quinta-feira, 5 de setembro de 2024

África, uma história mal contada

Por Murillo Victorazzo

A História da África ensinada nas escolas brasileiras foi durante muito tempo relegada ao silêncio ou a apêndices para discorrer sobre outros assuntos. A lei 10.639, sancionada em 2003, alterou as diretrizes e bases da educação para estabelecer a obrigatoriedade do ensino da “História e cultura afro-brasileira”. O avanço, contudo, ainda não denotou a eliminação completa de superficialidades, equívocos e estereótipos decorrentes de interpretações mitológicas ou supostamente científicas que serviram para legitimações do imperialismo e de seu produto aqui socialmente mais enraizado, o racismo.

Exceto alguns documentários em canais como National Geographic, o que a imprensa e a indústria cultural nos passa sobre a África se resume a epidemias, fome, guerra civis, uma fauna exótica e belezas naturais. É cool viajar para fazer safari... Também o docente em História é fruto do contexto social e a partir dele faz suas representações do real. “Para entendermos algo, quase sempre, fazemos uso de nossa cosmovisão e estrutura de explicação do universo, emprestando significados ao que está sendo observado ou apresentado”. (Oliva, 2003)

No Brasil, quem sentou-se nos bancos escolares até o final da ditadura militar recebeu um curso de História basicamente positivista, ou seja repleto de memorizações de datas e nomes de “heróis” e governantes. Tudo a partir de um olhar de cima para baixo e essencialmente eurocêntrico. O positivismo como corrente historiográfica hegemônica no século XIX defendia a exclusividade dos documentos como fonte de estudos. Se a História, entendida como a Antiguidade, surgira com a escrita, povos que não a detinham eram povos sem história. Assim seriam, portanto, os da África, onde durante muitos séculos, especialmente nas regiões subsaarianas, predominava a tradição oral ou ideogramas, não havendo códigos escritos.

Para estes historiadores, a construção da História do continente se iniciara somente a partir do início das relações entre africanos e europeus. “Não só pela ação de registrar e relatar, feita por viajantes, administradores, missionários e comerciantes do século XV ao XIX, mas principalmente pelas mudanças introduzidas pelos europeus na África”. (Oliva, 2003)

Friederich Hegel, um dos principais nomes da filosofia mundial, chegou a seccionar a África em três: influenciadas pela “civilização asiática”, as regiões do Egito e etíope seriam a "África asiática"; o norte do Saara, devido à forte influência da “civilização” da Europa mediterrânea, seria a “África europeia”; e a região subsaariana seria a "África própria", a "verdadeira África", preta e “não civilizada”. A fim de fazer convergir os conceitos de raça e civilização, criava-se assim uma África supostamente branca dissociada do resto do continente. Com esse intuito, “branqueavam-se” egípcios e mouros, por exemplo.

No entanto, os relatos feitos por europeus ainda durante a Antiguidade e Idade Média já vinham permeados de juízos de valores religiosos, morais e ideológicos, além de imprecisões metodológicas. Na cartografia medieval, influenciada pela cosmologia cristã, “o paraíso terrestre se localizava ao norte, distante dos homens, e Jerusalém, local da ascensão do filho de Deus aos céus, no centro. A Europa, cuja população descendia de Jafet, primogênito de Noé, ficava à esquerda (do observador) de Jerusalém e a Ásia, local dos filhos de Sem, netos de Noé, à direita. Ao Sul, aparece “o continente negro e monstruoso”, a África. Suas gentes eram descendentes de Cam, o mais moreno dos filhos de Noé”. (Oliva, 2003) Segundo a mitologia cristã, Cam foi punido por flagrar seu pai nu e embriagado e, por isso, seus descendentes teriam sido condenados a serem escravos dos descendentes de seus irmãos e habitarem o norte da África.

Indo mais além, as lendas sobre monstros, seres humanos deformados e hábitos demoníacos abaixo da linha do Equador ganhavam mais aderência pela presença da pele de cor negra, cor associada à escuridão, ao mal. Eram “criaturas das sombras”: “O Diabo, nos tratados de demonologia, nos contos moralistas e nas visões das feiticeiras perseguidas pela Inquisição era coincidentemente quase sempre negro” (Del Priore e Venâncio, 2004: 56 apud Oliva, 2003). Junto a essas percepções mitológicas, vinha o estranhamento climático. No século XI, Vicente de Beauvais, dominicano e leitor da família real francesa, afirmava que, ao norte, os homens seriam sadios e belos, enquanto ao sul, frágeis, doentes e feios. “Por culpa do clima tórrido, seus corpos negros e moles eram sujeitos a males como a gangrena, a epilepsia, as diarreias. Ao norte, os corpos, isentos de doenças, teriam uma coloração rosada”. (ibidem: 58)

Ao longo do contato estabelecido durante a Idade Moderna, o viés eurocêntrico pouco se alterou, incorporando outras representações distorcidas. Em muito auxiliada pela mito da “maldição de Cam”, é na ausência da “fé cristã” em grande parte de um continente dominado por “cultos pagãos” e o islamismo que se busca legitimar a colonização. No século XV, duas encíclicas papais deram direito aos reis de Portugal “de despojar e escravizar eternamente os maometanos, pagãos e povos pretos em geral”. No século XIX, o imaginário europeu que hierarquizava raças ganhou bases científicas a partir das teorias darwinistas sobre seleção natural. Segundo o darwinismo social, os africanos - primitivos, tribais e incapazes de aprender – ocupavam os últimos degraus da evolução das “raças” humanas”, o que justificaria as intromissões militares, econômicas, religiosas e ideológicas no continente. As anexações territoriais imperialistas seriam “civilizatórias”.

Os movimentos de independência em meados do século passado começaram a alterar as interpretações históricas ao, potencializadas por descobertas arqueológicas, permitirem o surgimento de uma historiografia produzida por africanos. Hoje é possível difundir que, ao contrário da imagem de sociedades “exóticas” e “primitivas”, houve no continente, muito antes a invasão europeia, impérios sofisticados, com complexas estruturas político-administrativas e culturas e religiosidades diversificadas mesmo dentro de seus domínios. Impérios ricos e tecnologicamente avançados, como, por exemplo, os egípcio, do Mali, de Gana, além dos reinos de Kush e Axum, precursores dos primeiros estados burocráticos. “As tecnologias de mineração e metalurgia, a agricultura, a criação de gado, as ciências, a medicina, a matemática, a engenharia, a astronomia, enfim, todo um conjunto de conhecimento tecnológico e reflexão filosófica, caracterizavam tanto os Estados africanos como outras coletividades menores”. (Larkin, 2008)

No Brasil, a a-historicidade da África caiu em desuso com o materialismo histórico e a Nova História, correntes historiográficas predominantes a partir da redemocratização. No entanto, as mudanças foram muitas vezes ortodoxas, limitando-se a modelos vulgares de análises marxistas sobre estruturas econômicas. (Oliva, 2003) Apesar dos relevantes avanços, o estudo da História da África aqui ainda serve como mero apêndice para o estudo da escravidão no Brasil ou concentra-se nos efeitos deletérios da exploração econômica do imperialismo - muitas vezes colocando os africanos como sujeitos passivos da História. Reduz ou comete equívocos sobre a diversidade étnica da região e se omite de explicar as diferenças entre “percepções e definições daquilo que os ocidentais chamam de religião e as elaborações africanas sobre a questão”. (Oliva, 2003) Consciente ou não, acabam por renovar os estereótipos de que são sociedades simplórias, violentas e “pagãs” e resumir novamente o negro a mera força de trabalho explorada, mal preparada e inerte - em resumo, em tudo inferiores. Soma-se à deficiente formação de docentes a constatação de que a grande maioria dos livros didáticos não reserva à África espaço adequado para a produção historiográfica sobre ela.

Narrativas do presente sempre encontram raízes no passado, e é por isso que o estudo de História não se destina a satisfazer a meras curiosidades sobre fatos pretéritos. Seu objeto fundamental é correlacioná-los com o presente, ainda que evitando anacronismos. Para nós brasileiros, a África não é apenas o “berço da humanidade”. Sim talvez muitos não saibam, mas foi lá, durante a época geológica do Pliocênico, que se iniciou a “hominização” de nossa espécie. Apenas lá verificou-se, em perfeita sequência geológica, todas as etapas do processo: Homo Habilis, Homo Erectus, Homo Neanderthalensis, Homo Sapiens Sapiens. Foi também na África, ao longo do rio Nilo, que, a partir do domínio das técnicas de domesticação de plantas, a agricultura passou a ser um meio de subsistência, dando início à sedentarização do ser humano e, portanto, ao surgimento das primeiras aldeias e civilizações. 

Para nós, brasileiros, estudar a África é estudar a formação de nosso povo – e, portanto, de suas relações sociais, dentro das quais o racismo é traço estrutural. Sem nos atentarmos a essa relevância, alunos e mais alunos das próximas gerações continuarão a repetir estereótipos e estigmas.


Referência bibliográficas

LARKIN, E. N. A matriz africana no mundo. São Paulo: Selo Negro, 2008

OLIVA, A.R. A História da África nos bancos escolares. Representações e imprecisões na literatura didática. Estudos Afro-Asiáticos, Ano 25, no 3, 2003, pp. 421-461

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