Murillo Victorazzo*
É recorrente o torcedor brasileiro lamentar não haver em seus times ou principalmente em sua pentacampeã seleção a famosa “raça uruguaia”. Embora muitas vezes trate-se apenas de senso comum que ofusca as razões verdadeiras da derrota, não adianta, esta é a imagem que o futebol do Uruguai cultivou. Imagem que não é apagada nem quando a pancadaria rola solta com torcedores e jogadores do país, digamos, pouco tolerantes aos reveses no gramado. Eles são “raçudos"; os outros, violentos...
Mas há outras características invejáveis desse pequeno país ao sul que chegou a pertencer ao Império brasileiro durante sete anos sob o nome de Província Cisplatina. Neste domingo, dia 27, o Uruguai vai às urnas para escolher quem será seu presidente pelos próximos cinco anos em contexto que deveria ruborizar não apenas o eleitor do Brasil mas, em alguns aspectos, também o da Argentina, os dois vizinhos presentes em sua gênese como Estado-nação: sua independência foi a forma encontrada para por fim à guerra de três anos entre os dois gigantes regionais pela posse de seu pequeno mas estratégico território.
A expectativa entre os uruguaios é saber se as chaves da Torre Ejecutiva (a sede do governo) voltarão às mãos da esquerda após serem tomadas dela via voto em 2019, quando a vitória do centro-direitista Luis Lacalle Pou encerrou um período de 15 anos de governos da Frente Ampla. Segundo pesquisa divulgada pelo instituto Factum nesta quinta-feira, o candidato do partido, Yamandu Orsi, lidera com 45,5%. Intendente (prefeito) de Canelones, a segunda maior região do país, Orsi é considerado "pupilo" do carismático ex-presidente Pepe Mujica, ícone do progressismo latino-americano. Proibido pela Constituição de tentar a reeleição, LaCalle Pou, do Partido Nacional, lançou seu braço direito, o ex-senador e ex-secretário-geral da Presidência Álvaro Delgado, hoje com pouco mais de 25%, enquanto Andrés Ojeda, com 15%, representa o Partido Colorado, outra sigla de centro-direita e integrante da base governista, a “coalizão multicor”.
Mas não é necessariamente o favoritismo da esquerda que torna o Uruguai admirável e sim, por, entre outros motivos, a direita com chances de vencer não representar o reacionarismo distópico do bolsonarismo e sua versão "anarcocapitalista" argentina que se encontra hoje na Casa Rosada. Candidato pela segunda vez, o general aposentado Guido Manini não deve alcançar mais do que 5% depois de obter consideráveis 11% cinco anos atrás. Considerado o "Bolsonaro uruguaio", Manini é fundador do Cabildo Abierto, legenda de extrema-direita que reverbera muitas das propostas mais radicais do ex-presidente brasileiro em relação a armas, direitos de minorias, direitos humanos, meio-ambiente, além da igual negação dos crimes da ditadura cívico- militar ocorrida no país entre 1973 e 1984.
Manini notabilizou-se após ser afastado, em 2018, do comando do Exército e preso por 30 dias pelo então presidente Tabaré Vázquez por dar declarações contra a reforma da previdência dos militares e criticar decisões da Justiça sobre violações dos direitos humanos ocorridas naquela ditadura. A Constituição uruguaia proíbe militares da ativa de participar de qualquer atividade política "exceto o voto". Diante de tudo que ocorreu nos últimos dez anos aqui no Brasil, especialmente os quatro em que Bolsonaro esteve no Planalto, um fato que deveria ser invejado pelos brasileiros. Alguns de seus assessores diretos são militares condenados ou suspeitos de crimes da ditadura. Em entrevista ao programa televiso Buen Día Uruguay, chegou a afirmar que o país estava “se africanizando”, com uma “cultura imposta de não trabalho e falta de respeito”.
Em 2019, o Cabildo Abierto conseguiu eleger três senadores e 11 deputados, resultado próximo ao dos tradicionais colorados e suficiente para não poder ser ignorado pelo presidente eleito, sendo convidado a comandar um ministério na "coalizão multicor". Aquele pleito representou a primeira vez em que mais de cinco partidos (ou “lemas” como são chamados) conseguiram ter assento na Câmara de Representantes. Com sete siglas presentes, foi a maior fragmentação partidária da história uruguaia, ineditismo constrangedor para o brasileiro acostumado com o exacerbado pluripartidarismo nosso, no qual cerca de 20 legendas têm representantes no Congresso.
O desempenho surpreendente de Manini e sua turma aparentava ser o segundo realinhamento partidário na História do Uruguai; o primeiro havia sido o crescimento da Frente Ampla 25 anos atrás. Mas já em 2020, na eleição para as 19 intendências (prefeituras) do país, o reacionarismo não conseguiu repetiu o bom desempenho do ano anterior. Houve uma guinada à direita, mas em favor da (centro) direita tradicional, com a Frente Ampla perdendo três dos seis departamentos que administrava, todos para o Partido Nacional.
O estabilidade do sistema partidário uruguaio sempre foi exemplo para a América Latina. Os partidos Colorado e Nacional, as duas siglas mais tradicionais do país, antecedem-se à consolidação do Uruguai como nação, sendo fontes de identificação e referências culturais para a sociedade uruguaia até hoje. Emancipados oficialmente do Brasil em 1828, grupos ligados às elites rurais e urbanas confrontaram-se em guerras civis intermitentes até a o final da segunda do século passado, quase sempre atraindo cada um grupos aliados argentinos e brasileiros. Numa época em que os três países estavam ainda em construção sociopolítica, as elites locais se dividiam e detinham forças paramilitares tão ou mais fortes que os exércitos nacionais. Os primeiros deram origem ao Partido Nacional e os segundos ao Partido Colorado
O maior desses conflitos internos, a Guerra Grande (1839-1851) ganhou tamanha dimensão que se tornou uma guerra internacional. O Partido Nacional, com tradição mais ibérica e protecionista, alinhou-se aos federais na Argentina e aos farroupilhas no Brasil, enquanto o Colorado, com visão liberal e pró-europeia, especialmente conectada à França e à Grã-Bretanha, defendia o livre comércio e a modernização do país, aliando-se aos "unitários" argentinos. O cerne ideológico que os diferenciava era a defesa ou não do federalismo, o que levou o Império brasileiro a pender para o segundo, em um conflito que atraiu ainda ingleses e franceses.
Foi na Batalla de Carpinteria (1836), ponto de partida da guerra civil, que os dois partidos se formalizaram. Na ocasião, seu líderes l, Manuel Uribe e Frutuoso Rivera, decidiram distinguir-se colocando respectivamente faixas brancas e vermelhas nos braços de seus combatentes, cores pelas quais, a partir de então, ficaram conhecidos na sociedade uruguaia: los blancos y los colorados.
Ali iniciava-se um sistema bipartidário que, exceto durante a ditadura militar, comandou os uruguaios até 2004, quando a Frente Ampla chegou ao poder pela primeira vez. Entre a violência política e arranjos, o sistema, mais do que a governabilidade, moldou a construção do país. Os colorados, porém, vieram a ser derrotados no voto pelos rivais apenas nos anos 50, o que leva o cientista político Giovanni Sartori considerar o Uruguai um país sob sistema de partido predominante naquele período: o triunfo eleitoral blanco de 1958 deu fim a 93 anos de governos colorados.
A ascensão do colorado Jorge Battle y Ordônez em 1903 significou o fim das guerras civis e o início do battlismo, corrente do partido que modernizou o país até então essencialmente rural. Durante seus dois mandatos (1903-1907 e 1911-195) e nos de seus seguidores sucessores, implantou-se uma série de reformas que, no Brasil da República Velha, nem sequer aventava-se. Distanciando-se de socialistas e conservadores, laicizaram o Estado, criaram e expandiram o ensino público obrigatório (fundamental para as baixas taxas de analfabetismo vista já durante todo o século passado, ao contrário do Brasil), reduziram a jornada de trabalho urbano para oito horas diárias, estabeleceram fundos de previdência, garantiram o direito à sindicalização, aplicaram leis contra o latifúndio tradicional e aplicaram medidas keynesianas na condução da economia. Enquanto isso, as oligarquias rurais brasileiras, no comando da República, embarreiravam qualquer atuação estatal que não fosse em benefício do café.
O Uruguai é considerado o país mais laico das Américas há mais de um século. Desde 1906, não há crucifixos, ou qualquer símbolo religioso, em repartições publicas e casas legislativas. O juramento presidencial se refere à honra do governante e do país, excluindo menções a Deus. Em 1916, quatro anos depois da Argentina, foi aprovado o voto secreto, estabelecido no Brasil apenas em 1932. Em 1927, foram pioneiros na América Latina em relação ao voto feminino, direito garantido às brasileiras e argentinas somente em 1932 e 1947 respectivamente.
Exemplo mais impressionante de vanguarda é a lei do divórcio, estabelecida no Uruguai em 1907 - 70 anos antes do Brasil ( na Argentina, foi em 1954). O avanço foi consolidado seis anos depois, quando se permitiu à mulher divorciar-se independente do consentimento do marido. A formação de um amplo Estado de Bem-Estar Social, o mais antigo da região, levou o país a ser conhecido, já em meados do século XX, como a "Suíça sul-americana", dados os elevados índices de desenvolvimento humano (IDH) e estabilidade social e política.
Colorados e blancos, contudo, sempre apresentaram grupos internos dissonantes; na prática, tratava-se de dois "guarda-chuvas" que abrigam tendências tanto à centro-esquerda como à direita, o que permitiu algum grau de continuidade nas políticas públicas. Essas disputas internas explicam a exigência de eleições primárias internas para a definição de candidatos. Mesmo nos governos blancos, não houve fortes regressões na concepção básica de Estado alicerçada por Battle y Ordônez, cuja família fez outros três presidentes. As semelhanças em visões econômicas aumentaram quando, seguindo a onda mundial da década de 90, ambos deram uma guinada à direita, passando a defender reformas "neoliberais", ainda que não da forma extremada como ocorrida em paralelo na Argentina de Carlos Menem e defendida atualmente pelos discípulos de Javier Millei e Paulo Guedes.
A queda na renda do trabalhador, a duplicação do desemprego e o forte crescimento da pobreza que se sucederam a essas reformas abriram terreno para a chegada da Frente Ampla à Torre Ejecutiva em 2004. Sua ascensão, contudo, começou em 1994, quando as eleições terminaram em quase empate tríplice (32% para colorados, 31,2% para blancos e 30,6% para a Frente Ampla). No Uruguai, além de lista fechada para parlamentares, é proibido o voto em partidos distintos para Executivo e Legislativo. Até então a presença de parlamentares que não fossem das duas legendas tradicionais era residual. Era o início do fim do centenário sistema bipartidário. Também uma espécie de "guarda-chuva", o partido, criado em 1971, reúne grupos da centro-esquerda à esquerda. Seus fundadores iam de membros do grupo guerrilheiro Tupamaro, como Mujica, a dissidentes blancos (o Pólo Progressista) e colorados (o Batllismo Progressista).
O primeiro realinhamento partidário em mais de 150 anos marcou o surgimento do que cientistas políticos chamam de "multipartidarismo bipolar", no qual os partidos se dividem em dois blocos: de um lado, blancos e colorados, apoiando-se sempre nos segundos turnos; no outro, a Frente Ampla. Ambos com quase metade das preferências do eleitorado cada um. Hoje com base nos sindicatos, movimentos sociais e setores da classe média urbana, a Frente Ampla apresentou grande moderação ideológica até alcançar o governo. Um movimento semelhante ao feito pelo PT, que, entre todos os defeitos que possa ter, é extremista ou "comunista" apenas no vazio intelectual do bolsonarismo e seus satélites de sapatênis.
"Quem será o ministro da Economia da Frente Ampla é um homem que passou a vida vinculado com escritórios jurídicos e econômicos que trabalham com multinacionais. Possui um discurso muito favorável a melhorar as regras de mercado para tornar o Estado mais eficiente. É pouco estatista até mesmo para a média uruguaia”, garante o analista político e diretor da consultora Factum, Oscar Bottinelli ao portal da Rádio França Interncional (RFI)
A partir da eleição de 1999, o partido tornou-se o mais forte do país, sempre ficando em primeiro lugar no primeiro turno com entre 35% e 45% dos votos. Seu três mandatos - dois com Vázquez (2005-2009 e 2015-2019) e um com Mujica (2010-2015) - foram marcados pela regulação do consumo, produção e comercialização da maconha, a aprovação do casamento homoafetivo ( três anos depois dos argentinos), dando o direito à adoção de crianças para estes casais, e a volta do direito ao aborto, que, após ser estabelecido em 1934, havia cessado pela ditadura de Gabriel Terra três anos depois. Desde 2012, a interrupção da gravidez é permitida até a 12º semanas. Em casos de estupro, o limite é prolongado por mais duas semanas, podendo ser realizada em qualquer momento se houver risco para a mãe ou malformação do feto. Na Argentina, a legalização do aborto ocorreu em 2020.
Parâmetro mais utilizado para se medir a desigualdade econômica, o índice de Gini caiu de 0,46 para 0,39 nos durante os 15 anos de governo da Frente Ampla ( quanto mais perto de zero, menos desigual é o país). A taxa de pobreza passou de cerca de 30% para menos de 8%, segundo o Banco Mundial, e o desemprego caiu de 13% em 2005 para 8,5% em 2019, atingindo 6% no meio desse período. O país tornou-se o de maior classe média na América Latina em proporção à sua população, ultrapassando os 60%" entre 2007 e 2018. No entanto, os últimos três anos significaram reversão na trajetória do desemprego, baixo crescimento econômico (cerca de 1% ao ano), déficit fiscal e o aumento na violência no país, que, embora em taxas invejáveis para os brasileiros, foram suficientes para mudar o humor de uma sociedade acostumada a sentir-se segura. Em 2018, o Uruguai, pela primeira vez, alcançou os dois dígitos na taxa de homicídio: 11,8 assassinatos a cada cem mil - 420 mortes para uma população de cerca de três milhões de habitantes. Um crescimento de 45% em relação ao ano anterior.
Segurança pública foi o assunto primordial e uma das razões do crescimento do Cabildo Abierto nas eleições de 2019, quando os blancos voltaram a vencer após 25 anos. O último presidente filiado ao partido havia sido Luis Alberto Lacalle, pai do vencedor. Uma vitória alcançada em segundo turno por mínima diferença de 28 mil votos (pouco mais que 1%). No primeiro turno, Daniel Martinez, candidato da Frente Ampla, obtivera 39%, onze pontos a mais que Lacalle Pou. Derrotado por Vázquez em 2014, o blanco, com o apoio de colorados e Manini, conseguiu virar, em mais uma evidência do "multipartidarismo bipolar". Durante a campanha, Lacalle Pou fez questão de distanciar-se de Bolsonaro: "Pelo bem da região, pelo bem do povo brasileiro, sem conhecê-lo, desejo-lhe sucesso, mas devo dizer que talvez não seja minha maneira de fazer política", declarou em entrevista à Gazeta do Povo.
Os cinco anos de Lacalle Pou não reverteram o criticado déficit fiscal e a sensação de insegurança. Em 2023, foram 11,2 homicídios por 100 mil habitantes, praticamente a mesma de 2022, quando os homicídios aumentaram quase 26% em relação a 2021. Impulsionada em parte pela expansão de gangues criminosas vindas de outras partes do continente, o número representa o dobro de Argentina e Chile. No Brasil, o índice, mesmo em trajetória descendente, foi quatro vezes maior ano passado. Tampouco rompeu-se com politicas progressistas da Frente Ampla, mesmo sendo o presidente pessoalmente contra algumas delas. Como deputado, votou contra a ampla legalização do aborto (favorável apenas nos casos de estupro e risco de vida à gestante) e o casamento homoafetivo, tendo preferido propor a união civil. Em resposta impensável para um candidato de direita do Brasil atual, afirmou durante a campanha de 2019: 'Sou a favor de politicas para combater o aborto, não torná-lo ilegal".
Sobre a legalização da maconha, Lacalle Pou foi autor de projeto que liberava o cultivo para consumo próprio. Suas críticas se resumiam, como candidato, a forma de atuação estatal na venda da droga em farmácias. No governo, nada propôs. Embora criticado pela esquerda por ter alterado dois artigos da lei de violência de gênero, reconhece o problema, tendo colocado em seu programa um capítulo dedicado a "políticas de gênero". Jamais soltaria frases como "homens também morrem", como políticos bolsonaristas já soltaram quando defrontados com políticas contra feminicídio, fingindo não entenderem que homens não morrem por serem homens.
A vice-presidente Beatriz Argimón, embora católica e contra o aborto, tem como mote politicas de representação equitativa para mulheres, pontos considerados irrelevantes, quando não ridicularizados e combatidos, para a turma que governou o Brasil entre 2019 e 2022. Antes mesmo da esquerda chegar ao poder, o Uruguai já havia promovido avanços importantes na direção da igualdade de gênero, como a aprovação de cotas para mulheres no Congresso.
Os blancos em geral são vistos como mais conservadores que os colorados na agenda de costume, ainda que não haja consenso interno em muitos pontos. No entanto, a juventude do partido se mostra favorável ao que no Brasil o bolsonarismo chama de "marxismo cultural". Como exemplo mais gritante da diferença, a lei que garantiu direitos a transexuais teve o apoio de deputados da esquerda, blancos e colorados. Com votos favoráveis de 62 dos 88 parlamentares, desde 2018, é garantido acesso a cirurgias e tratamentos hormonais, além de cota de 1% das vagas na administração pública e incentivos fiscais a empresas privadas que implantarem políticas voltadas para esse grupo social, alvo frequente de Nicolas Ferreira, o "garoto prodígio" da direita brasileira.
Tampouco ouve-se de Lacalle Pou e seus militantes bravatas contra os direitos humanos e a negação dos crimes da ditadura militar. É difícil imaginar ouvir dos principais políticos blancos e colorados frases como "Direitos Humanos é esterco de bandido". Na pandemia da Covid, se não impôs lockdowns rígidos, o presidente estabeleceu, sob o mote da "liberdade responsável", restrições à circulação e desenvolvimento de atividades, ressaltando a gravidade do momento em vez de negá-la a fim de conquista apoio voluntário dos cidadãos. Dele não se ouviu nenhuma frase estimulando dúvidas acerca de vacinas e máscaras, mentiras como correlação com AIDS e teorias da conspiração sobre a China. Tampouco foi visto em comícios propositadamente aglomerados, como foi a marca de Jair Bolsonaro.
Na política externa, Lacalle Pou não se alinhou automaticamente ao trumpismo, seja no discurso contra "globalismo" como em suas práticas. Embora corretamente denunciando a ditadura de Maduro, jamais flertou com ideias intervencionistas, como o projeto do ex-presidente norte-americano de depor militarmente o autocrata venezuelano. No Brasil, o filho de Jair. aquele que por pouco não foi embaixador em Washington, vibrou com a possibilidade.
A China é encarada naturalmente como o principal parceiro comercial. Nem mesmo quando se dirige à militância do partido, o presidente uruguaio apela a verborragias sobre "ameaça comunista". A importância dada ao gigante asiático é tanta que busca incessantemente flexibilizar o Mercosul para poder finalizar o acordo bilateral de livre comércio com Pequim. Mudanças climáticas não são negadas, tampouco organismos internacionais são tratados como ameaça "esquerdista" à soberania. Pedidos de intervenção militar ou acusações de fraude antes mesmo dos votos serem depositados não encontram eco entre blancos e colorados.
Lacalle Pou foi eleito prometendo austeridade fiscal, corte de impostos e reformas liberais. Contudo, as reformas no sistema de seguridade social foram pontuais, limitando-se, por exemplo, ao aumento da idade mínima para a aposentadoria. Não há dúvidas sobre a importância de um Estado que forneça seguro-desemprego, transferência de renda para famílias mais pobres, recursos estatais para cuidar de crianças e idosos e um sistema de saúde público gratuito. "Quase não importa quem está no poder; há uma espécie de consenso social-democrata que fundamentalmente não muda. O que se ouve são debates sobre taxas de impostos, mais do que sobre o próprio imposto”, diz Nicolás Saldías, analista uruguaio para a América Latina da Economist Intelligence Unit, ao portal Americas Quarterly. “As pessoas no Uruguai se sentem protegidas. Não conheço ninguém que queira mudar isso de forma fundamental.”, completa uma integrante da Juventude Blanca.
Liberais ou até conservadores, mas não reacionários com alucinada sanha antiestatal, tão perniciosa qaunto a "mercadofobia" encontrada em setores da esquerda brasileira. Assim são colorados e blancos. A favor de um Estado menos presente, não o veem como um mal; procuram adequá-lo ao que consideram necessidades atuais. Liberais que não entendem a liberdade como a lei do mais forte nem se agarram ao fundamentalismo de mercado. Muito menos, estimulam o proselitismo religioso na politica, tratando o adversário como o mal a ser combatido pelo cristão e seu candidato o "enviado de Deus". “Se tentarem revogar qualquer uma dessas medidas, haverá uma resistência muito forte. No Uruguai não há uma mobilização popular a favor da agenda contra os direitos humanos. Essa agenda mobiliza minimamente setores evangélicos ou de extrema-direita, mas não somam 20% da população”, diz o historiador uruguaio Aldo Marchesi ao jornal O Globo.
Após governos à esquerda e à direita, o Uruguai tem hoje o terceiro melhor IDH da América Latina, atrás de Chile e Argentina respectivamente, e o 55º do mundo - o Brasil é o 11º da região e 89º do mundo. Apresenta a maior renda per capita da América Latina (cerca de 17 mil dólares ao ano, sendo a média da região 8,3), o menor índice de pobreza (10%) e, apesar de ter voltado a subir levemente no governo Lacalle Pou, a terceira menor desigualdade econômica, atrás apenas de Jamaica e Peru - Gini de 0,406 em 2023. Na Argentina, o índice em 2022 foi de 0,41, mas o recorde de pobreza batido esse ano - impressionantes 54% da população - deve refletir negativamente no próximo a ser divulgado. Embora com números melhores que na década de 90, o Brasil continua a ser o país mais desigual da região, com Gini de 0,52, e uma taxa de pobreza de 27,5%, a menor desde 2012, quando caiu a 22%, segundo a Pnad do IBGE
Organizações internacionais qualificam o Uruguai como o país menos corrupto da região e, segundo a Economist Intelligence Unit, a 13ª democracia mais forte do mundo, à frente de Reino Unido (18ª), Espanha (24ª) e Estados Unidos (26ª), e bem à frente dos latinos americanos Brasil (47ª), Colômbia (59ª) e México (86ª). Após a aprovação da lei do aborto, a mortalidade materna caiu e é a segunda menor das Américas, atrás apenas do Canadá. É ainda o pais da América Latina que mais publica novos livros per capita. Fenômeno mundial, o descrédito com a política existe, mas não tão grave como nos vizinhos. Se comparada às anteriores, a eleição deste ano vem mobilizando menos as ruas e redes sociais.
É óbvio, porém, que o Uruguai não é nenhum paraíso. Se a taxa de pobreza é de 10%, ela dobra entre crianças, adolescentes e negros. O país é um dos mais caros em dólares da região, o que afeta a competitividade da economia. Embora as notas sejam altas para os padrões latino-americanos, apenas 40% dos alunos concluem o ensino médio, uma das taxas mais baixas da região. Casos recorrentes de corrupção abalaram recentemente não apenas o governo Lacalle como a imagem cultivada pelo país: um assessor do presidente foi preso por tráfico de influência, dois ministros tiveram que renunciar ligações com um esquema de passaporte falso que permitiu a fuga de um traficante e um senador da base governista foi condenado por exploração sexual e abuso de menores. A gestão do Estado de bem-estar social vem sendo progressivamente contestada pela população, e a taxa de desemprego atingiu 9% em 2024, a maior em três anos, número ainda maior entre mulheres negras -14%. O país tem a segunda taxa de suicídios da América Latina, depois da Guiana, segundo a OMS
Esse quadro e os índices de violência persistentemente alto para os padrões históricos do país enfraqueceram a candidatura de Delgado e abriram flanco para a volta da Frente Ampla, apesar das previsões de crescimento econômico de 3,5% para esse ano segundo o FMI. No entanto, embora a grande vantagem nas pesquisas indique boas possibilidades de vitória de Orsi no primeiro turno, o cenário atual não é muito diferente ao de cinco anos atrás. A soma de colorados, blancos e Cabildo Abierto projetam outra disputa acirrada em eventual segundo turno ("balotaje"), a ser realizado do dia 24 de novembro. Um cenário que deve voltar a retratar o multipartidarismo bipolar, também notado recentemente no plebiscito de 2002 que manteve a Lei de Consideração Urgente, uma das primeiras medidas do governo Lacalle Pou. Por diferença de 1%, os uruguaios optaram por não revogar artigos da lei que preveem medidas de liberdade financeira e privatizações, endurecimento de penas para criminalidade juvenil e tráfico de drogas e aumento do poder policial em protestos.
Buscando rejuvenescer a imagem, os colorados, que não vencem uma eleição presidencial desde 1994, lançaram como candidato Ojeda, um jovem de 40 anos sem currículo político e cuja campanha foca mais em sua aparência. Não raros são os vídeos em que aparece trabalhando os músculos em academia a fim de fazer correlações entre força, disposição e mudança. Com propostas pouco diferentes das blancas, promete o enxugamento da máquina estatal e inova ao dar atenção à saúde mental. Embora em um distante terceiro lugar, alguns acreditam que sua juventude e pouca relação com o governo atual o torna o melhor nome da (centro) direita para derrotar Orsi.
A Frente Ampla aproxima-se da maioria absoluta na região metropolitana, sendo hegemónica nos bairros populares. A vantagem cai quanto maior é o rendimento médio dos bairros. Embora tenha maioria relativa entre os jovens, sua força está entre os adultos de meia-idade e claramente tem mais apoio entre mulheres do que entre homens. Apesar de forte na capital, perde espaço para os blancos no resto do país. Já os colorados aparecem em terceiro lugar em quase todos os territórios.
Mas, se a sociedade uruguaia é dividida em polos de dimensões praticamente iguais, nenhum deles é extremado. "O Uruguai não gosta de extremos", afirmou Lacalle Pou à Gazeta do Povo. As baixas intenções de voto de Manin reflete, mais do que a não concretização do segundo realinhamento partidário, o gosto uruguaio pelo diálogo e convergência. Contudo, nem sempre foi assim. Além das guerras civis que marcam o nascimento do país, a democracia reimplantada em 1985 deixou para trás 11 anos de uma ditadura reacionária sustentada por retóricas polarizadoras típica da Guerra Fria, tragédia semelhante a ocorrida nos sócios de Mercosul e Chile.
O regime militar uruguaio, diferente do ocorrido nos vizinhos, não se iniciou com quarteladas que derrubaram presidentes civis. Ao contrário, foi um presidente eleito, o colorado Juan María Bordaberry que, acuado, pactuou com militares, sendo, porém, por eles deposto três anos depois. O regime repressivo contou com apoio e participação de setores mais conservadores dos dois partidos tradicionais até seu fim, sendo outros dois nomes seu nomeados presidentes formais, enquanto o poder, através de um "conselho", estava de fato nos quartéis.
A diferença parece ser o aprendizado uruguaio, se entendermos democracia não apenas no sentido formal mas como concepção de sociedade inclusiva. Ao contrario do reacionarismo brasileiro e os adoradores de Millei, uma forte rede de segurança social não é vista como socialismo por blancos e colorados. Ao contrário, sabem que ela fortalece o capitalismo. É bem provável que, ouvindo a direita tradicional uruguaia falar, bolsonaristas, fãs de Pablo Marçal e alguns da nova geração de Faria Limers a rotulem de esquerda, dado ao modismo superficial "anarcocapitalista", a influência radical de Olavo de Carvalho e a influência da proselitismo evangélico.
Por que esta turma é irrelevante no Uruguai e não no Brasil é uma pergunta que a literatura da Ciência Política, Sociologia e História está se fazendo. Hipóteses são várias, e é sempre complexo comparar países de dimensões e heterogeneidades tão distintas. Alguns pontos, porem, podem ajudar a refletir.
Em seu livro "Como as democracias morrem", Steven Levitsky e Daniel Blatt consideram os partidos políticos os "guardiões da democracia", sendo seus líderes "os guardas do portão", responsáveis que são por afastar demagogos autoritários que se vendem como "antissistema". Historicamente foi a permissividade dessas lideranças, seja por leitura errada ou interesses particulares, que permitiu a ascensão ou consolidação desse tipo de "outsider". O PL de Waldemar esta aí pra comprovar. A formação do Estado uruguaio foi profundamente influenciada pelas dinâmicas envolvendo colorados e blancos. Um século depois, veio a Frente Ampla com sua forte base social. A institucionalização e capilaridade dos partidos políticos são traços inerentes à sociedade do país. O voto em lista, se criticado por empoderar cúpulas partidárias na escolha da ordem dos candidatos, reforça a identificação entre eles e os eleitores.
Apesar do caudilhismo do passado e a figura central de Jorge Battle, as disputas políticas no Uruguai, dada à centralidade dos partidos, tornaram-se pouco personalistas, ainda que veteranos como Mujica, Vazquez, Lacalle (pai) e Sanguineti tenham protagonizado as disputas após a redemocratização. O rejuvenescimento dos três partidos é outra marca dessa eleição - o atual presidente e os três principais candidatos têm menos que 58 anos. O personalismo é ainda marca predominante da política brasileira, na qual partidos centenários inexistem, e os existentes, com exceção do PT, nasceram sem base social. A caneta pesou mais do que a mobilização.
A própria mística da raça uruguaia no futebol tem a ver com projetos políticos partidários para a formação da identidade do país. Nos anos de hegemonia colorada, quando ainda se moldava o que é ser uruguaio, battlistas no comando da associação do esporte e do jornal El Día, bancaram a organização do campeonato sul-americano de 1923 no país. A inédita conquista da seleção local os levou a financiar no ano seguinte, sua ida às Olimpíadas de Paris. O time daquele pequeno e desconhecido país praticava um futebol diferente, com toques curtos, e contava com a presença de um jogador negro, algo raro na Europa. Sobrinho de Battle, Lorenzo Battle foi enviado para cobrir a participação. Com a conquista da primeira das duas medalhas de ouro, hoje considerada por eles títulos mundiais, nascia não apenas o termo "Celeste Olímpica" mas o mito do pais pequeno que, contra as probabilidades, vencia pela garra de seu povo.
Mas a cultura associativa no país vai além dos partidos. É comum as pessoas pertencerem também a sindicato, clube de bairro, que por sua vez apresentam vínculos, ou pelo menos alguma conectividade, com o Estado. “Movimentos sociais ativos têm sido o motor da política e da democracia uruguaia”, diz ao Americas Quartely Carolina Cosse, prefeita de Montevidéu, derrotada por Orsi nas primárias da Frente Ampla e convidada por ele para ser sua colega de chapa.
Não é com viés determinista que se analisa as formações socioeconômicas de países, mas certamente pesa a maneira como ele se formou. É consenso na academia que altos graus de desigualdades afetam a coesão social. Do mesmo modo, são notórias a correlação entre esgarçamento do tecido social e crescimento do extremismo. Não por acaso, a direita radical, ou ultradireita como preferem nominar alguns estudiosos, minimiza os males da desigualdade: "coisa de comunista", gritam. Também é óbvio que, quanto mais as instituições retribuem à sociedade sensação de bem estar, menos elas alimentam o discurso contra "sistema", retórica, ainda que falaciosa, de políticos deste tipo de direita.
Conjunturalmente, pesa também a Frente Ampla não ter produzido recessão, inflação descontrolada e casos de corrupção como sentido no kirshinerismo argentino e no governo Dilma, problemas que ajudaram a pavimentar a eleição de Bolsonaro e Millei. Ademais, em um país onde a laicidade é arraigada, 47% são católicos, 11% protestantes e 3% da umbanda, mas 40% não têm religião alguma.
Por estar estrategicamente localizado na entrada na Bacia do Prata, estuário dos rios Paraná e Uruguai, o território onde fica o Uruguai já era motivo de cobiça das coroa portuguesa desde a fundação da Colônia do Santíssimo Sacramento, em1680. Em 1816, a então chamada Província Oriental do império espanhol foi invadida pelo Brasil por ordens do rei Dom João VI, sendo incorporada oficialmente ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves cinco anos depois. A República Oriental do Uruguai nasceu para ser um "Estado tampão" entre o interesses brasileiros e argentinos. Passados séculos, permanecemos almejando muitas coisas de nossa antiga Cisplatina.
Partidos fortemente institucionalizados e orgânicos, aversão à reacionarismo, "raça" no futebol, laicidade arraigada, alto índice de desenvolvimento humano e coesão social fazem parte da identidade do Uruguai, um país cuja História, se comparada a do Brasil, é uma história de sucesso que, em um círculo virtuoso, permite-lhe debates políticos presentes menos radicais, mais amadurecidos e condizentes a seu tempo. “Os uruguaios são sempre tão civilizados, não sei como nos aguentam como vizinhos". Pode soar estranho depois do rastro de vandalismo deixado por torcedores do Peñarol no Rio de Janeiro na última semana, mal talvez faça sentido a frase dita, em tom de brincadeira, pelo jornalista argentino Bruno Bimbi. Afinal, vândalos não são exclusividade de país algum; são encontrados até na admirada Europa.
* Murillo Victorazzo é jornalista, com Especialização em Política & Sociedade (Iesp-UERJ) e MBA em Relações Internacionais (FGV-Rio)




