrial protecionista.

Em temas diplomáticos, a relação também esfriou. Os militares brasileiros no comando acreditaram estar recebendo tratamento de segunda classe: os investimentos eram menores do que o esperado, as condições, árduas, e a atitude da Casa Branca, imperial. E o regime não estava disposto a coordenar com os americanos cada passo de sua própria Guerra Fria na América do Sul.

Esses problemas se exacerbaram quando o Congresso dos Estados Unidos começou a denunciar o uso de tortura. E tudo desandou a partir de 1976, quando o candidato presidencial Jimmy Carter afirmou que o apoio norte-americano ao Brasil ditatorial “é um exemplo da pior faceta de nossa política externa... Um gratuito tapa no rosto [do povo] americano.”

Nos governos dos generais Médici e Geisel, as relações entre Brasil e Estados Unidos, ao invés de melhorar, pioraram, chegando a seu ponto mais baixo. Os Estados Unidos deixaram de ser a principal fonte de apoio externo à ditadura para transformar-se em ameaça. O regime respondeu cerrando fileiras.

Quando Carter veio ao Brasil para pressionar o governo por mais abertura política, os generais receberam apoio de lideranças de oposição, como Ulysses Guimarães, sindicatos, imprensa e parte da oposição, que denunciaram a prepotência norte-americana.

Na política externa, o regime acelerou a diversificação de países consumidores, provedores e investidores –-uma alavanca contra o magnetismo da economia norte-americana.

Os militares também patrocinaram coalizões com outros países em desenvolvimento e assumiram liderança no chamado embate Norte-Sul. O regime se afastou de Israel no Oriente Médio para se acercar dos árabes. Aproximou-se dos novos países independentes da África, mesmo aqueles que eram marxistas e recebiam apoio econômico e militar de Cuba.

A ditadura abriu embaixadas em regiões que antes ignorava e suas empresas estatais passaram a fazer investimentos fora do país. O Banco do Brasil abriu as primeiras agências na América do Sul, ao passo que a Petrobras foi para a África.

O regime também patrocinou um ambicioso programa nuclear. Ao lançá-lo, o general Costa e Silva, então presidente da República, afirmou: “Nada nos impede de fazer pesquisa e mesmo artefatos que posam explodir. Não vamos chamar de bomba, mas de artefato que pode explodir”.

Depois de gastar uma fortuna na tentativa de criar um parque industrial nuclear com tecnologia da Alemanha, o regime levou parte de suas atividades para a clandestinidade. Comprou peças no mercado negro, urânio altamente enriquecido da China e desenhou um míssil balístico.

No processo, adquiriu capacidade para enriquecer urânio. O custo foi o isolamento --em temas de não-proliferação, o país passou a ser visto como pária. Em vez de aumentar a capacidade nacional de barganha, o regime militar debilitou-a. Entre 1973 e 1979, a dívida externa do país quadruplicou, passando de US$ 12 bilhões para quase US$ 50 bilhões.

O país ainda sofreu sanções comerciais e seus representantes passaram a ter de suplicar ajuda a instituições financeiras internacionais. Os ministros da Fazenda da época tiveram de se acostumar à sala de espera do Secretário do Tesouro dos Estados Unidos.

O Brasil da ditadura ficou mais rico, sem dúvida alguma. Contudo, ao sair do poder, os militares deixaram o país numa posição internacional mais fraca, dependente e injusta do que era possível imaginar em 1964.

segunda-feira, 17 de março de 2014

2015 já começou no samba! Abre o olho, Salgueirão!

Por Murillo Victorazzo

O carnaval 2015 já começou. E com uma notícia de impacto: o campeão, igualmente adorado e contestado, Paulo Barros sai da Tijuca e aceita o desafio de ajudar a reerguer a Mocidade Independente.

Claro que uma escola não é apenas seu carnavalesco. É, antes de tudo, chão, canto, além de outros quesitos. Foram estes fundamentos, aliás, que, ao contrário do que muita gente simplifica (aqueles que preferem colocar tudo na conta do Barros), garantiram o título para o Borel.

A azul e amarela tem uma ótima equipe, desde a Harmonia até o excelente casal de mestre sala e porta bandeira, passando pela "Pura Cadência" e os coreógrafos de comissão de frente que já marcaram seus nomes na história da Avenida. Foram capazes de superar o fraco samba enredo e evoluir com perfeição.

Mas não dá para negar que a contratação de Barros se trata de um belo upgrade para Padre Miguel. Ainda que, por enquanto, seja apenas a sinalização de que a escola pode voltar a incomodar e, principalmente, se reinventar. Certeza de que voltará ao pódio das Campeãs, não há- nem poderia haver. Qual a estrutura, incluindo aí os segmentos responsáveis pelas demais notas, que o carnavalesco encontrará lá?

Do mesmo modo, se sua saída é uma grande perda para os tijucanos, é também a chance de provarem e reafirmarem ser muito mais do que um talento. Tijuca e Salgueiro, não por acaso, campeã e vice, são as mais bem administradas escolas de samba atualmente - talvez ao lado de uma ou outra a mais. O que não significa, porém, que não terão dificuldades em achar alguém capaz de evitar uma perda na parte estética da agremiação.

Quanto a Barros, o carnavalesco da moda fez uma aposta alta. Pode se consagrar definitivamente ou dar argumentos àqueles que asseguram ter ele tornado-se mais do mesmo.

Para o carnaval carioca, que, até 2013, tinha quatro escolas dominando anos após ano (Beija-Flor, Vila Isabel, Salgueiro e Tijuca), o horizonte é de garantia de um 2015 ainda mais disputado. Se 2014 recolocou Portela e Ilha na lista das "temidas" e surpreendeu negativamente com Beija-Flor e Vila, ano que vem promete ainda mais. E a verde e branco é uma das principais expectativas para o próximo desfile.

Que meu Salgueiro tenha notado essas mudanças e aprimore cada vez mais a competência que já mostrou ter para fazer carnaval de primeira qualidade, sempre nas cabeças...Confio em vocês, Regina, Lage, Marcão, Sidcley, Marcela e Harmonia!!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Dilma em Davos

Por Luiz Felipe de Alencastro* (UOL, 22/01/2014)

A presidente Dilma participa pela primeira vez ao Fórum Econômico Mundial de Davos ao lado de 39 outros chefes de Estado e de governo. Segundo o site especializado sobre economia global Quartz, que traz uma análise comparativa dos Fóruns mais recentes, Davos estará neste ano mais concorrido. Haverá mais diretores (CEO) de empresas globais. O grupo Itaú Unibanco está entre as dez maiores instituições participantes.

Haverá também representantes de vinte bancos centrais. Mais da metade dos 2.633 participantes inscritos vem da Alemanha, Estados Unidos, Índia, Reino Unido e Suíça. Os EUA terão o maior número de representantes oficiais, incluindo 13 membros do Congresso.

No noticiário internacional, a presidente Dilma, acompanhada do primeiro-ministro britânico David Cameron, do primeiro-ministro do Japão Shinzo Abe, e do chefe do governo australiano Tony Abbott, forma a lista dos participantes mais importantes em Davos. A presidente brasileira se destaca também num Fórum onde as mulheres compõem apenas um sétimo dos participantes e a predominância masculina tem sido criticada.

Os comentários no Brasil têm salientado que a presidente se aproximará dos grandes patrões internacionais para desfazer equívocos causados por sua alegada distância do empresariado nacional. Mas há mais equívocos a serem desfeitos. O maior deles se refere à discrição da diplomacia brasileira. O problema é crônico desde o fim do governo Lula e da saída do ministro Celso Amorim do Itamaraty.

O ex-chanceler Antônio Patriota desacertou o passo --com a presidente e com o andamento do mundo - e acabou saindo do Itamaraty pela porta dos fundos. Veio em seguida o ministro Luiz Figueiredo, que entra mudo e sai calado, acreditando que o silêncio é prova de vida. Ocupando há quatro meses o cargo de chanceler, sua presença no primeiro escalão do governo continua mal delineada.

Alguns países, como a China, a Coréia do Sul, a Alemanha, a Arábia Saudita, tem um ministro e vice-ministros do exterior. O Brasil não tem tais postos adjuntos, mas o chanceler Figueiredo atua como se fosse um vice-ministro do Exterior. Nesta quarta-feira (22), foi anunciado que ele anulou sua presença na conferência de Genebra 2, sobre a Síria, para ficar dando assistência à presidente em Davos, também na Suíça.

O Brasil será representado pelo secretário-geral do Itamaraty. Ora, Genebra 2 é crucial para a paz na Síria e, de tabela, no Líbano, países como os quais centenas de milhares de brasileiros mantêm vínculos familiares e culturais.

Ao lado dos EUA, Canadá e México, o Brasil faz parte do grupo restrito de países americanos que, ao lado de outros trinta países e organizações, foram convidados pela ONU para participar de Genebra 2. Numa conferência deste calibre -- onde o Brasil tem todo o seu lugar --, quem conta mesmo são os ministros do exterior. Não houve em volta da presidente Dilma ninguém que a alertasse sobre essa evidência.

Como também não houve ninguém que a aconselhasse a incluir uma referencia à política externa na sua fala de fim de ano. Logo nos primeiros segundos de sua fala, a presidente disse: "As dificuldades que enfrentamos aqui dentro e lá fora não foram capazes de interromper o ciclo positivo que vivemos". Depois, nos doze minutos que se seguiram, a presidente não fez uma só menção à diplomacia brasileira.

No ano de sua primeira ida à Davos, no ano da Copa, no ano da eleição presidencial, a presidente fala de "lá fora" como se o Brasil vivesse noutra galáxia.

*Cientista político e historiador, professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne e professor convidado na FGV-Escola de Economia de São Paulo. É membro da Academia Europeia.






quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A "res pública" e o debate eleitoral brasileiro

Por Murillo Victorazzo

Res pública é uma expressão latina cujo significado é "coisa do povo". Quis a História que,coincidentemente ou não, justamente no dia em que os brasileiros celebram a proclamação de sua República,  políticos de grande relevância, enfim, fossem presos por desviarem "coisas do povo". Será este o início do longo processo que levará o Brasil a tornar-se de fato uma república democrática, aquela que, como disse Abraham Lincoln, é feita "do povo, pelo povo, para o povo"? Tomara, porque corrupção não é propriedade de partido algum.

Exemplos não faltam. Recentemente os casos Alston/Siemens, do metrô de São Paulo, o escândalo envolvendo fiscais da Prefeitura da mesma cidade, além de outros mais antigos, como os mensalões tucano e do DEM e o "Cachoeiragate", nos mostraram que partidarizar a corrupção serve apenas como discurso eleitoral para dirigentes e militantes das siglas adversárias ao envolvido da vez. Fazer um exercício de memória e recordar as notícias de jornais de décadas passadas também

Assim que o PT viu dois de seus principais líderes irem para a cadeia, tornando-se, dessa vez negativamente, protagonista de um fato histórico, a cúpula do seu principal adversário reuniu-se para ensaiar indignação. Ao lado de integrantes da Executiva e de governadores do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique comemorou a prisão dos petistas, chegando a dizer que eles teriam tentado "rasgar a Constituição". "Hoje vejo que a Justiça começa a se fazer", afirmou ele.

Duas ausências foram notadas, embora não lamentadas necessariamente: os ex-governadores José Serra e Eduardo Azeredo. A do primeiro não surpreende. Serra não desiste de remar contra a maré e reluta em admitir que a bola da vez tucana é Aécio Neves. A outra, como mostra matéria do Estadão de 18 de novembro, nada mais foi do que uma conveniente "coincidência" - as aspas, neste caso, são fundamentais.

Réu no "mensalão mineiro", escândalo cujo operador, o publicitário Marcos Valério, e o modus operandi são o mesmo da ladroagem petista, Azeredo constrange a legenda e é um dos nomes de alta plumagem a por por terra qualquer tentativa dela de levantar a bandeira de um verdadeiro republicanismo.

Ex-governador, ex-senador, fundador e ex-presidente da sigla, o hoje deputado federal será julgado pelo STF provavelmente no primeiro semestre do ano que vem, a poucos meses das eleições presidenciais. Assim como José Dirceu e José Genoíno, não foi expulso de seu partido, mesmo não tendo a força política interna dos dois petistas Para constrangimento maior do tucanato, seu presidenciável, aquele que FHC, no mesmo encontro, alcunhou de "o nome da esperança", é o cacique maior do PSDB no estado do réu. 

A diferença entre os mensalões petistas e tucanos é apenas de dimensão: uma, nacional; outra, regional. Um comprou deputados para votar como o governo desejava. O outro comprou votos futuros. Pois partido que financia candidaturas a deputado estadual de outro partido não objetiva outra coisa que não seja a retribuição nos debates da Assembleia local. Fora tempo de televisão na campanha eleitoral. Moralmente, são igualmente repulsivos: desviaram dinheiro público para atingir seus objetivos.

Muitas vezes, o discurso da ética também é a brecha para eleitores tentarem referendar e justificar suas antipatias ideológicas prévias. É a catarse do "Está vendo, não falei? Essa raça não presta". É o grave erro de misturar caráter com visões de mundo; de julgar a probidade da pessoa ou do grupo sob o prisma das políticas públicas e das ideias socioeconômicas defendidas/praticadas por eles. O meu ladrão não é melhor do que o seu. Ou não deveria ser.

Sob a comoção de um julgamento histórico, em meio a um debate que vem se polarizando, qualquer ponderação é, cínica ou ingenuamente vista por muitos como defesa do PT. Mas não é. Trata-se de olhar para o futuro em busca de uma real solução. Para quem, antes de tudo, apenas deseja refundar nossa república em bases que justifique a etimologia da palavra, pouco importando se está mais à direita ou à esquerda, a questão é muito mais complexa. Exigirá muito mais tempo, esforço e conscientização. 

Serve ainda para entender por que o discurso eleitoral da ética é falho. Quem tem memória política sabe que, há décadas, presidenciáveis o vendem e, diante da novidade que representavam, até 2002, obtiveram êxito. Foi assim com Jânio Quadros e sua vassourinha, o "caçador de marajás" Fernando Collor e, ironicamente, Lula, que,  em um ambiente econômico de desemprego, crescimento econômico nulo e racionamento de energia, só chegou ao poder por dizer representar a "nova política".

Do mesmo modo, ainda que com um discurso menos virulento, o PSDB nasceu como a dissidência ética do PMDB. Eram os 'peemedebistas do bem" que saiam da legenda por não concordarem com o domínio da máquina partidária por Orestes Quercia, símbolo do fisiologismo e da ladroagem. Sem entrar nos méritos ou deméritos da gestão de políticas públicas, ao assumirem o poder em 1994, os tucanos repetiram os mesmo erros no trato com a res pública. 

O processo de aprovação da emenda constitucional da reeleição, que, se não bastassem as denúncias de compra de votos, favoreceu os próprios detentores de mandato à época e não exigiu o afastamento temporário do cargo para concorrer ao novo mandato, e ter Renan Calheiros como ministro da Justiça são dois de outros sintomáticos exemplos. Não por acaso, boa parte da base governista de FHC é a mesma de Lula/Dilma.

Sem opções, grande parcela do eleitorado viu-se obrigada a tornar-se ainda mais pragmática. Convicta, com razão, de que todo grupo político tem seus podres, optou por usar como critério de voto basicamente sua sensação de bem-estar econômico. Aquele que lhe permitiu melhorar sua qualidade de vida será seu escolhido.

De certa forma, aliás, a lógica econômica quase sempre prevaleceu, mesmo quando Lula, ainda não testado, representava "uma nova forma de fazer política". Foi assim em 1994 e 1998, quando a população preferiu o candidato do Real, FHC, apesar de sua composição com os setores mais atrasados e depois, na busca pela reeleição, das denúncias envolvendo seu governo e aliados.

Parece, portanto, fadado ao fracasso a retórica (falsa) moralista de Aécio Neves. Melhor será por em discussão os erros administrativos de Dilma e suas eventuais diferentes visões de mundo. Quem é mais capaz de melhorar os serviços públicos e fazer o país crescer sem deixar de lado o combate à desigualdade social, reconhecendo os avanços dos últimos 20 anos? Qual o tipo de Estado e de relacionamento com os outros países é melhor para alcançarmos esse objetivo?

Os fiéis petistas e os ardorosos antipetistas já sabem a resposta. Resta convencer os que se encontram no meio caminho. Isso sem falar no híbrido Eduardo Campos (PSB), no que ele proporá e qual será o papel e o peso da ex-senadora e ex-ministra Marina Silva na sua chapa. Esta, por hora, a única que pode canalizar o  chamado voto ético.

Alguns dirigentes petistas, no entanto, se arriscam e dão o gancho sonhado pelos tucanos ao insistirem com a ladainha de que o julgamento do mensalão foi político. Embora supostos abusos no processo de expedição das prisões devem sim ser condenados, pois Justiça não é sinônimo de justiçamento, insistir que não houve direito de defesa ou que seus condenados são presos políticos é cinismo. Agindo assim,  ajudam a estigmatizar o PT, cuja cúpula - e não todos - fez por merecer a condenação.

Rótulos, arroubos preconcebidos e generalizações a favor ou contra uma ou outra legenda, no aspecto moral, turvam o debate. Assim como o tempo provou ser estelionato eleitoral a pecha de partido puro, é falacioso qualificá-lo como quadrilha, como se todos os petistas fossem criminosos. Ou a sigla a única a sofrer com escândalos.

Não há no mundo, nem tem como haver, partido honesto, do mesmo modo que não há corporações honestas. Há, sim, políticos, executivos, funcionários honestos. No Brasil, cujo sistema político falido é a mescla de uma cultura sociopolítica viciada com um arcabouço que afasta o representante do representado e uma burocracia estatal que de pública, desde muito, pouco tem, o terreno tende a ser ainda mais fértil para escândalos.

Este sistema, em seus processos de formação de maiorias legislativas e na pouco transparente relação entre doadores privados e eleitos, estimula e até impele governos e políticos a entrarem no mercado do fisiologismo, do clientelismo, do balcão de negócios de emendas, da cooptação de siglas menores pelas maiores através de ajuda financeiras para campanhas e  da trocas de favores por meio de licitações encaminhadas ou superfaturadas.

Quando tal contexto encontra quem, por desvio de caráter, pensa ser a carreira política o modo mais fácil de enriquecer, desviando dinheiro público, o cenário torna-se apavorante. E evidencia que, além de uma profunda reforma política, o país precisa de uma efetiva modernização do Judiciário e de deixar para trás a cultura do jeitinho, do patrimonialismo, da esquizofrenia ética, que faz com que muitos que cometem seus pecadilhos cotidianos, frutos de maus costumes, pensem que estes nada têm a ver com isso. Político não é ET; vem do berço da sociedade.

O caso dos fiscais de ISS paulistanos talvez sintetize nosso drama com perfeição. Arraigado em vários escalões da prefeitura, mostrou-se ser um corroído sistema suprapartidário que ultrapassara gestões. Secretários e subsecretários ligados aos ex-prefeitos Gilberto Kassab e Serra e ao atual prefeito, Fernando Haddad, políticos de legendas diferentes, são investigados.

Caso corrupção tivesse DNA, seria mais fácil retirá-la do nosso dia a dia Mas não é. Portanto, que os demais larápios acabem como os mensaleiros; que façamos o debate ideológico ou programático à parte; que reflitamos sobre que sociedade é a nossa - e que, assim, esse 15 de novembro faça jus ao seu significado.


sábado, 30 de novembro de 2013

Obrigado, Enciclopédia!

Por Murillo Victorazzo

Pelé foi gênio, o maior de todos, queiram ou não os argentinos. É sim um símbolo nacional, do qual devemos nos orgulhar. Mas o Édson Arantes deixa a desejar. Talvez por isso, daquela geração da década de 50/60, provavelmente o jogador com quem mais simpatizava, aquele que mais admirava era Nílton Santos.

Eleito o maior lateral esquerdo da história do futebol mundial, era craque fora do gramado também: simples, carismático, tinha noção do que representava sem ser megalomaníaco. Muito pelo contrário. Era impossível ouvi-lo dar alguma declaração desastrada ou vê-lo em situação passível de crítica. Mesmo depois de tantos anos, nunca esqueceu do seu Botafogo. 

Meu coração é rubro-negro, e nele nunca haverá espaço para outro ídolo que não Zico. Mas nem por isso deixaria de aplaudir de pé talento e personalidade tão raros. Pena que tantos torcedores não tenham discernimento igual e, numa fixação patológica e prosaica, não cansem de tentar menosprezar o sucesso e a qualidade de ídolos históricos de clubes rivais, mesmo quando o reconhecimento a eles atravessa fronteiras e times.

 Não são apenas os botafoguenses que lamentam hoje. Quem ama o futebol também, independente de tê-lo ou não visto jogar à época. Obrigado, Nílton Santos, por ter sido brasileiro. Se hoje somos o "país do futebol", a seleção mais vitoriosa do planeta, respeitada até mesmo em seus piores momentos, em muito devemos a você. Descanse em paz, Enciclopédia!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Safra interessante em 2014

Por Anderson Baltar  (Rádio Arquibancada, 21/10/2013)

A safra de sambas para o Carnaval 2014 está definida. E, num primeiro olhar, ainda muito baseado na forma como os hinos como foram apresentados nas quadras, posso dizer que teremos um CD do Grupo Especial muito interessante – aliás, como há alguns anos não víamos. Depois de uma terrível década, os sambas estão numa curva ascendente de qualidade. Pelo menos metade das escolas têm composições interessantes e que podem crescer muito a partir da gravação e dos exaustivos ensaios que estenderão até março.

O que teria motivado essa situação? Cito alguns aspectos. O primeiro, e mais óbvio, foi a redução sensível da quantidade de enredos de qualidade ou entendimento duvidosos. Sim, sei que enredo se julga na avenida. Mas, até o momento, o que temos é o argumento, baseado nas sinopses. E, não se iluda: se o argumento é falho, a chance do enredo ter uma sobrevida é quase mínima. Não por acaso, as escolas que largam atrás no quesito samba-enredo têm enredos de construção e elaboração no mínimo contestada.

Não tem mistério: quando o compositor sabe do que tem que falar e, acima de tudo, vê que aquela sinopse está dentro da sua verdade e, mais do que tudo, da verdade da escola, a inspiração floresce na hora. Samba bom nasce no sentimento genuíno, na frase que sai do fundo do coração, como os sambas do Salgueiro e da Mocidade Independente de Padre Miguel deixam claro na primeira audição. São testemunhos de fé, de amor, inspirados por argumentos que tocam fundo no alma dos compositores e dos componentes da escola.

A verdade é uma só: enredo bom causa ansiedade no compositor. Ele sai da quadra com a sinopse embaixo do braço ansioso para se juntar com os parceiros. Leva para cama e a lê antes de dormir. Batuca no intervalo do trabalho pensando no refrão, anota até no canhoto da conta de luz que acabou de pagar. Acorda de madrugada pensando na melodia. E, em sua maioria, os enredos de 2014 propiciaram esse frisson gostoso nos poetas das escolas.

Outro aspecto que não pode ser deixado de lado é que o carnaval sempre é ditado pelos parâmetros criados pela campeã. E a vitória da Vila Isabel em 2013 teve o dom de propiciar a redenção do quesito samba-enredo. Por mais importante que seja no julgamento (dele dependem, no mínimo, outros cinco quesitos), o samba estava sendo deixado de lado há muitos anos. O importante era o visual, o barracão, as surpresas que os gatos-mestres da Cidade do Samba estavam aprontando. Com a antológica obra de Martinho da Vila, Arlindo Cruz, André Diniz e parceiros, o samba-enredo foi recolocado em seu lugar. Como fio condutor de um desfile e maior estimulante para a consagração de uma escola.

Não citei Martinho e Arlindo gratuitamente. Nenhum dos dois é novato na seara carnavalesca, muito pelo contrário. Mas, justamente o sucesso da parceria fez despertar em muitos compositores da MPB o interesse pelo samba-enredo. Na minha visão, uma janela aberta para a revitalização do gênero e uma possibilidade para a volta da popularização.

Tivemos Pedro Luis, Jorge Aragão e até Francis Hime nas disputas de samba. Carlos Caetano e Péricles, reconhecidos no meio do pagode, chegaram às finais. E dois dos 12 sambas são assinados por nomes de peso na música popular: o da Imperatriz, de Elymar Santos, que promete ser o arrasta-quarteirão da temporada; e o de Dudu Nobre, da Mocidade, que vai brigar para ser um dos grandes sambas do carnaval. Dudu, é bom que se diga, não caiu de paraquedas. Irmão da porta-bandeira Lucinha, tem histórico nas escolas mirins, mas nunca havia encarado o desafio de disputar samba em sua escola de coração. E estreou de forma magnífica.

Muita gente torceu o nariz, mas vejo com ótimos olhos esse movimento. Se as escolas continuarem julgando as obras ao invés do nome, esse intercâmbio será ótimo para o gênero samba-enredo, que se revitalizará, e também para os compositores das escolas, que passarão a ter portas abertas para o chamado mercado “do meio de ano”.

Análise da safra

Apesar de ser um tanto prematuro, faço aqui a minha primeira análise da safra. Cabe lembrar que ouvi oito sambas ao vivo e os outros quatro só conheço de gravação.

- Salgueiro e Mocidade, na minha opinião, têm os melhores sambas do ano. São os mais completos no que diz respeito a enredo, qualidade de letra e, principalmente, empatia com a identidade da escola. Ambos são feitos para se cantar batendo forte no peito e com os olhos marejados.

- Portela, mais uma vez, traz um samba de muita qualidade e estrutura diferenciada. O enredo é maravilhosamente descrito e, na final, a melodia já entrou na quadra totalmente encaixada com a bateria. Foi algo mediúnico, poucas vezes visto.

- União da Ilha, Imperatriz e Mangueira prometem sacudir a avenida. A Ilha, finalmente, escolheu um bom samba e ouviu a voz da comunidade. Com uma bateria renovada e o ótimo trabalho plástico dos últimos anos, tem tudo para fazer um carnaval memorável. A Imperatriz tem o refrão do ano e deverá viver um momento histórico – a consagração total do público, rara em sua trajetória. O samba da Mangueira tem refrões explosivos e promete conduzir o arrasta-povo que só a verde e rosa sabe fazer.

- São Clemente e Império da Tijuca têm sambas agradáveis e de qualidade. Teoricamente, as duas brigam pela permanência no grupo e, pelo visto, a disputa será acirrada inclusive no samba-enredo. A escola de Botafogo partiu para uma linha mais lírica e o povo da Formiga vem com um samba valente – ideal para abrir desfile.

- Vila Isabel é o samba que mais pode surpreender. Depois da consagração do carnaval passado, pouca gente prestou atenção na composição de Arlindo Cruz, André Diniz, Bocão e sua turma. O samba tem ótima letra e melodia interessante. Quando o efeito “Festa no Arraiá” passar, creio que este samba começará a ser melhor notado. Não é todo dia que um craque faz gol de bicicleta; esse foi um tento com toque na saída do goleiro. Não tão impactante, mas também importante.

- Beija-Flor, Tijuca e Grande Rio têm os sambas mais fracos da safra. Não por acaso, os três enredos mais complicados.

Para encerrar, um pedido

Que as assessorias de imprensa das escolas não encarem isso como crítica, até porque eu tenho certeza de que sua área de atuação nas quadras é bem limitada – fui assessor e sei bem disso. Há muitos entraves dentro das agremiações e muitos dirigentes ainda não entendem – ou não querem entender – a importância do trabalho da imprensa nas quadras. O fato é que as condições de trabalho precisam melhorar. É frustrante chegar para transmitir e, salvo raríssimas exceções, encontrar áreas mal localizadas e apertadas, com poucos pontos de luz e sem internet de qualidade.

Jornalista está na quadra para trabalhar. Não está para comer e beber – sei que muita gente pensa isso da imprensa e, infelizmente, alguns colegas dão razão a esse tipo de comentário. O jornalista só quer ter condições mínimas de trabalhar. Com a internet e a popularização das redes sociais, o público potencial do carnaval só multiplica e as pessoas, onde quer que estejam, querem saber de tudo em tempo real.

Frustra um pouco saber que, em alguns momentos, não conseguimos suprir essa demanda de informações por fatores que fogem à nossa área de atuação, mas poderiam ser minimizados com procedimentos simples. Basta apenas reservar um lugar digno, com algumas mesas e pontos de luz. E, se possível, internet para todos. Qualquer local de grandes eventos no mundo tem sala de imprensa. As quadras, que a cada dia mais se transformam em casas de show, precisam se adaptar a esta realidade.