Por Murillo Victorazzo
Desde a chegada da família real ao Brasil, em 1808, a cidade do Rio de Janeiro passou por profundas transformações urbanas, sempre inspiradas no urbanismo europeu. A influência política e cultural francesa sobre as elites brasileiras se aprofundou com a proclamação da República, e, sob este contexto, deu-se em especial a reforma do prefeito Pereira Passos, realizada entre 1902 e 1906 e inspirada nas ideias do barão Georges Haussmann, responsável pela modernização de Paris na segunda metade do século anterior.
Em processo de formação de uma nova nação, a capital federal deveria ser o símbolo da “pretensão civilizatória” do país (Carvalho, 2014), um processo que acompanhava as transformações econômica pelo qual a cidade passava: o final do século XIX marcara o início da industrialização brasileira. Essas alterações estruturais impactaram positiva e negativamente a geografia social carioca.
Em tempos de “Belle Époque”, ser a “Paris dos Trópicos” denotava para Pereira Passos a modernização do porto; ampliação e iluminação de ruas; implosão de morros como o do Senado; abertura de avenidas no estilo dos boulevards franceses (exemplos principais são as avenidas Francisco Bicalho, Rodrigues Alves e a Avenida Beira Mar); obras de saneamento; a canalização do mangue na Cidade Nova - e seu marco principal: a construção, em 1905, da Avenida Central (hoje Avenida Rio Branco). Cortando de “mar a mar” a Cidade Velha, a intervenção exerceu uma centralidade no projeto de transformação da cidade. Sua principal finalidade era solucionar as dificuldades de distribuição dos produtos do porto às áreas comerciais. Para tal, demoliu cerca de 700 edificações, especialmente os inúmeros cortiços presentes nas redondezas, que, em meio a recorrentes epidemias, eram vistos com “fontes de insalubridade”.
A “guerra” a estas moradias coletivas de precárias condições de higiene já havia sido iniciada 12 anos antes, quando então prefeito Barata Ribeiro montou um enorme esquema militar-policial para derrubar o célebre Cabeça de Porco, cortiço situado próximo à Central do Brasil. Civilizar-se significava, portanto, não apenas embelezamento urbano e a construção de equipamentos culturais como o Teatro Municipal (inaugurado em 1909). Significava o afastamento das classes mais baixas do centro político e econômico da cidade porta de entrada do país, em um momento de intenso êxodo rural devido à industrialização e ao fim da escravidão. Entre 1870 e 1890, a população da cidade aumentara de 235 mil para 520 mil habitantes, um crescimento de 125% em apenas 20 anos, número desproporcional à capacidade de absorção de seu mercado de trabalho e sua infraestrutura.
A influência europeia se refletia também na incorporação de novos hábitos. Até aproximadamente 1850, as praias eram utilizadas apenas para depósito de dejetos urbanos e a coleta de mariscos e pesca feitas pelas classes marginalizadas. Apenas a partir da metade final do século, o banho de mar começa a ser visto com outros olhos. Embora sofrendo ainda alguma resistência por ser alvo de crenças, passa a ser indicado para fins medicinais e, na virada para o século XX, torna-se espaço de lazer e esporte. Importava-se a “novidade civilizatória” dos moradores de Londres, que, com a conexão ferroviária construída em 1841, haviam passado a se entreter no balneário de Brighton.
Ser civilizado denotava também a partir de então copiar o resgate europeu dos valores clássicos do mens sana in corpore sano, deixando de lado o forte preconceito em relação às atividades que exigiam esforço muscular oriundo da escravidão. O remo, por exemplo, substituiu o turfe na preferência popular, “influenciando a vida cotidiana da cidade, instituindo novos desejos, novas formas de relacionamento, novas maneiras de se vestir e se portar” (Peres, Melo, 2017). Tratava-se de uma mudança comportamental que ia ao encontro das pretensões elitistas das reformas urbanas em implementação. Não por acaso, Pereira Passos alargou a Avenida Atlântica e construiu o túnel que liga Botafogo a Copacabana.
A valorização das praias cariocas imprimiu à cidade “um novo padrão de distribuição interna das classes sociais, radicalmente distinto daquele vigente até aproximadamente 1890, pela difusão da ideologia do morar à beira-mar como estilo de vida moderno”. (De Jesus, 1999) De olho nesse novo estilo de vida possível à elite econômica e cultural carioca, o setor imobiliário começou a investir no que hoje chamamos de Zona Sul, enquanto aos mais pobres e marginalizados, desalojados dos bairros centrais, restaram os subúrbios e as favelas, que, existentes desde 1897, começaram a crescer progressiva e desordenadamente.
Os trabalhadores com empregos mais estáveis rumaram para os subúrbios, que, por sua rede de transporte público caro e exigências de regulamentações de construção impostas por Pereira Passos, eram proibitivos para os trabalhadores informais. A proximidade com o lugar de trabalho incentivava essa parcela mais vulnerável a apelar a moradias precárias e irregulares nas encostas. Erguido fundamentalmente por ex-combatentes da Guerra dos Canudos relegados pelo governo, o “Morro Favella” (hoje morro da Providência), localizado na Zona Portuária, próximo à região central, é, não sem controvérsias, considerado seu primeiro exemplo, a ponto de seu nome ter logo se tornado o termo pelo qual são chamadas as demais comunidades de mesmo perfil.
“A forma urbana desejada pelo prefeito, o subúrbio, se revelou contraditório, porque os subúrbios eram tidos como a solução para o problema habitacional dos trabalhadores, ao mesmo tempo, essa solução foi inviabilizada e desenvolveu o seu contraponto, a favela, que, por sua informalidade e falta de controle, simbolizava tudo o que se pretendia erradicar na cidade” (Silva, 2019). Em paralelo, São Cristóvão, bairro abandonado pela elite que até então o privilegiara pela proximidade com a residência da família real, transformou-se em bairro industrial de população operária. Outras vilas operárias já haviam nascido no final do século XIX perto das indústrias em crescimento, como em Bangu e Vila Isabel, muitas formadas também por imigrantes.
Embora sob uma sociedade escravista rigidamente estratificada e repleta de privilégios, o Rio de Janeiro colonial não apresentara uma hierarquização espacial. Na capital federal republicana, o cenário se alterava. Ao final das primeiras décadas do século passado, ricos e pobres estavam ainda mais distantes, não só economicamente como geograficamente. O objetivo das reformas urbanas do início do século passado era “curar uma cidade considerada doente”. No entanto, ao mesmo tempo que “modernizou” a cidade, ampliando-a, embelezando-a e saneando-a, acabou por agravar ainda mais crise habitacional e trouxe consigo a “segregação residencial e a exacerbação da estratificação social” na cidade. (Santana, Soares)
A reação que houve à obrigatoriedade da vacina (“a Revolta da Vacina”, em 1904), decisão que acompanhava a campanha de saneamento contra a febre amarela, varíola e peste bubônica inserida no projeto de modernização, pode ser entendida como canalização do incômodo da população mais pobre com o método violento usado pelo governo para removê-la. Reação represada em certo tempo e intensidade pela geração de milhares de empregos destinados basicamente a essa parcela da sociedade em decorrência do reaquecimento do setor de construção civil.
Os sinais de ambiguidade da reformas urbanas pelas quais passou o Rio de Janeiro são, portanto, inúmeras. Mas simbolicamente talvez a maior seja a valorização de suas praias e o culto saudável ao esporte ao ar livre. Mais do que financeira e cultural, uma valorização sentimental. A partir de então, tornar-se-iam se não apenas a imagem da cidade para turistas mas parte intrínseca da identidade carioca, qualquer que seja sua classe social, mesmo os que não as frequentam rotineiramente. É consequência, contudo, do viés elitista daquelas transformações, que paradoxalmente até hoje perdura.
A Reforma Pereira Passos, mesmo sem dar diretamente aos esportes algum papel protagonista, propiciou maior acessibilidade à orla marítima, estimulando o uso recreativo das praias e os esportes náuticos. “Certamente, a Reforma Passos já foi estudada sob os mais diversos ângulos, mas sua contribuição ao desenvolvimento da atividade esportiva da cidade é ainda uma pequena lacuna.” (De Jesus, 1999)
Desde que Dom João VI mudou-se para a cidade, sempre houve nela o contraste entre idealização e realidade, entre o ser e o parecer. A Rua do Ouvidor, em meados do século XIX, já era o sonho da Paris tropicalizada, com seu cafés elegantes, madames e senhores trajados como europeus, lojas de roupas importadas e calçamento de paralelepípedo, em meio a ruelas escuras com esgoto a céu aberto e quase metade da população formada por escravos. A Corte como centro irradiador cultural, mas ao mesmo tempo com caráter de exceção. (Schwartz, Starling, 2015)
As transformações urbanas do início do século XX, realizadas sob poderes excepcionais dados ao prefeito nomeado pelo presidente Rodrigues Alves, foram o auge dessa ambiguidade, uma metonímia das contradições da “Cidade Maravilhosa”, uma cidade segregada mas ao mesmo tempo com espaços de convivência entre classes, linda porém caótica.
Referências bibliográficas:
CARVALHO, A. Rio de Janeiro a partir da chegada da Corte: planos, intenções e intervenções no século XIX. Projetos urbanos e formação da cidade oitocentista. Paranoá, Brasília, nº 13, 2014.
DE JESUS, G. M. Do espaço colonial ao espaço da modernidade: os esportes na vida urbana no Rio de Janeiro. Scripta Nova Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales. Universidad de Barcelona. nº 45 (7), 1 de agosto de 1999
MELO, V.A; PEREZ, F.F. Rio de Janeiro, uma cidade esportiva: um panorama histórico. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. n.13, 2017, p.465-476
SANTANA, F. T. M.; SOARES, M.R. Reforma Passos: cem anos de uma intervenção excludente. Disponível em: Microsoft Word - REFORMAS PASSOS CEM ANOS DE UMA INTERVENÇÃO EXCLUDENTE.doc (observatoriogeograficoamericalatina.org.mx)Links para um site externo. Acesso em: 28 ago. 2024.
SILVA, M.G.C.F.S. Reforma Urbana Pereira Passos: resistências de uma população excluída. Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v. 50, n. 1, mar./jun., 2019, p. 409–447.
SCHARTZ, L.; STARLING, H. Brasil, uma biografia. Rio de Janeiro: Cia das Letras (2015).
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